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Política

Pacto de Prevenção a Feminicídios esbarra em machismo e servidores desqualificados

22 de outubro de 2025 Política
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Debatedores em audiência no Senado: leis de proteção à mulher não inibem agressores (Foto: Por Edilson Rodrigues/Agência Senado)
Debatedores em audiência no Senado: leis de proteção à mulher não inibem agressores (Foto: Por Edilson Rodrigues/Agência Senado)
Da Agência Senado

BRASÍLIA – Apesar dos esforços do governo e das leis aprovadas pelo Congresso Nacional, o número de feminicídios no país continua alto. Conforme ressalta a senadora Mara Gabrilli (PSD-SP), uma mulher é assassinada no Brasil a cada seis horas. Por esse motivo, as dificuldades para a implementação do Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios foram o tema de uma audiência pública que aconteceu no Senado nesta terça-feira (21).

Entre os entraves à implementação do plano, os participantes do debate mencionaram a persistência de uma cultura machista, a baixa capacitação dos agentes públicos que atendem as vítimas, a falta de integração entre os órgãos governamentais (e, portanto, dos dados disponíveis), além da falta de investimentos nas secretarias estaduais e municipais responsáveis pela proteção das mulheres.

A audiência foi promovida pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) do Senado. O plano de ação do Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios foi uma das políticas públicas que a CDH selecionou para avaliar neste ano – com a relatoria a cargo de Mara Gabrilli.

Esse plano de ação foi lançado pelo governo federal em 2024 para ser implementado em conjunto por vários ministérios, mas sob a coordenação do Ministério das Mulheres. O orçamento previsto é de R$ 2,5 bilhões.

Machismo

De acordo com o Mapa da Segurança Pública de 2025, quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil. Segundo a coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência do Senado, Maria Teresa Firmino Prado Mauro, tal estimativa indica que o número de feminicídios não vem diminuindo no país, mesmo com o reforço de políticas públicas e da criação de novas leis sobre o assunto.

Ao reiterar que as estatísticas são alarmantes, Mara Gabrilli destacou a importância de se avaliar o plano de ação do Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios – que prevê 73 ações – e contribuir para a sua implementação. A senadora informou que seu relatório será apresentado até o final do ano e deverá identificar os principais gargalos e desafios do plano de ação.

“Apesar das diversas leis aprovadas por nós aqui no Congresso Nacional (como a Lei Maria da Penha, a tipificação do feminicídio, a Lei Mariana Ferrer e a Lei do Stalking), a cultura machista está profundamente arraigada na nossa sociedade e continua a submeter as mulheres ao medo, à opressão, a agressões, a costumes que nos reduzem a cidadãos de segunda classe, a meros objetos que os homens querem dominar e possuir. Precisamos combater, com muita força e ações concretas, as condutas criminosas praticadas contra as mulheres”, declarou ela.

Capacitação

Para a deputada distrital Dra. Jane Klébia, que também é delegada de Polícia Civil, a falta de capacitação dos agentes públicos para o acolhimento das mulheres vítimas de violência é um dos principais gargalos para a implementação dessas políticas públicas. 

“Nós efetivamente precisamos preparar [os agentes]. Se nós tivéssemos um sistema único, essa preparação chegaria a eles de forma constante, para que um policial não receba uma mulher em situação de violência e faça uma pergunta como: ‘A senhora tem certeza que veio aqui para prender o pai dos seus filhos? Se ele for preso amanhã, quem vai cuidar dos seus filhos? Onde a senhora vai morar?’. Essas palavras têm o poder de destruir, naquela mulher, suas certezas”, afirmou.

Nesse contexto, Regina Célia, co-fundadora e vice-presidente do Instituto Maria da Penha, defendeu a atualização constante da formação dos agentes responsáveis por acolher e proteger essas vítimas.

Integração

Os participantes do debate afirmaram que o Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios precisa integrar os órgãos públicos – incluindo as secretarias da mulher dos estados e dos municípios – para unificar e qualificar dados e procedimentos. Dessa forma, argumentam, serão possíveis diagnósticos mais precisos e a formulação de políticas públicas baseadas em evidências.

“Ainda não encontramos um eixo de integração da rede de proteção da mulher em situação de violência. E isso, infelizmente, contribui para o alto número de feminicídios. Porque, alinhado aos altos números de violência doméstica e feminicídios, encontramos a violência institucional. A violência institucional muitas vezes acontece devido à desinformação e ao modo como essa mulher deixa de ser acolhida em ambientes que deveriam lhe oferecer garantia, proteção, confiança e credibilidade”, disse Regina Célia.

Uma das iniciativas do governo federal destinadas à integração e à qualificação de informações (visando à formulação de uma base nacional de dados que subsidie o pacto) é o uso do Fonar (Formulário Nacional de Avaliação de Risco).

Esse formulário procura identificar os fatores de risco para uma mulher (de vir a sofrer qualquer forma de violência no âmbito das relações domésticas e familiares). De acordo com o governo, “o objetivo é subsidiar, com maior rapidez e eficiência, agentes de polícia, delegados, juízes e servidores da Justiça com informações para que eles possam reconhecer o risco elevado de morte da mulher ou qualquer forma de violência doméstica para, assim, poder ajudá-la com os pedidos de medida protetiva de urgência e/ou cautelar”.

O coordenador do Conselho Gestor do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Rafael Rodrigues de Sousa, informou que, até o momento, 12 estados já adotaram o Sistema de Procedimentos Policiais Eletrônicos, utilizado nas delegacias para o registro das ocorrências. Ele afirma que, com isso, haverá a padronização de procedimentos e dados, incluindo os relacionados ao Fonar e a mais 18 formulários sobre medidas protetivas de urgência.

“Então esses 12 estados já têm o Fonar e todas as medidas informatizadas, permitindo a consolidação de uma base nacional, que é algo que a gente vem buscando já há bastante tempo, que é essa coleta de informações em âmbito nacional de forma padronizada”, salientou ele.

Secretarias

A presidente da Associação de Assistência às Mulheres, Crianças e Adolescentes e Vítimas de Violência (Recomeçar), Rosana de Sant’Ana Pierucetti, destacou que as secretarias estaduais e municipais envolvidas na proteção à mulher precisam de orçamentos maiores.

“Nós temos muitas secretarias da mulher que, quando a gente vai conversar com elas sobre algum projeto, o que elas nos dizem? “Não temos orçamento”. Então a gente precisa entender por que isso ainda não está acontecendo. Por que esse financiamento não está chegando às secretarias? A gente luta tanto para que haja essas secretarias da mulher, e muitas vezes a gente vê essas secretarias sendo tolhidas”, protestou.

Rede próxima

Maria Teresa Firmino observou que a Pesquisa Nacional de Violência Contra à Mulher, divulgada em 2023 pelo Observatório da Mulher contra a Violência do Senado, revela que a mulher vítima de violência busca uma rede de proteção mais próxima dela antes de recorrer aos serviços oferecidos pelo Estado.

“Nessa pesquisa, o que a gente vê é que, em primeiro lugar, essas mulheres procuram a família. Depois elas procuram a igreja, os amigos, nessa ordem. Só depois elas começam a procurar o atendimento do Estado, a ligar para o 180, a ir até uma delegacia”, disse.

Segundo Maria Teresa, coordenadora desse observatório, é preciso atuar junto a essa rede que está mais próxima da vítima. “Temos de descobrir onde podemos atuar, não só como Estado, mas também nesses lugares, antes dos serviços oficiais”.

Ela defendeu a necessidade de capacitação dos agentes públicos para que medidas de proteção, segurança e acolhimento não falhem.

Exemplo

Como exemplo de sucesso no combate ao feminicídio e à violência contra a mulher, Maria Teresa citou o caso do Acre. Ela afirmou que a implantação de políticas públicas nesse estado teria levado a uma redução de 43% nos casos de feminicídio nos últimos sete anos.

Entre as ações implementadas no Acre, ela citou o Projeto Justiça de Gênero, desenvolvido pelo Ministério Público do Estado, que busca identificar, nos casos de tentativa de violência e feminicídio e violência, em quais fases houve falha da rede de apoio.

Articulação nacional

Atualmente, o Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios envolve 11 ministérios. Foi o que destacou a coordenadora do comitê gestor do pacto, Estelizabel Bezerra da Silva. Ela também está à frente da Secretaria Nacional de Enfrentamento à Violência contra Mulheres do Ministério das Mulheres.

Estelizabel também informou que, das 27 unidades da federação (26 estados e o Distrito Federal), 17 aderiram ao pacto. A adesão, observou, não é uma obrigação.

Ela ressaltou que, entre as ações incentivadas pela secretaria (por meio do pacto), estão as política de reparação dentária; o acesso à pensão pelos órfãos do feminicídio; a assistência à saúde da mulher; a redução da burocracia exigida para a transferência de servidoras federais vítimas de violência; as cotas de gênero de 50% no chamamento para a segunda etapa do Concurso Nacional Unificado (CNU) e de 8% de mulheres vítimas de violência doméstica na contratação de empresas terceirizadas nos contratos do Executivo federal.

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Assuntos feminicídio, lei maria da penha, violência contra a mulher
Cleber Oliveira 22 de outubro de 2025
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