
Por Gonçalo Junior, do Estadão Conteúdo
RIO DE JANEIRO – A presença de facções e milícias na região metropolitana do Rio de Janeiro se expandiu de forma acelerada nas últimas duas décadas. O número de pessoas vivendo sob controle ou influência desses grupos cresceu 59% entre 2007 e 2024, segundo o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF) e o Instituto Fogo Cruzado.
Hoje, cerca de 4 milhões de moradores — 34,9% da população — vivem submetidos a regras impostas por facções e milícias. Em 2007, eram 2,5 milhões de pessoas nessas condições.
A pesquisa “Mapa Histórico dos Grupos Armados do Rio de Janeiro”, produzida desde 2018, mostra que o domínio do crime organizado também ocupa mais territórios. Entre 2007 e 2024, a área submetida a algum tipo de domínio armado cresceu 130,4%.
“Esse salto demonstra que a estratégia de confronto armado não funciona e que precisamos de políticas elaboradas com inteligência e informação. Enquanto não houver ações voltadas para desarticular as redes econômicas que sustentam esses grupos, continuaremos convivendo com essa expansão”, opina Terine Husek Coelho, gerente de pesquisa do Instituto Fogo Cruzado.
Essa dominação abrange tanto facções do tráfico de drogas — Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro (TCP) e Amigos dos Amigos (ADA) — quanto milícias que se expandem por municípios que compõem a região metropolitana, como Duque de Caxias, Magé, Belford Roxo, Nova Iguaçu, Queimados e outros.
Para quem vive nesses territórios, o cotidiano se desenrola sob ameaças constantes: extorsões, agressões, expulsões, tortura e assassinatos impostos por grupos que ditam normas, cobram taxas e interferem em todos os aspectos da vida local.
Até serviços públicos e privados — educação, saúde, transporte, saneamento, energia e telecomunicações — sofrem impactos diretos. Em muitos desses locais, a população sofre ainda com disputas por território.

Ao longo dos anos, o CV consolidou sua hegemonia sobre a população dominada, mas as milícias ainda detêm a maior porção territorial, aponta o estudo.
Em outubro, o Estadão revelou que o CV — foco da operação policiais mais letal da história do país, que resultou em 122 mortos — vive uma fase de expansão acelerada. A facção não só avançou sobre áreas rivais no Rio como ampliou sua influência nacional.
Investigações do Ministério Público do Estado do Rio apontam que o CV vem executando, nos últimos anos, um “projeto expansionista”, com ofensivas concentradas na região de Jacarepaguá, na zona oeste.
A Penha, um dos locais onde a polícia concentrou a megaoperação, e o Alemão, na zona norte, funcionam como bases estratégicas da facção.
Pesquisadores afirmam que o CV não desbancou o Primeiro Comando da Capital, facção paulista apontada como a maior do País, mas entendem como relevante o avanço recente do grupo carioca. O CV tornou-se hegemônico na Amazônia, onde atua na importação de cocaína vinda de Peru e Colômbia e até no garimpo ilegal.
Entre as causas do recuo das milícias estão uma série de operações do MP que levaram à prisão de centenas de milicianos entre 2018 e 2020. Outro ponto importante foi a morte do miliciano mais procurado do Estado: Wellington da Silva Braga, o Ecko, baleado em operação policial em 2021.
Está em discussão no Senado o projeto de lei antifacção. O texto deve prever um novo fundo para financiamento do combate ao crime organizado, alimentado com taxação de casas de apostas esportivas, aumento de penas e “inconstitucionalidades” corrigidas.

Capital reflete ‘cidade partida’
Na capital, o quadro é complexo, refletindo a expressão “cidade partida”. Em 2024, 22,5% da área e 36,3% dos moradores eram submetidos a um controle efetivo dos criminosos.
A hegemonia miliciana se concentra na zona oeste (Bangu, Campo Grande, Barra da Tijuca e Jacarepaguá), que responde por 49% de seus habitantes.
A partir de 2020, porém, o relatório identifica um recuo gradual: as milícias perderam parte do domínio na região, abrindo espaço para avanços do CV, do TCP e de pequenos remanescentes do ADA.
Controle, influência, colonização e conquista
Para entender melhor o fenômeno, os pesquisadores ampliaram as categorias de análise. “Controle” é quando o grupo extrai recursos, estabelece normas e sustenta sua presença pela força. Já a “influência” representa um domínio parcial e menos estruturado.
Em relação à expansão territorial, o estudo diferencia “colonização” e “conquista”. Colonização é o avanço sobre áreas que não estavam sob domínio de nenhum grupo armado; conquista é a substituição de um grupo que já controlava aquele território.
“Temos uma ferramenta analítica que pode ajudar muito o debate público”, diz Daniel Hirata, coordenador do Geni-UFF.
A relação entre colonização e conquista é uma virada de chave na segurança pública do Rio, na avaliação de Cecília Olliveira, diretora executiva do Instituto Fogo Cruzado.
“A atualização do Mapa mostra o aumento das disputas que resultam em ‘conquista’. Para crescer, um grupo precisa tomar a área do outro na base da força”, completa.
Olliveira explica que o custo social dessa dinâmica é cobrado na rotina de quem vive nessas áreas mais povoadas. “A população passa a conviver com mais tiroteios, mais insegurança e mais medo”, afirma.
A Baixada Fluminense é um exemplo dessas disputas. O CV se mantém como principal força, mas as milícias cresceram 1.608% em controle territorial e mais de 1.200% em população dominada desde 2007. Ao mesmo tempo, o TCP ampliou significativamente sua presença, ocupando espaços deixados pelo ADA em retração.
Territórios e populações em disputas
Entre 2007 e 2024, as milícias foram o grupo que mais ampliou sua presença territorial: a área sob seu controle cresceu 315% e, quando se considera também a influência, o salto chega a 501%.
O CV, por sua vez, avançou de maneira constante, com aumento de 46,4% da área controlada e de 45,1% na soma entre controle e influência.
Na dimensão populacional, o quadro se inverte parcialmente. Em 2024, o CV lidera o domínio sobre pessoas: 47,2% da população sob controle armado (1,607 milhão de habitantes).
O Terceiro Comando Puro (TCP) surge como terceira força em expansão, sobretudo a partir de 2018, enquanto o Amigos dos Amigos (ADA) é o único grupo com retração consistente, perdendo cerca de metade dos territórios e da população que dominava no auge da sua atuação.
A presença de grupos armados não se apresenta de forma homogênea em todas as regiões. A atuação ocorre preferencialmente em áreas mais pobres e não brancas, o que pode aprofundar as desigualdades sociais.
Na região metropolitana, a população residente em áreas sob controle apresenta renda média per capita de R$1.121, formada por não brancos (pretos, pardos e indígenas) de 69,1%.
Em contraste, nos territórios que não estão sob controle armado, a renda média alcança R$1.658 e a composição de não brancos e de 55,2%.
