

Por Levy Teles, do Estadão Conteúdo
SÃO BERNARDO DO CAMPO – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem ajudado muito mais o PT do que o PT tem ajudado Lula. Esse é o diagnóstico de Djalma Bom, ex-metalúrgico que conheceu Lula dos tempos da luta sindical na década de 70.
Em entrevista ao Estadão, Djalma analisou que o PT, partido ele ajudou a fundar, precisa de uma “nova concepção”. “O PT tem uma organização envelhecida”, afirmou. “O PT precisa se abrir para a sociedade”.
O ex-sindicalista de 87 anos disse que a esquerda hoje sofre com “uma grande deficiência de intelectuais”. Na conversa, ele lembrou da história que construiu ao lado do amigo que conhece há mais de 50 anos.
“Lula é um encantador de pessoas. Ele consegue, com o carisma que tem, o envolvimento de todas as pessoas. Você conversa dois, três minutos com Lula, o carisma dele acaba te envolvendo”, disse Djalma.
Sempre no PT, Djalma foi eleito deputado federal entre 1983 e 1987, foi vice-prefeito de São Bernardo do Campo entre 1989 e 1992 e foi eleito deputado estadual por São Paulo entre 1995 e 2003.
Ao Estadão, ele também lembrou de algumas anedotas e de momentos tristes que passou com Lula. Juntos, os dois participaram das greves dos metalúrgicos em 1979, fundaram o PT e foram presos pela ditadura militar em 1980.
No 1º de maio de 1979, recorda Djalma, 150 mil trabalhadores se reuniram no estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, para continuar a greve. A campanha do presidente considera esse o nascimento da trajetória política de Lula.
Neste domingo (16), Lula e apoiadores se reúnem nesse mesmo estádio no ato inaugural da campanha pela Presidência da República, que será focada em resgatar os melhores momentos da história de Lula, desde essa greve até as vitórias presidenciais em 2002, 2006 e 2022.
Djalma e outros metalúrgicos que participaram do sindicato na década de 70 estão previstos para estar no palco com Lula nesse evento, que usará da nostalgia. A previsão é que Lula, que busca a reeleição, discurse com promessas para o futuro.
Confira trechos da entrevista:
Como o senhor conheceu Lula?
Conheci Lula em 1974. Posteriormente, em 1975, quando Lula foi candidato a presidente do sindicato pela primeira vez, ele me convidou para fazer parte da diretoria.
Como foi esse primeiro contato?
Lula disse para mim que tinha uma nova concepção e uma nova forma de fazer sindicalismo. Ele não concordava com aquela política sindical que era desenvolvida pelo próprio Sindicato dos Metalúrgicos que ele participava. Ele queria uma nova forma de fazer sindicalismo onde o sindicato seria o instrumento de luta, organização, conscientização e defesa das reivindicações dos trabalhadores. Automaticamente a gente conversou sobre as dificuldades que tinha.
Quais eram elas?
A primeira grande dificuldade que conversamos era a questão da estrutura sindical. Os sindicatos estavam sem liberdade, sem autonomia sindical, sem direito de greve. Os sindicatos do Brasil funcionavam muito mais como órgão de colaboração com o governo, a questão do assistencialismo. Tinha essa dificuldade para ser superada. A segunda grande dificuldade era a ditadura militar. Tínhamos de enfrentar a ditadura militar. Somente o nosso sindicato sofreu quatro intervenções, em 1974, em 1979, em 1980 e em 1983.
Como o senhor definiria Lula?
Lula é uma pessoa pragmática. Lula é muito intuitivo. É um cara super determinado e um cara super inteligente. Se tivesse um aparelho para medir a inteligência de Lula, acho que esse aparelho nas primeiras perguntas estouraria.
E qual foi sua primeira impressão sobre ele?
Eu achava que ele não tinha limites. São Bernardo não era fronteira para aquilo que vi de Lula naquele momento.
O senhor já descreveu Lula também como carismático. Até opositores, como Ciro Nogueira, já falaram sobre isso também. É isso mesmo?
Lula é um encantador de serpentes. Lula é um encantador de seres humanos. Ele consegue, com o carisma que tem, o envolvimento de todas as pessoas. Você conversa dois, três minutos com Lula, o carisma dele acaba te envolvendo. Além do olhar sedutor que ele tem, além das palavras de sedução, uma característica muito própria é de tocar nas pessoas. Esse carisma é importante na história de Lula.
Como foi aquele momento da greve em Vila Euclides, em 1979?
Colocamos umas mesas no meio do estádio, ele subia na mesa, fazia o discurso e transmitia para os metalúrgicos. Aqueles que estavam em volta de Lula falavam e transmitiam para os outros, que transmitiam para os outros. Foi dessa forma que aconteceu a assembleia de março de 1979. Algumas pessoas estavam achando que os metalúrgicos estavam afrontando a ditadura militar. Não era nada disso. Estávamos simplesmente cumprindo uma deliberação dos metalúrgicos, que decidiram pela greve. Calculamos que havia 150 mil pessoas dentro do estádio e nos arredores.
O senhor chegou a ser preso com Lula em 1980, como foi a experiência?
Um fato interessante que aconteceu. Estávamos umas 35 pessoas numa sala do Dops esperando o que iam fazer com a gente e estávamos numa roda. Vi passar Dalmo Dallari e José Carlos Dias. Olhei e falei para Lula porque “daqui a pouco estamos em casa porque acabou de chamar nossos advogados”. Passou uns 20 minutos os dois vieram para a gente e disseram: “nós estamos presos também”. Soa até humorístico. A gente ficou numa prisão injusta. Nos prenderam com o argumento de que incitamos a greve. O que incitava a greve era a miséria, fome, baixos salários, a perseguição aos trabalhadores. Ficamos 31 dias presos. Um dos momentos mais dramáticos que nós passamos foi quando Lula recebeu a notícia do falecimento da mãe dele. Isso mexeu com Lula e com todos nós. Me lembro que Lula debruçou no beliche de cima, chorou e as lágrimas caíram no meu rosto. Foi um momento dramático.
E o que ele fez depois de sair?
No dia em que fomos soltos, Lula foi para a casa dele. A primeira reação dele, ele tinha um viveiro com pássaros. A primeira coisa que ele fez foi soltar os passarinhos.
O senhor foi deputado federal. Como era a sua vida?
Não era vida. Em Brasília, ninguém vive. Eu era um operário metalúrgico que tinha facilidade com a questão sindical. De repente me torno deputado federal. Brasília é um lugar de muitas tentações. Você está em Brasília e convidam você para um jantar, ir para uma embaixada, tem uma mulher bonita que faz uma conversa com você. Ia para o apartamento funcional e chorava. Era uma grande dificuldade. Não me sinto bem em Brasília.
Lula foi deputado constituinte e pode ir para o quarto mandato se eleito. Seriam pelo menos 16 anos em Brasília. Como ele atura essa cidade?
Não sei. É adaptação, metodologia de vida. Não tenho uma resposta. Tem alguns deputados que têm até mais anos lá. Eu sou um dos fundadores do PT e sempre defendi no PT o direito à reeleição ao seu respectivo cargo. Lula questionou isso na convenção. Isso do carreirismo no PT. Quem manda no PT é quem tem mandato, porque os assessores ocupam todos os cargos nos diretórios do PT. Queria falar outra coisa. Posso falar?
Claro.
Da mesma forma que Lula teve uma concepção diferente para o movimento sindical, quero dizer que o PT precisa ter uma nova concepção. No meu entendimento, o PT precisa ter uma nova concepção, tanto na forma de atuação como na forma de organização. O PT tem uma organização envelhecida. O PT é uma organização vertical. O PT precisa adotar uma organização mais horizontal, precisa se abrir para a sociedade, universidade, conselhos de saúde. O PT vive num processo de internismo. É de reunião em reunião. Você não pode ter só o reunismo. O PT precisa estimular a criação de movimentos sociais e incentivar a militância a participar desses movimentos e trazer esses movimentos para a estrutura.
E por que essa abertura não acontece?
Às vezes é o interesse. O status quo não permite. O status quo não muda. Uma grande dificuldade que a esquerda passa é que não tem mais Paulo Freire, Apolônio de Carvalho, Antônio Cândido. Você tem uma grande deficiência de intelectuais. A classe política antes era Miguel Arraes, Jarbas Vasconcelos. Quem é a classe política hoje? O apresentador de emendas para resolver o seu problema?
Lula pode ir para o quarto mandato. Como o governo atual se diferencia dos dois governos anteriores, de 20 anos atrás?
Pela capacidade política, Lula sobrevive em qualquer situação. Como vai ser o último mandato de Lula, eu não tenho dúvidas que Lula vai fazer um mandato que vai ter uma marca. Lula vai fazer um governo com base na descoberta dos novos poços de petróleo. Lula vai jogar pesado na questão das terras raras.
O PT mais ajudou o governo ou mais atrapalhou?
Lula tem ajudado muito mais o PT do que o PT tem ajudado Lula.
Por quê?
Por causa da competência e liderança que Lula tem. Andando em São Bernardo do Campo e frequentando as reuniões, eles perguntam “o que o PT está fazendo por mim?”. Tem vezes que pergunto “o que estou fazendo para o PT?”.
Quem pode suceder Lula?
Lula não aposta em cavalo paraguaio. Pelo andar da carruagem, acho que o cara que tem condições de substituir Lula é Fernando Haddad.
O mesmo Haddad que não se reelegeu prefeito de São Paulo e não venceu a última eleição para o governo do Estado?
Perder as eleições depende muito da conjuntura. Perder a eleição faz parte do jogo. Por que Haddad? Ele tem demonstrado muita capacidade, competência e liderança. O que tem surgido na ordem do dia é o Haddad. É o cara que Lula aposta. Lula não aposta em cavalo paraguaio. Lula não gosta de gente incompetente e nem gente que não gosta de trabalhar.
O que Lula deveria ter feito nesse terceiro mandato e não fez?
A fome, a miséria e a desigualdade continuam. Lula tem feito grandes reformas, mas acho que o próximo governo de Lula tem que estar preocupado com a questão do envelhecimento da população brasileira, com políticas públicas para esse segmento da sociedade brasileira. Quantos do sindicato ainda estão vivos? Dos 23 de 1975, na minha contagem, tem cinco vivos. Dos 24 de 1978, há oito vivos.
Quando foi a última vez que o senhor falou com ele?
Foi no segundo turno das eleições municipais de Diadema. Para eu chegar até o palanque, precisei passar por oito cordas. Me levaram até onde estavam os deputados estaduais e federais e fiquei muito constrangido porque as pessoas achavam que eu era um estranho no ninho. Não estou magoado, nem nada. Estou vacinado. Estava onde estavam as supostas autoridades, Lula soube que estava lá e me mandou chamar para falar com ele. Estava ele e a Janja e me chamou para falar com ele. Foi uma quase vida juntos. Apanhamos até na cadeia juntos.
