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Dia a Dia

‘Paris dos Trópicos’, Manaus herdou arquitetura que ameniza o calor

24 de outubro de 2024 Dia a Dia
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Prédio histórico na Rua 10 de julho abriga lojas e cafeterias; janelões foram projetados para amenizar o calor (Foto: Milton Almeida/AM ATUAL)
Prédio histórico na Rua 10 de julho abriga lojas e cafeterias; janelões foram projetados para amenizar o calor (Foto: Milton Almeida/AM ATUAL)
Por Milton Almeida, do ATUAL

MANAUS – Casarões no estilo renascentista com grandes portas e janelas, construídos um ao lado do outro com madeira, tijolos e pedras, são a herança de uma época de prosperidade em Manaus. Foram projetados para amenizar o calor intenso na ‘Paris dos Trópicos’, como foi batizada. As aberturas nas fachadas proporcionavam ventilação e iluminação natural.

A arquitetura inglesa é marcante no Centro Histórico e muitos desses imóveis que eram residências, hoje abrigam bares, sorveterias, hotéis, floriculturas, clínicas de exames médicos, escolas de idiomas e biblioteca. Nos 355 anos da cidade, completados nesta quinta-feira (24), os imóveis são símbolos da Belle Époque (1890-1914) e estão em todo lugar na área central da capital.

Em um tour pelo entorno do Teatro Amazonas, a historiadora Kívia Mirrana identifica relíquias que resistem ao tempo e ao abandono e são joias da época áurea da borracha em uma cidade que tinha 250 mil habitantes em 1900.

“A França é referência das elites (em Manaus) que se inspiravam nela e em outros países europeus por idealizarem a modernidade, o progresso e a civilidade, aspectos que se tornaram uma espécie de lema que vai transformar uma cidade simples em uma paris tropical”, diz Kívia, vice-presidente da ANPUH (Associação Nacional de História) no Amazonas.

Paisagismo no Centro foi pensado para imitar os bulevares parisienses (Foto: Milton Almeida/AM ATUAL)
Paisagismo no Centro foi pensado para imitar os bulevares parisienses (Foto: Milton Almeida/AM ATUAL)

Uma dessas heranças é o Ideal Clube, na esquina da Avenida Eduardo Ribeiro com a Rua Monsenhor Coutinho. Construído em 1903 e frequentado pelas elites políticas, jurídicas e comerciais da cidade, o local propiciava ambiente para a criação de vínculos e relações sociais.

“O Ideal Clube ainda é um espaço cultural, com pequenos shows e local de apresentações teatrais e musicais. A Eduardo Ribeiro era considerada pela elite da época ‘A Avenida’”, diz a historiadora.

Outra característica histórica são os azulejos portugueses e colunas de ferro inglesas nas fachadas. “É curioso ver como a elite da época reuniu no entorno do Teatro Amazonas os espaços cultural, religioso, jurídico, educacional e de saúde. Você tem o teatro, mas tem o Ideal Clube (1903), temos a Igreja de São Sebastião (1888), o Palácio da Justiça (1884) e o Instituto de Educação (1880). São patrimônios e símbolos de uma época de prosperidade”, diz Kívia Mirrana.

A inspiração em Paris foi aplicada também no paisagismo das praças e ruas, com árvores formando cúpulas naturais para criar o aspecto de boulevard parisiense. Um exemplo desse aspecto é a Rua Silva Ramos, onde as árvores formam uma espécie de arco e cria uma atmosfera de frescor urbano. É outra característica inglesa pensada para reduzir a sensação térmica.

Colunas de ferro são da época dos ingleses em casarão na Rua Monsenhor Coutinho (Foto: Milton Almeida/AM ATUAL)
Colunas de ferro são da época dos ingleses em casarão na Rua Monsenhor Coutinho (Foto: Milton Almeida/AM ATUAL)

“A cidade se inspirava em um modelo copiado das cidades europeias. Não havia um modelo brasileiro de cidade, de civilização e de progresso. O que havia era esse modelo de movimento internacional, a Belle Époque”, diz Otoni Moreira, mestre em História e Crítica da Arte e ex-professor da Ufam (Universidade Federal do Amazonas).

Escadas em espiral e colunas de ferro importado da Inglaterra compõem a arquitetura histórica manauara, seja dentro ou fora dos imóveis. Mas as construções com afrescos conservados são poucas. Entre os prédios visitados, a reportagem encontrou alguns fechados, abandonados e com lixo.

Entre a Rua Costa Azevedo (no Largo São Sebastião) e a Travessa Marçal Ferreira, está um casarão azul que pertenceu ao comerciante português Joaquim Gonçalves de Araújo, conhecido como J.G. Araújo. O lixo na área de acesso é sinal atual de abandono.

“Em 1912, 1913, todo aquele comércio da borracha começa a perder força e muitas pessoas vão embora da cidade. Outros decidem ficar por opção. Então, nós vamos ter outro tipo de sociedade, uma sociedade que não valoriza tanto o passado. É uma sociedade que surge também com o novo modelo de economia que é a Zona Franca de Manaus”, lembra Otoni Moreira.

Um casarão em ruínas e outro preservado na Rua Silva Ramos: imagem da falta de maturidade política com patrimônio (Foto: Milton Almeida/AM ATUAL)
Um casarão em ruínas e outro preservado na Rua Silva Ramos: imagem da falta de maturidade política com patrimônio (Foto: Milton Almeida/AM ATUAL)

Para Otoni, a conservação de um patrimônio não está ligada somente à reforma material dos prédios, mas também ao conhecimento histórico e afetivo da população. “A conservação não consiste somente em deixar em um estado maravilhoso um prédio histórico. Tem de haver informação à população, temos de dar um sentido importante a esse patrimônio para a história da cidade. Dessa forma, vamos ser conscientes e valorizá-lo”, diz.

Entender e valorizar

Para a urbanista Melissa Toledo, faltou maturidade política para a conservação dos prédios em Manaus. “Não vou comparar Manaus com a França, mas as nossas políticas locais não eram maduras sobre essa questão. Tínhamos uma lei orgânica municipal, da década 90, depois tivemos o Plano Diretor Urbano Ambiental (2002). Depois, o decreto 7176/2004, mas não tínhamos uma delimitação tombada do Centro, o que aconteceu em 2010 com o Iphan (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Portanto, nossos instrumentos (de legislação e conservação) são novos”, diz Melissa Toledo.

Segundo a urbanista, há uma política pública para a conservação do patrimônio histórico, mas “a gente caminha de uma forma muito lenta” no processo da valorização do legado histórico.

Comércio e biblioteca municipal: utilidade econômica e cultural de prédios históricos (Foto: Milton Almeida/AM ATUAL)
Comércio e biblioteca municipal: utilidade econômica e cultural de prédios históricos (Foto: Milton Almeida/AM ATUAL)

“É uma questão de educação patrimonial e urbana. Nós precisamos preparar a cidade para que valorize o aspecto urbano, arquitetônico, histórico. A partir do momento que a cidade entenda o significado e como fazer parte do tecido urbano, vamos valorizar e manter”, diz.

Com três séculos e meio de existência, Manaus tem a história como inspiração para se tornar uma nova cidade. Talvez não uma Paris, mas uma metrópole amazônica mais identificada com sua herança inglesa.

Lixo se acumula na entrada do casarão que foi de JG Araújo (Foto: Milton Almeida/AM ATUAL)
Lixo se acumula na entrada do casarão que foi de JG Araújo (Foto: Milton Almeida/AM ATUAL)
Ideal Clube; símbolo da elite manauara na época áurea da borracha (Foto: Milton Almeida/AM ATUAL)
Ideal Clube; símbolo da elite manauara na época áurea da borracha (Foto: Milton Almeida/AM ATUAL)
Azulejos portugueses em fachada de casa: herança da colonização europeia em Manaus (Foto: Milton Almeida/AM ATUAL)
Placa informa sobre história do casarão: relíquia social e arquitetônica (Foto: Milton Almeida/AM ATUAL)
Azulejos portugueses em fachada de casa: herança da colonização europeia em Manaus  (Foto: Milton Almeida/AM ATUAL)
Azulejos portugueses em fachada de casa: herança da colonização europeia em Manaus (Foto: Milton Almeida/AM ATUAL)

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Assuntos arquitetura, Belle Époque, casarões, Centro Histórico, Ingleses, manchete
Milton Almeida 24 de outubro de 2024
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