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Dia a Dia

Padres brigam pelo poder de controlar colégios e nove são expulsos de ordem agostiniana

15 de setembro de 2019 Dia a Dia
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Colégio Agostiniano São José é um dos disputados por padres agostinianos (Foto: Divulgação)

Por Fabrício Lonbel, da Folhapress

SÃO PAULO-SP – “Uma só alma, um só coração” é um dos lemas dos agostinianos, grupo religioso seguidor dos preceitos de Santo Agostinho.
O mote, porém, não reflete o cisma entre os agostinianos no Brasil que resultou na suspensão do direito de nove padres de exercerem o cargo. Na prática, eles não podem mais celebrar missas ou dar bênçãos. Para os agostinianos, esses religiosos devem ser chamados de ex-padres. Entre o expulsos está o espanhol César Rafael Rodríguez Martinez, de 92 anos, 66 deles vividos como padre.

No centro da expulsão está a disputa pelo controle de três colégios tradicionais, dois deles em São Paulo, o Agostiniano Mendel, no Tatuapé, e Agostiniano São José, no Belém, ambos na zona leste. Há ainda o Nossa Senhora de Fátima, em Goiânia. As escolas, com 9.300 alunos, são controladas pela Saea (Sociedade Agostiniana de Educação e Assistência).

O maior e mais famoso dos colégios, o Mendel está entre as 50 melhores instituições de ensino no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e entre os 12 melhores no estado de São Paulo.

A disputa pelos colégios começa em 2013, quando era discutida a união de três entidades agostinianas, no que viria a ser chamada de Província Agostiniana do Brasil e passaria a ser representante da Ordem Agostiniana no país. Entre elas estavam o Vicariato de Castela, responsável pelos três colégios; a delegação de Malta; e o Santíssimo Nome de Jesus do Brasil, administradora do colégio Santo Agostinho, no centro de São Paulo. Parte dos padres de Castela se separaram do grupo, em 2013, por divergência sobre a forma como a unificação vinha sendo tocada.

No ano seguinte, em assembleia, esses padres alteraram o estatuto social da Saea. Entre as alterações estavam, por exemplo, a possibilidade de inclusão de membros que não fazem parte da Ordem de Santo Agostinho ou mesmo da Igreja Católica (ser católico continuou sendo requisito).

A obediência ao Direito Canônico e às Constituições da Ordem de Santo Agostinho também deixam de fazer parte do estatuto. A Província viu o movimento como um golpe, um sequestro do patrimônio. Em 2015, a Província ameaçou os padres de expulsão da Ordem caso não recuassem da alteração no estatuto. O pedido não foi atendido e os padres foram expulsos.

No ano passado, o embate subiu mais um degrau. Com apoio de representações superiores da Igreja no país, os padres foram ameaçados de perderem seus direitos clericais, o que foi confirmado em agosto último. Na prática, já não podiam mais serem chamados de padres. “Recebemos a decisão com surpresa e perplexidade”, diz o espanhol José Florencio Blanco Melon, 62 (37 anos de sacerdócio). “A Congregação do Clero nos tinha dado um tempo para nos defender, mas a punição veio antes do prazo. Diante da gravidade da punição, pensávamos que seria um processo feito com diálogo, mas isso não aconteceu .

Frei Claudio de Camargo, Prior da Província do Brasil, discorda. Em nota, ele diz que o afastamento dos padres ocorreu após muitas tentativas, juntamente com bispos e com a Cúria Romana, de buscar uma solução satisfatória para todos, o que não ocorreu.

A disputa religiosa ganhou a Justiça quando a Província tentou retomar a tutela dos colégios, num processo que corre em segredo de Justiça. Os dois grupos divergem basicamente sobre a vinculação da Saea à Igreja. Para os dissidentes, a sociedade é uma entidade civil, sem ligação institucional e legal com a Igreja.

Para a Província, a vinculação histórica é comprovada. Frei Claudio diz tentar garantir que as obras religiosas, educacionais e assistenciais permaneçam fiéis ao espírito agostiniano e católico, como sempre foram, até 2014.

Eduardo Flauzino Mendes, 47, outro padre expulso e hoje administrador dos três colégios, defende a mudança no estatuto justamente para que os colégios continuem com as mesmas diretrizes, sem interferência externa.

Mãe de dois alunos do Agostiniano São José, Roberta Pedro Bom diz que a eventual saída dos religiosos da administração do colégio deverá ter um impacto maior do que a suspensão dos padres. “O colégio é bem visto pelos pais. Existe uma confiança muito grande, do ponto de vista pedagógico e também humanista”, diz.

Mais recentemente, quem entrou na discussão para defender os ex-padres foi o jurista José Roberto Nalini, ex-secretário estadual de educação e ex-presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Para ele, a Província Agostiniana usa dogmas religiosos em nome de uma cobiça material. “A Ordem nunca enviou um tostão aos colégios. Agora quer se apossar. É uma questão de cobiça econômica”, diz.

Até mesmo o segredo de Justiça no processo é criticado. “Pediram segredo de Justiça para que a sociedade não os veja se digladiando por propriedades”, critica. A Província diz ter pedido sigilo para preservar os religiosos expulsos.

Além dos três colégios, a sociedade cuida de 19 entidades, entre elas ações sociais e creches, além de chácaras, um clube, um centro de convenções e uma fazenda. Em primeira instância, a Justiça decidiu que a alteração do estatuto foi irregular, mas não conferiu a tutela dos colégios à Província.

A expulsão dos nove padres mobilizou fiéis das igrejas antes comandadas por eles, pais de alunos dos colégios e famílias assistidas pelas entidades sociais. Fiéis dizem ter recolhido mais de 23 mil assinaturas em apoio aos religiosos.

Na noite da última quinta-feira, 12, cinco vigílias foram realizadas. A Província diz se solidarizar com os fiéis e se comprometer em manter todas as atividades hoje desempenhadas pela Saea. Enquanto isso, os religiosos tentam reverter a demissão que oficialmente tem caráter supremo, irrevogável e sem possibilidade de recurso. “Tem o recurso ao santo padre. Nós já fizemos esse pedido ao papa e estamos à espera de uma solução. Nesse sentido estão dirigidos nossos esforços e orações”, diz José Florencio Blanco Melon.

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Assuntos Santo Agostinho
Cleber Oliveira 15 de setembro de 2019
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