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Política

Lula e Flávio Bolsonaro buscam atrair jovens e idosos desiludidos com a política

27 de setembro de 2026 Política
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Pesquisa Ibope mostra que maioria do eleitorado jovem se identifica com o candidato do PSL (Foto: Tomaz Silva/ABr)
Campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro buscam atrair eleitorado jovem e os idosos (Foto: Tomaz Silva/ABr)
Por Paula Ferreira, Levy Teles e Guilherme Caetano, do Estadão Conteúdo

BRASÍLIA – “Sinto falta de homens como Pedro Simon, Darcy Ribeiro e Leonel Brizola”, diz Osires Rezende, aposentado e escritor, de 73 anos. “Não queria votar em nenhuma dessas pessoas”, afirma Tiago Coutinho, com 25 anos recém completados em agosto, que trabalha numa empresa com familiares.

Quase cinco décadas separam esses dois eleitores, que têm argumentos diferentes para uma decisão comum na disputa de outubro: estão inclinados a não votar em nenhum candidato à Presidência da República.

Para Osires, o obstáculo é menor: o voto é facultativo para pessoas com mais de 70 anos. Tiago ainda aguarda para tomar uma decisão final até o próximo domingo (4), dia do primeiro turno.

Moradores de Brasília, os dois representam uma porção do eleitorado que as campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro(PL) trabalham para conquistar. Os votos dos jovens entre 16 e 24 anos (5,5 milhões, ou 12,5% do eleitorado) e dos brasileiros com mais de 70 anos (17 milhões, ou 15,75% do eleitorado) são vistos pelas duas candidaturas como potenciais alvos decisivos para vencer a disputa.

A apatia eleitoral de Osires vem desde 2022, quando ainda era obrigado a votar. Ele, que fez campanha para o PT no passado e foi filiado ao PDT, diz estar decepcionado com a política. Esse sentimento o levou a votar em Jair Bolsonaro (PL), em 2018. Mas logo se arrependeu.

O motivo? A “Lava Toga” – movimento iniciado no Senado para investigar supostos abusos de autoridade de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) –, barrada por iniciativa de aliados do próprio governo Bolsonaro. “Ali eu vi que eles não tinham compromisso com nada”, afirma.

Flávio Bolsonaro justificou pedido de dinheiro a Vorcaro em vídeo no Instagram (Imagem: Instagram/Reprodução)
Flávio Bolsonaro mantém herança do pai, Jair, de antipetismo (Imagem: Instagram/Reprodução)

Flávio Bolsonaro? Só para barrar Lula

A família de Tiago, cinco décadas mais jovem que Osires, também tenta convencê-lo a votar em alguém – neste caso, no senador Flávio Bolsonaro. Ele diz ser de direita e não vê nenhum político se encaixar no seu perfil de candidato ideal.

“Eu gosto do Jair Bolsonaro. O Bolsonaro eu acho honesto, mas o Flávio eu não acho. Honestidade para mim pesa muito”, diz Tiago. “Mas com certeza ele é menos pior que o Lula”.

Os parentes argumentam que votar em Flávio no primeiro turno seria uma forma de impedir uma possível vitória de Lula – algo que ele cogita só no segundo turno.

Título de eleitor para votar no PT

O argumento contrário também motiva eleitores jovens a votar no PT. “Eu voto em Lula por discordar dos ideais do Flávio e do pai dele. E Lula também fez políticas públicas para os mais pobres e necessitados”, afirma Gabriela Rojas, estudante de 16 anos, de Brasília, que vai votar pela primeira vez.

Gabriela se diz politicamente influenciada pelos pais, advogados ambientais que defendem pautas da esquerda. No início do ano, ela se juntou a sete amigas da mesma idade que decidiram tirar o título de eleitor. Jovens de 16 e 17 anos estão aptos, mas não são obrigados a votar – eles são 1,6 milhão de brasileiros.

A estudante observa uma onda conservadora crescendo entre pessoas da sua faixa etária. “Vários meninos estão tirando título de eleitor para voltar como era antes, quase como um Make America Great Again”, constata Gabriela, numa referência ao slogan do presidente dos Estados Unidos, Donald Turmp.

Lula atrai os mais jovens, mas também gera rejeição (Foto: Ricardo Stuckert)

Jovem bolsonarista contra a esquerda

Felipe Guerra, de 23 anos, também não considera faltar às urnas. Depois de apertar 22 na eleição passada, Felipe chega ainda mais convicto à disputa deste ano: antes um mero eleitor, hoje ele milita no PL Jovem, setorial de Juventude da legenda bolsonarista, e vem fazendo campanha por Flávio no Distrito Federal.

Estudante de Gestão Pública no Instituto Federal de Brasília, Felipe diz não ter a liberdade de manifestação que gostaria com seus pares da faculdade – majoritariamente de esquerda, ainda que de forma velada, segundo ele – e conta que até já rompeu amizades por seu posicionamento político.

Ele viveu 17 de seus 23 anos sob governos de esquerda e diz ser essa hegemonia que tem levado sua geração (a Z) para a direita. Na visão de Felipe, os principais problemas do País, como violência e corrupção, são colocados na conta do PT, uma vez que o partido governou o Brasil por quase duas décadas. E vê no deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) uma de suas maiores referências.

“Quem mais faria uma pessoa como eu sair de casa num sábado de manhã, pegar um ônibus até Luziânia, desembarcar e sair caminhando com ele até Brasília?”, indaga, numa alusão à marcha “Acorda, Brasil”, promovida por Nikolas em janeiro deste ano, do interior de Minas Gerais até a capital federal para protestar contra as instituições.

Ao longo de todo o ano, a casa simples onde Conceição Ferreira vive sozinha, em Cachoeira Paulista (SP), renova a decoração de acordo com as festividades do calendário, do Natal à Copa do Mundo, mas com um elemento sempre presente: Lula estampado em toalha, adesivos e fotos.

“Nunca mais vamos ter um presidente igual a ele. Eu sei que não preciso mais votar, mas vou. O que me faz votar nele é que é um presidente que tem consciência para os pobres, não faz pouco caso de ninguém”, diz Conceição, de 82 anos.

Embora não tenha sido beneficiária direta de programas do governo Lula, como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida, Conceição – que é de classe média baixa – atribui a oportunidade de sua neta se formar em uma universidade federal às políticas educacionais do presidente. “Gosta dos pobres, deu faculdade para todo mundo, pobre hoje tem carro, pobre hoje come carne”, afirma. “Agora, subiu um pouquinho o preço das coisas por causa dessa chuva.”

A idosa evita citar o nome da família Bolsonaro, mas, quando questionada sobre a motivação de rejeitá-los, menciona principalmente episódios envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro e a pandemia de Covid-19.

Urna eletrônica
Voto de eleitores indecisos, entre jovens e idosos, é considerado decisivo (Foto:Nelson Jr./TSE)

“Esse outro, que não gosto nem de falar o nome, na época da covid o repórter perguntou a ele: ‘O senhor sabe quantas pessoas morreram?’ E ele falou assim: ‘Não, eu não sou coveiro’. Será que esse povo brasileiro não vê isso?“, questiona.

Apesar do cenário acirrado indicado pelas pesquisas eleitorais, Conceição acredita na reeleição do petista, que, segundo ela, “está escrita nas estrelas”. E planeja até mesmo fazer uma tatuagem da estrela do PT para homenagear o ídolo: “Eu sou Lula lá até morrer. E já falei para as crianças que, quando eu morrer, quero a toalha dele em cima da minha urna”, conta.

Para votar em Bolsonaro, até de bengala

Longe dali, Ida Cristina, 80 anos, reúne as amigas em sua casa no Itaim Bibi, zona oeste de São Paulo, para tomar vinho e jogar baralho. No centro da mesa, o símbolo do maior traço que elas carregam em comum: um balde de gelo estampado com referências a Jair Bolsonaro. “Até o balde de gelo na minha casa é Bolsonaro”, brinca Ida Cristina.

Sem obrigatoriedade de votar, a idosa faz questão de ir às urnas mesmo com mobilidade reduzida. “Vou de bengala votar”, diz. Ela conta que sua motivação principal é melhorar o País para seus filhos e netos, e considera que o ex-presidente vinha fazendo um bom trabalho. Com o patriarca da família Bolsonaro fora das urnas, seu voto migrou, naturalmente, para o filho, Flávio. Mas, mesmo quando fala de seu voto nas eleições deste ano, se refere ao pai.

“Tenho esperança nele (Jair Bolsonaro) porque ele é uma pessoa idônea, com boas intenções. Ele não aceitou certas coisas, foi prejudicado e, em consequência disso, a gente está sendo prejudicada. Tem que mudar”, afirma.

Ida Cristina considera que o ex-presidente fez um bom trabalho quando esteve à frente do País, sobretudo na área econômica, que avalia como fundamental para garantir a prosperidade da família, composta por profissionais autônomos, como médicos, engenheiros, dentistas e empresários.

“Minha neta luta como médica, trabalha, faz plantão, e não ganha bem. E o pai gastou um dinheirão para que ela pudesse estudar”, conta. “O Flávio é jovem, está na flor da idade para comandar o país.”

O fantasma das investigações do Banco Master sobre a campanha de Flávio Bolsonaro também não assusta a eleitora: “Se mexerem com Flávio, tem muita gente pior, mais envolvida, do outro lado. Então, não tenho medo de nada”, diz ela.

Estratégias das campanhas

Do lado da campanha de Lula, o PT coordena e produz conteúdos voltados para os mais jovens e dedica especial atenção aos idosos. O partido lançou o projeto “Geração Lula”, focado em conversar com eleitores com mais de 70 anos.

“Milhões de pessoas com 70 anos ou mais querem ver o Lula presidente de novo. Mas como o voto é facultativo nessa idade, muitas acabam ficando de fora: em 2022, 8 milhões de 70+ não foram votar. Por isso, estamos nos organizando esse ano para levar o máximo possível dessas pessoas às urnas”, diz o texto no site da iniciativa.

O site ainda oferece um guia de mensagens para convencer pessoas com mais de 70 anos a votar e materiais para compartilhar nas redes sociais. Além disso, apresenta as propostas de Lula para os idosos, na tentativa de fazer quem está pensando em não ir votar mudar de ideia.

Na campanha de Flávio, por sua vez, existe uma insatisfação sobre a falta de estratégia direcionada a esse eleitorado. O candidato deve gravar na próxima semana um conteúdo voltado para o público com mais de 70 anos, mas já tem conversado indiretamente com esses eleitores nos discursos.

Uma das principais estratégias ofensivas de sua campanha é desgastar o governo Lula com a crise das fraudes no INSS, que afetou sobretudo aposentados e pensionistas. Há meses, Flávio se refere a Lula e ao empresário Fábio Luís, o Lulinha, filho do presidente, como personagens que “roubaram milhões de idosos”.

Flávio também tenta fisgar o eleitorado jovem com propostas. Num comício em Vitória da Conquista (BA), por exemplo, ele fez o público vibrar ao anunciar a promessa de baixar para 16 anos a idade mínima para dirigir.

O que dizem os números

Pesquisas mostram que Lula vai melhor nos eleitorados dos extremos. No levantamento do Datafolha de 17 de setembro, o petista aparece com 39% das intenções de voto no primeiro turno, na faixa de 16 a 24 anos, contra 29% de Flávio. Duas outras pesquisas apontam empate técnico: 31% a 31% na Quaest de 21 de setembro (que abrange uma faixa de 16 a 34 anos); e 30% a 31% na Atlas de 23 de setembro, respectivamente.

No eleitorado idoso, a vantagem do petista é maior. No Datafolha, Lula marca 43% e Flávio, 33%. A Quaest indica uma diferença similar: 42% contra 32%. A Atlas oferece um cenário ainda mais favorável a Lula: 62,5%, enquanto Flávio tem 31,5%.

As pesquisas justificam o esforço da campanha do PT para tirar os idosos de casa no dia da votação. O Datafolha mostra que, somados, os indecisos e os votos em branco e nulos representam 11% do público que tem mais de 60 anos.

“As pesquisas têm mostrado que Lula vai muito bem na faixa dos acima de 60 anos. Obviamente que essa faixa precisa de muita motivação para votar”, analisa Marco Antônio Carvalho Teixeira, cientista político da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

O cientista político pondera, porém, que o espaço para apresentação de propostas no debate da atual eleição foi esvaziado. “Ao mesmo tempo, Vorcaro e STF sequestraram a agenda pública. Então, qualquer debate de proposta, de projeto, de concepção de política pública acabou ficando secundário ou nem existindo”, afirmou.

No caso dos mais jovens, o PT mobiliza viagens pelo Brasil em encontros de juventude, organiza plenárias virtuais com fandoms (grupo de pessoas que cultua determinada obra ou artista) e dissemina conteúdos nas redes sociais especialmente pelo Lulaverso, iniciativa que surgiu nas eleições em 2022.

O PL também tem tido sucesso em atrair o público conhecido pelo estereótipo de rebelde, progressista e revolucionário. Nos seminários de comunicação, organizados pelo partido, líderes jovens ensinam os demais correligionários como se comunicar melhor pelas redes sociais, recorrendo a manuais de guerrilha digital: provocação, trollagem, cortes e confrontos.

Para Marco Antônio Carvalho Teixeira, a abstenção entre os jovens projeta uma situação em que Lula e Flávio perderiam. “Na faixa dos 16 aos 24, pesquisas mostram que eles têm tido pouca propensão a votar. E essa faixa tem sido dividida entre Lula e Flávio. Então, ambos perdem em caso de alta abstenção”, conclui o cientista político.

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Assuntos Eleições 2026, eleitorado, Flávio Bolsonaro, Idosos, Jovens, Luiz Inácio Lula da Silva
Cleber Oliveira 27 de setembro de 2026
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