
Por Aguirre Talento e Gustavo Côrtes, do Estadão Conteúdo
BRASÍLIA – O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça afirmou, durante a sessão de julgamento sobre prisões preventivas do caso Master, nesta terça-feira (16), que recebeu a proposta de um advogado de fazer uma “delação seletiva”. “Perderam o pudor”, disse.
Mendonça não disse o nome do advogado e nem deixou claro se tratar de alguém da defesa de Daniel Vorcaro, que teve sua delação rejeitada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) nesta semana, após a recusa também da Polícia Federal.
Mendonça comentou o episódio dirigindo a palavra ao ministro Gilmar Mendes, que votou por revogar a prisão de Henrique Vorcaro, pai do banqueiro Daniel Vorcaro, e fez duras críticas ao uso da delação premiada.
Apesar de não citar nomes, André Mendonça frisou que a conversa não envolveu o criminalista José Luís de Oliveira Lima, o Juca, que começou a negociar a delação premiada de Vorcaro mas deixou o caso após a primeira proposta ter sido rejeitada.
“Não é o advogado que deixou o caso, o Juca, mas me chegou uma proposta por um advogado… perderam o pudor, ministro Gilmar. ‘Queremos fazer uma delação seletiva’. Falaram na minha cara isso. Eu disse: ‘não faço questão de delação, agora, delação seletiva, comigo não’”, afirmou Mendonça.
Ele disse que até recebeu dos advogados uma cópia da primeira proposta de delação premiada de Vorcaro, mas disse que preferiu não ler o material, porque ainda não caberia a ele a análise.
Sicário
André Mendonça também afirmou ter duvidado de que a morte de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário, tenha sido de fato um suicídio. Em março, o homem, que é apontado como executor de ações violentas contra adversários do banqueiro Daniel Vorcaro, tirou a própria vida enquanto estava sob custódia da Polícia Federal em Minas Gerais.
Investigadores chegaram a cogitar que o ocorrido pudesse ser uma forma de evitar a produção de provas no âmbito da Operação Compliance Zero.
“Foi um choque para todos nós a morte do senhor Felipe Mourão, conhecido como Sicário. Meu custou a acreditar que fosse um suicídio. Infelizmente, eu tive que ver a cena, uma cena dura, ver um ser humano tirando a própria vida”, lembrou Mendonça, relator do processo no STF.
Ele reforçou, contudo, que as apurações apontam que o caso, de fato, foi um suicídio. “Mandamos investigar com a suspeita de que pudesse ser uma queima de arquivos, alguma coisa do tipo. Mas todos os indicativos até agora, da Polícia Federal, indicam que não foi isso. Foi um ato voluntário dele. As razões nós não sabemos ao certo”.
Sicário trabalhava para o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, na obtenção de informações sigilosas e em ações violentas com o objetivo de intimidar adversários do empresário.
Em um dos diálogos, o banqueiro relata que estaria sendo ameaçado por uma funcionária e ordenou que Sicário “moesse essa vagabunda”.
Em outro bate-papo no WhatsApp, Mourão se oferece para mobilizar “A Turma”, estrutura usada para coleta de informações, a fim de constranger um empregado que teria feito uma gravação indesejada de Vorcaro.
As conversas incluem ainda troca de dados pessoais e pedidos para “levantar tudo” sobre dois funcionários, incluindo um chef de cozinha.
