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Dia a Dia

Nova espécie de poraquê gera descarga elétrica de 860 volts, afirmam cientistas

10 de setembro de 2019 Dia a Dia
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Cientistas dizem que existem três espécies de poraquê, o peixe elétrico da Amazônia (Foto: Divulgação)

Por Reinaldo José Lopes, da Folhapress

SÃO CARLOS-SP – A criatura capaz de funcionar como o mais potente gerador biológico de eletricidade é uma nova espécie recém-descoberta de poraquê, nome popular do Electrophorus voltai. O peixe chega a produzir descargas de 860 volts – quase oito vezes o gerado por uma tomada comum de 110 volts.

“No entanto, a duração da descarga é bastante reduzida, de um a três segundos”, diz Carlos David de Santana, pesquisador brasileiro que trabalha no Museu Nacional de História Natural dos EUA. Junto com colegas de outras instituições do Brasil e do exterior, Santana assina um novo estudo que modificou bastante o ‘álbum de família’ desses estranhos peixes com forma de enguia, que podem alcançar até 2,5 metros e estão presentes nos rios da Amazônia e regiões vizinhas.

Antes do trabalho que acaba de ser publicado na revista especializada Nature Communications, reconhecia-se a existência de um único tipo de poraquê, o Electrophorus electricus. O bicho foi descrito originalmente pelo pai da nomenclatura usada ainda hoje para designar as espécies de seres vivos, o naturalista sueco Carl von Linné (1707-1778), também conhecido como Lineu.

No entanto, fazia sentido imaginar que houvesse uma diversidade maior entre os grandes peixes-elétricos amazônicos, diz Santana, uma vez que os animais são encontrados numa área ampla, em ambientes heterogêneos, incluindo rios mais barrentos e mais claros, mais lentos e mais rápidos e com presença variada de minerais e matéria orgânica na água.

A intuição estava correta. Conforme revelaram exames de DNA e análises detalhadas do formato do crânio e regiões vizinhas do esqueleto dos animais, tudo indica que existem ao menos três espécies de poraquê, que começaram a se separar há 7 milhões de anos.

Além do E. voltai, com seus choques potentíssimos e habitando principalmente os rios que correm do Brasil Central rumo à Amazônia, e do E. electricus (choques mais fracos, de até 480 volts, e habitat na região mais montanhosa das Guianas), há também o E. varii, cujos choques alcançam 572 volts e que é encontrado na calha central do Amazonas, em áreas mais baixas.

É provável que a divisão de populações que deu origem às atuais espécies tenha começado quando o atual Amazonas estava se formando e estabelecendo o fluxo atual do rio, que vai do oeste ao leste da América do Sul (antes, tudo indica que a correnteza fluísse no sentido contrário, rumo ao oeste).

Os poraquês são capazes de produzir tanto descargas de baixa voltagem quanto de alta voltagem. As primeiras ajudam o bicho a se localizar dentro d’água, como se fossem uma forma elétrica do sonar dos navios, e também para a comunicação. Já as descargas mais intensas servem tanto para capturar presas quanto para a defesa.

Segundo Santana, ainda não está claro porque algumas espécies produzem choques tão fortes. “A E. voltai pode ter uma descarga mais forte como uma resposta fisiológica à vida em águas com baixa condutividade elétrica [compensando, assim, a dificuldade de “transmissão” nessas águas]. Contudo, a E. electricus vive em um ambiente semelhante e não produz a mesma descarga”.

Estudar os bichos pode trazer aplicações interessantes para a biotecnologia e a eletrônica, inspirando o design de baterias para implantes médicos, por exemplo.

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Assuntos poraquê
Cleber Oliveira 10 de setembro de 2019
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