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Dia a Dia

Pandemia expôs fator racial nas desigualdades brasileiras, diz historiadora

6 de dezembro de 2020 Dia a Dia
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negros
Pandemia afetou mais os negros e os pobres, diz historiadora (Foto: Marcello Casal Jr/ABr)
Por Everton Lopes Batista, da Folhapress

SÃO PAULO – A chegada da pandemia ao Brasil trouxe uma crise da economia e do sistema de saúde que afeta de maneira mais intensa a população negra, a que perdeu mais empregos e mais vidas nos últimos meses.

Para a historiadora, antropóloga e escritora Lilia Schwarcz, a emergência sanitária causada pelo coronavírus Sars-CoV-2 escancarou algumas características da sociedade, especialmente o fator racial da profunda desigualdade social que assola o país.

“A doença chegou ao Brasil como se fosse democrática, mas logo vimos que não era bem assim. Na contaminação era democrática, mas nas mortes, não. Ela afeta sobretudo populações pobres, e dentro dessas populações, principalmente os negros”, afirmou durante a sexta mesa da Flip de 2020, realizada totalmente de forma virtual neste ano.

Durante a conversa, mediada por Flávia Lima, ombudsman da Folha, e Flávia Rios, socióloga e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), Schwarcz disse que errou ao se manifestar, na década passada, contra as cotas para estudantes negros.

Segundo a escritora, seus estudos mais recentes a fizeram encarar a questão de raça social, o que teria causado a mudança de pensamento. “A sociedade trapaceia com a natureza e produz as diferenças. A maneira como construimos a sociedade é absolutamente desigual”, afirmou.

Para ela, a ideia de meritocracia não se aplica ao Brasil, onde nem todos têm as mesmas oportunidades. “Não pode existir meritocracia se o ponto de partida é tão desigual”, disse.

Em 2019, a historiadora publicou “Sobre o Autoritarismo Brasileiro” (Companhia das Letras), um ensaio em que revisita clássicos do pensamento social brasileiro para trazer luz a fenômenos recentes do país, como a eleição do presidente Jair Bolsonaro em 2018.

“Trata-se, de certa forma, de um recado às pessoas que embarcaram na campanha de Bolsonaro, que apostaram nisso que se apresentava como uma nova história e uma nova política, mas que, na verda, era uma velhíssima história”, afirmou.

De acordo com Schwarcz, o livro pretende também mostrar aos que se surpreenderam com o resultado das eleições, que deram vitória a um candidato com traços autoritários, que o Brasil sempre foi um país autoritário. “Acredito que Bolsonaro é um sintoma do nosso autoritarismo”, disse.

A escritora afirmou que não considera o governo de Bolsonaro conservador, mas retrógrado. “Todo momento político cria novas narrativas, e o governo bolsonaro tem essa visão tradicional nostálgica, de um passado que teria sido muito ordenado e muito correto. É uma maneira muito tradicional de fazer política, típico governo carismático, populista e autoritário, que usa muito a desinformação e lança mão da censura”, afirmou.

“É um governo que vem no bojo de um movimento global de governos autoritários, de homens que governam de uma maneira muito viril, que não conversam com a população, que usam frases curtas e rápidas, de breve e fácil absorção”, completou.

O apelido de mito dado ao presidente por seus apoiadores é uma visão problemática acerca do que é um presidente da república, diz a historiadora.

“Quando você elege uma pessoa que para parte do eleitorado é considerada um mito, nós retornamos a uma compreensão muito tradicional da política no Brasil. Os brasileiros são acostumados a ter no chefe do executivo um pai, e essa tradição, de dar a essa pessoa uma posição separada do resto dos homens, é um problema na nossa república. Você não faz contato com um mito, não faz debate. Você aceita e confirma o que ele diz”, afirmou.

“Em uma república, a cidadania é uma espécie de franquia. Você faz um pacto com os que recebem seu voto, mas não abre mão de um lugar na política. A verdadeira democracia é pautada na vigilância eterna”, concluiu.

A solução, segundo Schwarcz, está em fomentar as discussões públicas. “Em vários momentos da história do Brasil o povo se perdeu e se encontrou. Acredito no espaço cívico como espaço possível de debates para construção de um pacto social que vai nos tirar do engodo que vivemos agora”, encerrou a historiadora.

A Flip tem programação até domingo, 6, com debates virtuais gratuitos.

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Assuntos Covid-19, desigualdades, pandemia, Racismo
Cleber Oliveira 6 de dezembro de 2020
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