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Variedades

Martinho da Vila defende rir da própria desgraça e prevê Carnaval ‘explosivo’

23 de novembro de 2020 Variedades
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Martinho da Vila prevê ir ao carnaval (Foto: Reprodução/Instagram/@martinhodavilaoficial)

Por Lucas Brêda, da Folhapress

SÃO PAULO – “O Rio às vezes é um grande abacaxi, de São Conrado a São João do Miriti”, canta Martinho da Vila na faixa que dá nome a seu novo disco, “Rio: Só Vendo a Vista”. “Essa letra me deixou encantado. Fala do Rio não só para exaltar, mas também do subúrbio. Quis um álbum com essa cara do Rio”.

A música, com letra do poeta Geraldo Carneiro, fala de um lugar que tem “macumba pra turista” e que pode ser um “tremendo fuzuê”, mas tem sempre com uma paisagem ao fundo. É a cidade do Maracanã, da umbanda, de “Rio, 40 Graus” – filme de Nelson Pereira dos Santos – e dos desenhos de Lan, o artista morto neste mês que assina a capa do disco.

Quando lançou “Bandeira da Fé”, há dois anos, Martinho disse que aquele seria seu último álbum. A ideia era lançar músicas soltas na internet, mas o hábito de fazer discos inteiramente conceituais o fez desistir dessa ideia, e o sambista de 82 anos chega agora ao 55º álbum da carreira.

“Rio: Só Vendo a Vista” tem só quatro das 12 músicas inéditas. Entre elas, “O Rio Chora, O Rio Canta”, em que ele recorda a criação do estado da Guanabara, e “Menina de Rua”, sobre a desigualdade social, com participação da filha Mart’nália.

Entre as regravações estão “Você, Eu e a Orgia” – conhecida na voz de Beth Carvalho nos anos 1970 –, uma ode à veia festeira do Rio de Janeiro, e “Vila Isabel, Anos 30”, um samba-enredo não desfilado que ele fez há décadas para a escola da qual é presidente de honra, Unidos de Vila Isabel.

“Nos anos 1930, Vila Isabel era como se fosse a Ipanema dos anos 1960”, ele diz. A letra retrata boêmios e “malandros intelectuais”, como Noel Rosa, que frequentavam o bairro. “Tudo acontecia em Vila Isabel”.

Martinho, aliás, será homenageado pela escola de samba, que há décadas permeia seus versos, no próximo Carnaval, ainda sem data para acontecer, devido à pandemia de coronavírus. Em setembro, a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, a Liesa, decidiu que os desfiles não vão acontecer em fevereiro.

“Fiquei chateado, porque Carnaval bom mesmo é em fevereiro, que é verão”, diz o artista. Ele afirma, no entanto, que a celebração tem tudo para ser inesquecível, a exemplo do ano seguinte à epidemia de gripe espanhola, 1919, cujo Carnaval é lembrado como um dos mais festejados.

“Todo mundo está com a alegria presa, e Carnaval é feito para se soltar. E acho que em fevereiro mesmo já vai ter Carnaval. Aglomeração já está havendo. Você acha que não vai ter alguns blocos? Falo de blocos pequenos mesmo. Quer dizer, vai rolar Carnaval em fevereiro, e (talvez) em junho –e vai ser uma explosão”.

Outro samba que Martinho fez para a Vila Isabel foi “Tribo dos Carajás”, lançada em 1974, no disco “Canta Canta, Minha Gente”, um dos seus mais famosos. Na época, ele lembra, a canção não foi à avenida por causa da censura. “Chegaram na diretoria e disseram que não poderia ser. Naquela época a censura era braba. Fiquei chateado pra caramba, só depois soube dessa história”.

Na letra, ele diz que as tribos eram “dona deste imenso continente”, até a chegada do homem branco. Em meio às tensões entre as populações indígenas e o atual governo, Martinho acredita que o Estado deve ser menos paternalista ao tratar dessa questão. “Tinha que deixar o índio que quiser viver a seu jeito, viver a seu jeito. Sem paternalismo. E transformar o índio num cidadão”.

Nas eleições para prefeito, Martinho atuou nas campanhas de Orlando Silva, do PC do B, em São Paulo, e Benedita da Silva, do PT, no Rio. Ambos não foram ao segundo turno, mas ele diz que só participou das campanhas por ser amigo pessoal dos políticos, ambos negros. “No Brasil, o preto não vota [em pretos], não tem essa consciência de que temos que ocupar o espaço”.

Ele comenta a situação dos Estados Unidos, país de que diz ter “bronca e inveja”. “Não gosto da atitude deles em relação ao resto do mundo – se acham donos do planeta. Ao mesmo tempo, tenho uma inveja enorme. Foram descolonizados apenas dois anos antes do Brasil, e são uma potência. Têm percentual de negros pouco representativo e já elegeram um presidente e uma vice-presidente negros”.

O que falta, diz Martinho, é uma consciência generalizada. “O Brasil não é visto como um país racista, os Estados Unidos sim. Mas lá você tem negros em todos os postos. Falta consciência, porque quem elegeu Obama e o Biden com essa vice negra não foram os negros. Eles não têm força de voto para isso. Foram os brancos –e aí eu fico com mais inveja deles ainda”.

O sambista ainda lamenta que, em seus shows fechados, a maioria da plateia é branca. “É por causa do poder aquisitivo”, diz, comentando que se esforça sempre para levar amigos e familiares para seus shows.

“Acho que o negro, quando ele consegue subir para outro degráu da sociedade, ele entra em outra área. Não tem os amigos negros. Se o cara não fizer força, ele passa para o lado de lá. E não é uma atitude racista, é inconsciente. Quando vou em um lugar de maioria branca, devido ao poder aquisitivo, tento levar alguns pretos para integrar. É uma consciência, uma atitude que devemos ter sempre”.

Martinho ainda diz que, ele mesmo, não tinha a consciência de que fala quando tinha por volta de 30 anos de idade. “Quando fui a Angola, me atentei, aquilo me tocou. Todo negro brasileiro sonha um dia pisar o solo africano. Nossa história começou lá, a África influenciou o Brasil em tudo. E isso foi se massificando, começou a influenciar minha criatividade, os livros que escrevo, as músicas que canto. Tudo que faço tem isso incluso”.

Em um dos momentos mais emocionantes de “Rio: Só Vendo a Vista”, a faixa “Eterna Paz” – lançada em 1979 e refeita só com voz e cavaquinho –, o sambista canta sobre “adormecer com a consciência tranquila” e as “chuteiras penduras”, depois do dever cumprido. A faixa, com melodia de Candeia, surgiu após uma conversa entre os dois sobre morte e espiritualidade, mas só ganhou a letra de Martinho depois da morte do parceiro, em 1978.

Ele diz que Candeia havia pedido uma letra romântica. “Demorei um pouco a achar o caminho. E nisso ele morreu. Acabei fazendo a música com outro tipo de sentimentalismo. Falo dessa eterna paz, porque acho que ele cumpriu bem sua missão”.

Falando de sua casa, na Barra da Tijuca, Martinho sente saudades do Rio de décadas atrás, quando o Aterro do Flamengo era um “namoródromo” e as culturas menos homogeneizadas. “A globalização é mais evidente. Vestido como nós estamos, tem gente em toda parte do planeta. O cigarro que estou fumando é o mesmo que você fuma. Viajar não tem mais tanta graça”.

Ele sente falta da “liberdade de movimento”, diz que a violência urbana só cresce e que casos como o de George Floyd são rotina no Brasil. “É incrível isso. Você vê falando sobre guerras, bombas e tal. E aqui acontece toda hora. A polícia entra na favela e mata, sei lá, oito, dez, 16 pessoas numa casa! O Brasil às vezes é um abacaxi mesmo”.

Mas mesmo com a reclusão e turbulências sociais, Martinho, um símbolo de otimismo, não perde o sorriso. “É um período triste. O mundo está muito triste, embora haja pessoas que não dão bola para isso. Mas o que a gente fala tem que influir na vida das pessoas. Não podemos botar as pessoas para baixo. Temos que rir da própria desgraça e desconfiar das pessoas carrancudas – elas estão sempre escondendo alguma coisa”.

RIO: SÓ VENDO A VISTA
Onde: Nas plataformas digitais
Autor: Martinho da Vila
Gravadora: Sony

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Assuntos Carnaval, Martinho da Vila
Redação 23 de novembro de 2020
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