Nesta sexta-feira, 4, o país presenciou o desfecho do conflito que vinha ocorrendo nos últimos dois meses entre o governo do Estado de São Paulo e os estudantes da rede estadual de ensino. Uma queda de braço desnecessária que rendeu ao governador Geraldo Alckmin uma crise política que culminou com o recuo do governo no seu projeto de dividir as escolas por ciclo e na queda do secretário de educação Herman Voorwald presente no governo desde 2011.
Em 1959, quando publicou seu primeiro livro, Paulo Freire já chamava a atenção para a necessidade de uma educação dialógica e democrática em todos os níveis. De forma muito coerente com sua obra, quando foi secretário de educação do município de São Paulo, durante a gestão da prefeita Eloísa Erundina, baseou sua política educacional em três princípios básicos: participação, descentralização e autonomia. Elegeu a democratização da gestão como uma de suas prioridades.
Alckimin e Voorwald parecem não serem adeptos de Paulo Freire, na verdade parecem nunca terem lido uma obra do pensador Pernambucano. Se um dia chegaram a ler “A pedagogia do oprimido” certamente a confundiram com o que tentam praticar hoje em São Paulo: “A pedagogia da opressão”. Foi nesse tom que tentaram empurrar goela abaixo o projeto de reorganização das escolas, que à primeira vista tem uma fundamentação legítima e propósitos bem intencionados.
No entanto, projetos assim necessitam de um longo período de maturação para que as partes envolvidas possam debater e expor suas demandas. Superada essa parte inicial é necessário que se planeje uma implantação por etapas, monitorando as ocorrências em cada uma delas.
Mas o governo paulista optou pela imposição e intransigência, talvez não acreditasse que as manifestações contrárias tomassem tanta força a ponto de mais de 200 escolas serem ocupadas e grandes avenidas serem fechadas como forma de protesto.
Alckmin subestimou, principalmente, a capacidade de organização do movimento estudantil que apoiado pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (APEOESP) conseguiu articular bem suas ações fazendo com que o número de escolas ocupadas aumentasse vertiginosamente nos últimos dias. Outros atores importantes nesse processo todo que passaram quase despercebidos foram os pais de alunos, que em sua grande maioria apoiaram os filhos durante as ocupações.
Mesmo com tudo isso, o governo tucano teve tempo para recuar, e se assim tivesse feito talvez conseguisse ter evitado que a crise da secretaria de educação virasse uma crise de governo, envolvendo inclusive a polícia militar. O problema é que nos últimos dias, a situação se tornou insustentável, a ponto inclusive de o governador prometer publicar já no próximo sábado (05), no diário oficial, um decreto suspendendo a reorganização escolar.
Para Maria Izabel Noronha, presidente da APEOESP, esta vitória conquistada pela luta dos estudantes deve inspirar professores nas próximas greves, fazendo com que os docentes se envolvam mais nas manifestações e demais atos promovidos pelo sindicato. Vale lembrar que neste ano de 2015 a greve de professores do estado de São Paulo durou 92 dias, a maior da história.
Pontos em comum
Assim como em São Paulo, a gestão tucana parece ter um modus operndi nacional no que diz respeito a educação, basta lembrar do que aconteceu ainda no primeiro semestre deste ano, no estado do Paraná, em que professores da rede estadual foram massacrados pela polícia militar ao protestarem na frente da assembleia legislativa contra mudanças nas regras do seu sistema previdenciário. Lá o governador Beto Richa também é do PSDB.
Não muito distante de nós, na verdade aqui do nosso lado, no estado do Pará, o governador tucano Simão Jatene também permitiu que ocorresse a mais longa greve já vista na rede estadual de ensino, totalizando mais de 60 dias de paralisação. Contudo, ao fim desse período, os professores retornaram às salas de aula sem conseguir garantir nenhum ganho real, e ainda por cima sendo descontados pelos dias parados, tudo isso mergulhou a educação daquele estado em uma profunda crise.
