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Dia a Dia

Luta com cabeçadas favoreceu pescoço longo das girafas, mostra estudo

2 de junho de 2022 Dia a Dia
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Girafas: pescoço longo deve ter se desenvolvido a partir de lutas (Foto: Arquivo/EBC)
Por Reinaldo José Lopes, da Folhapress

SÃO CARLOS – Como as girafas desenvolveram seus pescoços descomunais? A explicação aparentemente óbvia é que os ancestrais delas que conseguiam alcançar folhas mais altas nas árvores foram favorecidos pela seleção natural. Mas um fóssil que acaba de ser descrito indica que o processo foi bem mais complicado. Uma das “protogirafas” tinha cabeça e pescoço que serviam para dar cabeçadas, e não para procurar comida.

O inusitado bicho, batizado com o nome científico Discokeryx xiezhi, viveu no noroeste da atual China há 16,9 milhões de anos. Seu pescoço era um pouco mais longo que o de um cavalo atual, mas o que realmente chama a atenção na anatomia do animal é a presença de uma espécie de capacete ósseo, achatado e com formato de disco, no alto da cabeça. É daí, claro, que vem a designação da espécie, já que Discokeryx significa “chifre-disco”.

Mas o elmo achatado é só parte da esquisitice que caracteriza o mamífero. As vértebras do pescoço possuem formato e conexões peculiares entre si e com a base do crânio. “É uma adaptação diretamente ligada à absorção de impactos”, explicou à Folha de S.Paulo Shi-Qi Wang, do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleontologia da Academia Chinesa de Ciências.

Wang, junto com outros colegas da China, da Europa e dos EUA, assina a descrição da girafa primitiva que acaba de sair na revista especializada Science. A equipe também analisou o contexto ecológico no qual o animal viveu, um ambiente que abrigava outros mamíferos de grande porte, como parentes extintos dos elefantes, rinocerontes e javalis atuais.

Uma coisa que já estava clara com base em outros dados fósseis e na comparação das girafas com seus parentes vivos mais próximos, os ocapis, é que os pescoços gigantes dos herbívoros são produto de uma fase relativamente recente de sua evolução (os ocapis, por exemplo, são muito menos pescoçudos). E, embora as pessoas só ouçam falar da hipótese da busca pelas folhas mais altas das árvores, os especialistas debatem há tempos a possibilidade de que os pescoços tenham sido selecionados também como armas.

Isso porque os machos das girafas atuais usam seus pescoções em combates ritualizados, algo que lhes permitiria ganhar posições de dominância sobre outros machos e ter mais oportunidades de acasalar com as fêmeas. A ideia de que esse processo foi o mais importante passou a ser designado, em inglês, como a hipótese “necks for sex” (“trocando pescoços por sexo”). De novo, os parentes mais modestos das girafas atuais trazem pistas sobre esse processo. “Os ocapis também lutam usando seus pescoços curtos, ainda que não de forma tão feroz quanto as girafas”, conta Wang.

A descoberta do fóssil chinês indica que esse processo já estava acontecendo, em grande medida, no caso dos parentes mais antigos das girafas e ocapis. Embora provavelmente não seja um ancestral direto das espécies africanas de hoje, o Discokeryx xiezhi ajuda a entender como o grupo evoluiu.

“Creio que tanto a luta entre machos quanto a alimentação em patamares mais altos da vegetação tiveram um papel no alongamento dos pescoços, mas de maneiras diferentes”, pondera Wang.

Um detalhe oriundo da análise da composição química dos dentes da protogirafa chinesa é que ela provavelmente tinha uma alimentação diferente de outros herbívoros da região, aproveitando a vegetação de ambientes mais abertos e secos. Essa vida mais difícil pode ter aumentado a competição entre machos, algo que acontece em outros herbívoros que “batem cabeça” entre si, como carneiros-selvagens de regiões montanhosas.

Aliás, segundo os cálculos dos pesquisadores, a girafa primitiva era o mamífero com o crânio e o pescoço mais adaptados a esse tipo de combate em todos os tempos.

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Assuntos fóssil, girafas
Cleber Oliveira 2 de junho de 2022
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