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Pontes Filho

O sagrado e o profano na segurança pública

29 de março de 2015 Pontes Filho
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Discutir a relação entre a violência e a fé é, de certo modo, trazer para o âmbito da reflexão sobre segurança pública o debate entre o sagrado e o profano.

É possível ser segura uma sociedade que desprestigia, reprime ou desrespeita as manifestações de fé ou de crença das pessoas?

A antropologia, a sociologia e a história mostram sistematicamente que não pode ser segura uma sociedade que extirpa de seu sistema de crenças a referência ao sagrado ou o trata com desrespeito e intolerância. Basta-nos lembrar dos episódios das charges escarnecedoras e do atentado terrorista ao jornal francês Charlie Hebdo. Além disso, a ausência do sagrado na vida social empobrece profundamente, quando não aniquila, expressões da cultura e da beleza ou grandeza de uma sociedade.

Ao contrário do que diz boa parte dos que não toleram a liberdade de crença, de fé ou de religião das pessoas, constata-se nitidamente que a vivência da espiritualidade amadurecida – sem fanatismos –, com ou sem religião, é um fator relevante de integração social pacífica ou equilibrada, inclusive no que se refere a preparar ou ressocializar pessoas encarceradas para o convívio livre e seguro em sociedade. Distintamente da percepção monofocal de Freud da religião como neurose coletiva, o trabalho a partir das crenças religiosas ou do que é sagrado para indivíduos e grupos, com base na experiência de uma espiritualidade lúcida, pode ter seu valor no sentido de contribuir para uma sociedade mais segura e solidária.

Mergulhados, todavia, no materialismo raso de uma sociedade consumista e de um sensualismo relativista exacerbado, a opção por vocações generosas encontra cada vez menos espaço numa ordem social em que se cobra das novas gerações apenas uma racionalidade meramente pragmática, cética e egocêntrica.

Uma sociedade de valores predominantemente céticos e pragmáticos conduz-se a um ciclo de mediocridade que culmina na decadência de valores humanos. É o que se verifica num contexto social no qual se tira uma vida por um par de tênis, uns trocados ou por drogas. A coisificação humana, centrada na cultura do consumismo exacerbado, fomentada pela tirania do dinheiro, do poder e do relativismo sensualista também leva à animalização quem deveria ser humano. Lança-se, com isso, a sociedade na falta de perspectiva e num ciclo de decadências de dificílima e demorada superação, fazendo lembrar um memorável trecho de discurso de John F. Kennedy: “Os problemas do mundo não podem ser resolvidos por céticos ou cínicos, cujos horizontes se limitam às realidades evidentes. Temos necessidade de homens capazes de imaginar o que nunca existiu.”

Por isso, enfim, numa ordem social violenta e decadente, a vivência da espiritualidade como expressão da referência ao sagrado pode ter um papel libertário e civilizador quando resgata a grandeza da dignidade humana construída à imagem e semelhança de um generoso, amoroso e lúcido Criador, apesar das mais remotas manifestações de violenta intolerância contra o que é religiosamente sagrado para os outros.


Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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Assuntos intolerância, Religião, violência
Valmir Lima 29 de março de 2015
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