
Por Bruna Chagas, da Redação
MANAUS – Experimentar a sensação de não ter para onde ir, não ser amada pela mãe ou família, não poder confiar em ninguém, somente em si e ainda ter seu corpo violado na infância pode deixar danos irreversíveis para vida adulta e até mesmo destruir uma pessoa, mas no caso da psicóloga amazonense Maria Vanuza, de 32 anos, a história foi diferente. Ela transformou essa violação em uma batalha intensa contra a violência infantil no Amazonas.
“Dos 7 aos 9 anos, fui violada de todas as formas e não quero que nenhuma menina tenha que viver o que eu vivi’, conta Vanuza que atualmente é psicóloga na Casa Mamãe Margarida – um local de acolhimento de meninas em situação de vulnerabilidade.
Ela conversou com a reportagem do ATUAL e contou como foi essa infância e juventude que a transformaram na mulher admirada que é atualmente.
Nascida no município de Itamarati, no sudoeste do Amazonas, com pouco mais de 7 mil habitantes, neta de ribeirinhos – o avô foi soldado da borracha, Maria Vanuza nasceu em um seringal. A mãe muito jovem, tinha apenas 13 anos quando ficou grávida de Maria e após alguns meses, o pai biológico abandonou as duas, por conta de um conflito em família.
A luta pela sobrevivência já começou a partir desse fato, já que a mãe de Maria, decidiu ir embora também e a deu para os avós maternos cuidarem. E foi assim que ela foi criada dos 9 meses até os 5 anos de idade.
“Lembro de uma vida feliz à beira do rio com meus avós. Mas quando completei 5 anos, minha mãe retornou à cidade e se envolveu com outro homem que desde o início fez questão de demonstrar que não me aceitava e nem me queria por perto. Porém, logo, ela (mãe) foi me buscar para morar com eles. Ela já estava esperando uma filha desse homem”.
Maria Vanuza relembrou que certo dia, a mãe tinha mandado o companheiro dar a benção à filha e ele não quis dar. “Ele não quis me dar a benção e dizia para todos ouvirem que eu não era filha dele. A partir desse momento, eu percebi que ele, realmente não gostava de mim”.
Morte e mudança
A mãe de Maria teve 4 filhos com o companheiro. Quando a irmã caçula nasceu, o padrasto cometeu um crime: matou um homem em Itamarati. Preso, foi transferido para a cidade de Carauari, onde havia cadeia.
“Minha mãe passava meses em Carauari e voltava para ver a gente. Mas o pior é que não tínhamos paz; recebíamos inúmeras ameaças da família do rapaz que ele havia matado. Depois de um ano, ele foi solto”.
Quando a família da vítima soube que o padrasto seria solto, voltou a ameaçar a mãe e irmãos de Maria. “Eles diziam que iam tacar fogo lá em casa. Com medo, fomos para Manaus. Foi uma forma de salvar nossas vidas. E quando chegamos meio que fugidas, fomos morar em uma invasão, onde hoje é bairro Jorge Teixeira, 4ª etapa. A casinha era pequena, coberta de alumínio, parede de palete e chão de barro batido”.
Bebida, violência doméstica e abusos

Com o tempo, o padrasto foi trabalhando e construindo uma casa melhor. “Nessa época eu já tinha uns 7 anos e lembro bem que ele trabalhava muito, mas começou a beber demais e a partir daí, ele batia na minha mãe todos os dias, batia tanto que às vezes eu tinha que tirar meus irmãos da casa e ficar esperando as coisas melhorarem. Ficávamos de 2h até 4h da manhã na rua. Era terrível”.
Maria Vanuza conta que os abusos sexuais começaram também nessa época e depois foi piorando até chegar a consumar o ato. (O sobrenome foi omitido a pedido de Vanuza).
“Quando ele chegava bêbado, eu já tinha medo pela minha mãe apanhar, eu ficava muito nervosa, mas um dia ele chegou e foi para meu quarto, ficava me olhando e isso já me assustava. Depois de um tempo, ele começou a passar a mão no meu corpo, tocando nas minhas partes íntimas e ia embora, até que um dia ele me estuprou. E desde então ele fazia isso quase todos os dias”.
“Eu falava para minha mãe e ela não acreditava em mim, dizia que eu estava inventando, fantasiando e chegou um tempo em que ela me batia muito, ela me espancava e muitas vezes eu não dava conta de cuidar dos meus irmãos, porque as surras eram violentas, a minha boca quebrada, corpo roxo, hematomas pelo corpo inchado, e enquanto eu apanhava por falar a verdade para minha mãe, os abusos do meu padrasto só foram aumentando cada vez mais”, relembrou Vanuza.
Fugas e morar na rua
Maria Vanuza não aguentava mais ser violada pela família. Aos 8 anos começou a fugir de casa. “Meu sonho era encontrar minha família no interior. Meus queridos avós. Eu não sabia ler e nem escrever, eu cuidava de casa, fazia comida, cuidava dos meus quatro irmãos. Eu fugi mais de dez vezes e todas as vezes que eu fugia, eu pegava um barco em Manaus e ia embora. As pessoas me devolviam e me colocavam no abrigo do estado porque não poderiam ficar comigo. Minha mãe foi me buscar no abrigo várias vezes e eu ia para casa e a violência continuava”.
Maria percebeu que não adiantava mais fugir para tentar encontrar os avós, porque sempre devolviam ela para mãe. A partir desse momento, ela passou a ficar no Centro da cidade e a conhecer uma outra realidade da violação da infância em Manaus.
“Passei a ver o outro lado da realidade infantil na rua. Outro lado da história. Eu cheguei a dormir nas praças e essas praças têm donos e só fica lá se você se aliar a um dono da praça. Você precisa roubar, pegar comida do lixo, dormi com caras. Dos 8 aos 9 eu sofri isso, apanhei muito na rua, do pessoal do Centro. Tenho hematomas até hoje no meu corpo”, disse a psicóloga.
Após fugir inúmeras vezes, a mãe de Maria a ameaçou dizendo que não iria mais atrás dela, caso ela fugisse novamente.
“Da última vez que fugi, o SOS Criança me resgatou na rua, e realmente ela não foi me buscar. decidi então ficar no abrigo do governo, que era antigamente o Moacyr Alves. Eu não queria ir mais para rua, estava muito machucada. Só queria ficar ali, como se as minhas esperanças tivessem acabado, tudo acabado ali para mim”.
Há um lugar bom?

Maria permaneceu dias no abrigo, até que duas meninas a chamaram para fugir, pois elas diziam que iriam para um lugar muito bom. Mas Maria não aceitou. “Elas fugiram e depois de 15 dias voltaram para o Moacyr e eu perguntei: ‘Não era tão bom lá? Por que voltaram?’ E elas responderam que era bom demais e não souberam aproveitar. Fiquei com aquilo na minha mente”.
Maria contou que certo dia havia apanhado bastante de um cuidador. Segundo ela, eles maltratavam muito as crianças. E decidiu que iria fugir e encontrar aquele local bom que as meninas falaram.
“A gente acordava de madrugada para capinar a horta do abrigo. Todo dia eu batia no muro com a enxada para abrir um buraco. Depois de 15 dias, vi que dava para eu passar. Eu fugi em busca daquele lugar. Mesmo sem saber ler e escrever eu ia perguntando das pessoas, tanto que saí do bairro Alvorada e consegui chegar na zona leste, na casa Mamãe Margarida”, relatou.
Maria ficou sentada na entrada da Casa Mamãe Margarida e esperou até alguém aparecer. “Eu fiquei sentada não sei por quanto tempo e uma irmã me acolheu. Ali eu vi o que era ser respeitada, amada e cuidada. A irmã Justina perguntou o que havia acontecido, me deu banho, me deu roupa nova. Tenho na memória do cheiro da roupa que recebei, uma blusa branca e short colado da mesma cor. Nunca vou esquecer desse dia”.
A freira ouviu o que ela tinha para falar e a colocou para dormi. “No dia seguinte, ela foi na minha casa, conversou com a minha mãe, viu como estava minha família, e se preocupou de verdade. A partir daquele momento minha vida começou a mudar. Aprendi a ler com 10 anos e as pessoas da Mamãe Margarida estavam prontas a ajudar a mim e minha família”.
Vítima nunca mais
A partir disso, Maria Vanuza foi crescendo dentro do acolhimento. Os profissionais no local cuidavam tanto dela quanto da família e trabalhavam para retirá-los daquela situação precária em que estavam vivendo.
“No acolhimento me viam como uma pessoa de potencial, e nunca como coitadinha. Elas diziam: você consegue! Isso foi essencial para minha vida. Conquistei coisas no lá dentro, fui protagonista no envolvimento social aos 15 anos, que luta pela causa da infância, combate à violência sexual. Fui representar a instituição em conferência nacional dos direitos da criança e adolescente. Cheguei a viajar para a Itália, onde conheci meus padrinhos, pois ganhei a passagem após ser escolhida por ser comportada. Sou muito grata”, ressaltou Maria.
Com 14 anos, Maria Vanuza conseguiu tirar a mãe da situação que estava. Totalmente dependente daquele relacionamento abusivo, afetiva e financeiramente. “Através do trabalho que fizeram em mim e graças à instituição, consegui tirar minha mãe e irmãs daquela casa. Nós fugimos e até hoje não sabemos onde o meu padrasto está. Minha mãe disse que sou o anjo dela”, relatou.
Com o tempo, a família se reconstruiu e Maria Vanuza se formou psicóloga. Atualmente, atende as crianças e jovens que, assim como ela, precisam de orientação e muita ajuda.
“Hoje eu conto para todos a minha história para mostrar como um exemplo bom que é possível sair daquela situação de vulnerabilidade e ter um futuro, que naquele momento pode parecer distante, mas vai chegar, se você tiver apoio necessário e força de vontade”.
