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Dia a Dia

Pandemia deixa legião de pets órfãos após a morte de tutores

2 de maio de 2021 Dia a Dia
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No caso da morte do tutor, a família deverá se responsabilizar pelos animais (Foto: Cristina Zahar/ Bastidores de Comunicação)
Por Patrícia Pasquini, da Folhapress

SÃO PAULO – O golden retriever Martim é uma vítima indireta da pandemia. Do triste passado, sabe-se que ele morava em Itaquaquecetuba (Grande São Paulo) e perdeu seu dono, morto pela Covid-19.

A família não quis mantê-lo. Durante cerca de quatro meses, o cachorro ficou acorrentado sob uma escada do lado externo da casa. Martim desenvolveu um desvio comportamental, medo de homens –possivelmente por sofrer agressões–, dermatite e machucados causados pela coleira e pela corrente.

A sorte dele mudou quando a empresária Sabrina Baruch Negrão Marques, 42, que tem um grupo no Facebook especializado em resgate de cães da raça golden retriever e labrador, recebeu um pedido de ajuda na rede social.

Marques lembrou da jornalista Fernanda de Sal Campos, 39. Havia cerca de um mês, o mascote da família –o golden retriever Theo– tinha morrido envenenado. O filho dela, Joaquim, 8, tinha uma relação sentimental muito forte com o cachorro.

“Perguntei se ela [Fernanda] se interessava em conhecer o Martim, mesmo que fosse para hospedagem temporária, para ver como seria a conexão do Joaquim com o cachorro. Ele foi direto para a casa da Fernanda e de lá não saiu mais. Hoje, ele está adaptado e recebe todo amor e carinho que merece. Para cada dez pessoas ruins, encontramos duas boas, mas precisamos mudar isso e ter mais pessoas boas que ruins”, conta.

Martim foi adotado há pouco mais de 15 dias, mudou o clima da casa de Fernanda e devolveu a alegria ao Joaquim.

Marques observa que na pandemia de Covid-19 houve um aumento no número de casos de abandono de animais após a morte dos tutores, tanto pelo fato de a família não ter interesse em dar continuidade aos cuidados como por causa das perdas financeiras.

“Do quarto mês da pandemia para frente a coisa começou a degringolar. Acho que mudou um pouco a causa do abandono, mas o volume é grande desde sempre. Desde quando a causa animal passou a ser mais divulgada, vejo que as pessoas condicionam o fato de ter gente que resgata os bichos para tornar o abandono mais fácil. Eu vou abandonar porque o protetor vai pegar. Isso nem sempre acontece”, explica Marques.

Abandono de animais é crime de maus-tratos. No caso da morte do tutor, a família deverá se responsabilizar pelos animais, segundo o delegado Bruno Lima, que também é deputado estadual em São Paulo pelo PSL e tem atuação forte na causa animal.

“A dificuldade é a falta de políticas públicas para abrigar os animais, e aí entra o papel das ONGs, que também estão lotadas. O certo seria ter locais onde esses animais pudessem ficar até serem adotados. Como não há, o que a gente recomenda é a família cuidar, tentar se adaptar com os animais, o que seria o melhor cenário, colocá-los em uma feira de adoção ou levá-los para uma ONG para que sejam disponibilizados para uma adoção responsável”, afirma Lima.

O crime de abandono é previsto na lei federal 9.605/98, que em setembro do ano passado foi substituída pela lei 1.095/2019 (Lei Sansão), que prevê penas mais rígidas, como prisão de dois a cinco anos, além de multa e proibição de guarda para quem praticar abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar esses animais.

“Hoje, o indivíduo que é pego praticando qualquer tipo de maus-tratos é preso em flagrante, conduzido à delegacia e o delegado não pode arbitrar a fiança. Já tivemos casos em que a prisão em flagrante por crimes de maus-tratos foi convertida em prisão preventiva. Temos muito mais ferramentas para trabalhar do que tínhamos antes do advento da Lei Sansão”, diz. “Abandono não é só largar o animal na rua. Pode ser deixá-lo um ou dois dias sem comida, preso na coleira e em local insalubre”, afirma Lima.

O crime de abandono cresceu cerca de 70% no país, em 2020, segundo um levantamento da Ampara Animal, uma associação de mulheres que ajuda abrigos e protetores independentes, feito em ao menos 530 desses locais espalhados pelo Brasil.

Os cães Renê e Lia moravam no Jardim Ângela (zona sul de São Paulo). Na semana passada, vizinhos contataram a ONG AdoteDog para dizer que eles haviam sido abandonados após a morte do dono por Covid-19. Nenhum familiar apareceu para cuidar dos cães.

Quando a administradora de empresas Marina Inserra, fundadora da entidade, chegou à casa, encontrou-os muito assustados ao lado de vasilhas para alimento e água vazias.

Atualmente, a ONG abriga 130 cães. Desses, cerca de 5% são frutos de abandono após a morte do dono por Covid-19, segundo. Renê e Lia estão no abrigo e logo serão colocados para adoção conjunta.

A ativista Luisa Mell, presidente de um instituto que leva seu nome, disse à Folha que tem feito muitos resgates de animais após a morte de tutores. Há casos em que a família nem vai alimentar os animais. “É falta de amor. Sua mãe tem um cachorro, você sabe o quanto ela ama o animal. Sua mãe morre e você vai lá e joga o cachorro dela fora?”, questiona.

Mônica Di Ciomo, 53, uma das fundadoras da ONG Adote um Focinho, afirma que, a cada dez ligações que atende, oito são de pessoas que querem entregar o animal de estimação. Para ela, independentemente do motivo, o pano de fundo é a falta de amor.

“Nas adoções, quando me falam que o animal é para a mãe, eu pergunto qual a idade e, se acontecer alguma coisa com sua mãe, quem vai ficar com o animal? Todos esses aspectos precisam ser abordados”, afirma.

Aline Silva, 38, bióloga da ONG Cão Sem Dono, disse que a instituição recebe quase 200 emails com pedido de resgate de animais. “Pelo menos 80% deles são de animais já domiciliados. Há casos de pessoas que morreram por conta da Covid-19 e as famílias tentam desesperadamente encontrar um novo lar para eles.

Há ainda um outro fator que é a queda de renda, casos em que a pessoa precisa mudar de casa para apartamento pequeno ou para a casa de parentes e não consegue levar os animais”, afirma.

Alexandre Rossi, especialista em comportamento animal, afirma que os cães vivem um processo de luto também bastante dolorido ao perder seus tutores.

“Aqueles muito apegados, que são inseguros e não têm convívio com muitas pessoas, sentem mais. Alguns param de comer, perdem o interesse em brincar e nas atividades de que gostavam, podem ficar chorosos. O sistema imunológico deles, por causa do estresse e da falta de alimentação, pode sofrer consequências e eles têm mais risco de desenvolver outros problemas de saúde”, explica.

Para o especialista, a melhor maneira de lidar com o problema é oferecer carinho e amor ao animal, além de momentos prazerosos.

Crimes de maus-tratos podem ser denunciados pelo número de telefone 190. Se o crime já aconteceu, há a opção de entrar na Delegacia Eletrônica de Proteção Animal (www.ssp.sp.gov.br/depa), no site da Secretaria de Segurança Pública. Lá a denúncia pode ser feita anonimamente. O relato gera um protocolo, que é encaminhado à delegacia da área.

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Assuntos cães, órfãos, pandemia
Redação 2 de maio de 2021
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