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‘O Banquete dos Mendigos’ celebrou Direitos Humanos em plena ditadura

26 de maio de 2015 Variedades
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jorge mautner
Para Jorge Mautner, um dos que subiram ao palco naquela noite, o espetáculo também foi fundamental para restabelecer a democracia no Brasil (Foto: Divulgação)

SÃO PAULO – ‘A barra estava pesada para a música brasileira em 1973. Ao mesmo tempo em que o governo Médici exterminava a guerrilha do Araguaia e os movimentos de esquerda, álbuns como Milagre dos Peixes, de Milton Nascimento, e Chico Canta Calabar, de Chico Buarque, eram mutilados por interferência direta da censura. Em 10 de dezembro daquele ano, Milton e Chico foram alguns dos convidados por Jards Macalé para participar do show O Banquete dos Mendigos, no Museu de Arte Moderna do Rio, que se tornou um manifesto contra a ditadura militar. A íntegra da apresentação chega ao mercado pela primeira vez, na caixa Direitos Humanos no Banquete dos Mendigos, com três CDs.

É um documento do panorama da MPB naquele momento. Macalé, que organizou o show com Xico Chaves, escalou um elenco que ia da pré-bossa nova de Johnny Alf, passava pela geração revelada nos festivais dos anos 1960, e dava espaço aos que haviam lançado seu primeiro álbum naquele ano, caso de Gonzaguinha, Raul Seixas e Luiz Melodia. Do show ao atual lançamento, houve vários percalços envolvendo Banquete.

O plano de Macalé era conceber um espetáculo em ‘autobenefício’. “Era uma piada, né? Mas também era sério porque fazíamos shows para várias entidades ou para ajudar um amigo que precisasse. Eu estava num mau momento da carreira, havia sido desligado da gravadora em que eu estava.” Após receber o sim de todos os artistas convidados, ele conversou com Cosme Alves Neto, diretor da cinemateca do MAM, que sugeriu atrelar a apresentação à mostra que a instituição promoveria em parceria com a ONU para celebrar os 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Artigos do documento foram escolhidos para serem lidos entre uma música e outra pelo poeta Ivan Junqueira. A escalação de ‘subversivos’, divulgada por meio de papéis mimeografados distribuídos nas esquinas do Rio, atraiu a atenção de agentes da repressão, que cercaram com tanques o entorno do MAM.

Alguns deles, ficaram próximos a Maurice Hughes, o técnico de som, que estava em meio à plateia estimada em 5 mil pessoas e gravou o show clandestinamente. “A gravação só existe por causa dele, um inglês, porque nenhum brasileiro havia pensado nisso. Os agentes o vigiavam, querendo saber o que eram aquelas fitas. Ele dizia que eram fitas de eco e ia passando pro Bruce Henry (baixista do grupo Soma)”, lembra Macalé.

A íntegra do show eterniza o impacto e as tensões daquela noite, aberta por Paulinho da Viola. Durante sua apresentação, lembra Macalé, houve quem gritasse “fora comunistas”. Estes foram expulsos do local pela plateia, que reagiu calorosamente durante a leitura dos artigos – alocados em uma única faixa, no terceiro CD da caixa – que tratam diretamente de tortura e exílio.

Chico e o MPB-4 fizeram a apresentação mais contundente, emendando Pesadelo (‘Você corta um verso, eu escrevo outro/Você me prende vivo, eu escapo morto’), de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, a Quando o Carnaval Chegar. Após Bom Conselho, Chico avisa que não pode cantar Vai Trabalhar, Vagabundo. Mas anuncia que vai cantar um pedaço de uma música ainda incompleta, “chupada de Jorge Ben”. É Jorge Maravilha, dos versos ‘você não gosta de mim, mas sua filha gosta’, cuja autoria seria atribuída a Julinho da Adelaide, personagem criado pelo compositor para passar composições pela censura entre 1974 e 1975. Mas o espetáculo terminaria de maneira plácida, com Gal Costa interpretando Oração de Mãe Menininha, de Dorival Caymmi.

Se tudo corresse como o planejado, o registro do show sairia em disco logo em seguida. Veio a proibição. “As músicas do disco, interpretadas por vários nomes, entre os quais Chico Buarque, Paulinho da Viola, Raul Seixas, Edu Lobo e Gal Costa, têm conotações políticas desfavoráveis ao governo”, alegou o diretor do Departamento de Censura, Rogério Nunes. O lançamento só foi autorizado em 1978, e no ano seguinte uma versão condensada em LP duplo chegou às lojas pela RCA. À época, Macalé levou um exemplar às mãos de Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil do governo Ernesto Geisel, ao lado de um plano educacional causando polêmica entre a esquerda brasileira.

Mesmo com a liberação do álbum, houve a preocupação com a segurança e preservação das fitas. Durante anos, elas ficaram guardadas em um cofre no estúdio Transamérica, sob os cuidados de um técnico de som, até voltarem às mãos de Macalé nos anos 1990. Ele afirma que, desde então, tentava lançar o material na íntegra, sua intenção desde os anos 1970.

Para Jorge Mautner, um dos que subiram ao palco naquela noite, o espetáculo também foi fundamental para restabelecer a democracia no Brasil. “O povo, os estudantes, os militares e os artistas estavam lá. Era uma época em que parte da esquerda via os Direitos Humanos como algo burguês, e depois se entendeu melhor seu significado. Todos saíram dali com novas vontades, que estariam presentes nas Diretas e na Constituição de 1988.”

(Estadão Conteúdo/ATUAL)

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Valmir Lima 26 de maio de 2015
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