
Por Thiago Gonçalves, do ATUAL
MANAUS – O efeito da cobrança de 50% de imposto sobre produtos do Brasil nos Estados Unidos será mínimo nas vendas da Zona Franca de Manaus ao país norte-americano. É que as importações do Amazonas são maiores que as exportações para os EUA. O Estado exportou em 2024 cerca de US$ 99 milhões em produtos da Zona Franca para os EUA. Em 2025, até junho, foram US$ 35 milhões.
Em contrapartida, as importações da ZFM vindas dos EUA foram significativamente maiores: US$ 1,467 bilhão em 2024 e US$ 646 milhões até junho de 2025. “Ou seja, compramos muito mais do que vendemos”, afirma Serafim Corrêa, secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do Amazonas. “Não vai ter grande reflexo (a taxação) na nossa economia”, acrescenta.
Atualmente, a ZFM exporta somente 1,5% de seu faturamento, sendo que deste percentual menos de 10% têm como destino os Estados Unidos. Nesse sentido, apenas 0,15% do faturamento da Zona Franca de Manaus estaria sujeito às novas tarifas, explica Serafim.
Em 2025, as exportações para o país são ainda menos expressivas. Com participação de 8,74% na compra de produtos produzidos na ZFM, os EUA ficam atrás de Alemanha, China, Argentina e Colômbia que lideram a lista de principais compradores de produtos do Amazonas.
Impacto no dólar
A economista Denise Kassama cita que, embora os efeitos práticos da medida ainda dependem da permanência ou reversão da taxa, o anúncio gerou apreensão. Segundo Denise, o efeito na Zona Franca deverá ser indireto com o possível aumento do dólar.
“O modelo econômico da ZFM é pautado na importação de insumos. Com a instabilidade gerada por essa medida e a possibilidade de alta do dólar, os insumos ficam mais caros e, consequentemente, o produto final também tende a encarecer”, explica.
Denise Kassama diz que o Brasil pode, por meio da lei da reciprocidade, aplicar medidas compensatórias. Também avalia que parte das commodities exportadas, como café e suco de laranja, podem ser redirecionadas ao mercado interno, o que ajudaria a conter a inflação.
Na avaliação do economista Inaldo Seixas, o impacto direto sobre o Polo Industrial de Manaus deve ser “muito pequeno”. Segundo ele, a ZFM exporta poucos produtos aos EUA, entre eles motocicletas, rodas dentadas e maquininhas de cartão.
“Acredito que o impacto será mais perceptível em setores como carnes, sucos, aço, alumínio, café, produtos plásticos e da indústria química que são cadeias mais concentradas no Sudeste do país”, enumera.
Seixas pondera que o cenário ainda é instável e que uma reconfiguração no comércio internacional pode, inclusive, abrir novas oportunidades de mercado e aumentar a competitividade brasileira diante de um dólar em queda. No entanto, considera que as decisões do governo Trump costumam ser imprevisíveis.
Efeitos indiretos
Para o vice-presidente da Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas), Nelson Azevedo, a medida é preocupante mesmo que os EUA não sejam o principal destino das exportações da ZFM.
“A tarifa de 50% impõe um desafio ao ambiente de negócios da ZFM. Vai na contramão do que se espera de parceiros comprometidos com o desenvolvimento sustentável. Ela prejudica cadeias produtivas que investem em inovação e sustentabilidade”, afirma.
Azevedo diz que setores da ZFM que utilizam aço e alumínio industrializado, como as linhas eletroeletrônicas, de refrigeração, componentes de bicicletas e energia solar, podem ser afetados. De acordo com dados da Suframa e do MDIC citados por ele, 13,5% das exportações do Amazonas em 2024 tiveram os EUA como destino, movimentando mais de US$ 270 milhões até junho.
A Fieam defende que o Brasil adote uma postura firme junto à OMC (Organização Mundial do Comércio) e crie mecanismos de compensação para proteger indústrias de base sustentável localizadas na Amazônia.
O superintendente da Suframa, Bosco Saraiva, disse que o impacto direto da taxação para o Polo Industrial de Manaus é pequeno em termos de faturamento, mas reforçou a importância da cautela e confiança no governo federal. “A prudência deve ser o norte do nosso comportamento. Confiamos na capacidade de negociação do nosso governo e do nosso ministro”.
Saraiva reiterou que a Suframa cumprirá a orientação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se posicionou oficialmente contra a medida adotada pelos EUA.
Segundo a Secretaria de Estado da Fazenda do Amazonas, a taxação pode causar a desvalorização do real frente ao dólar o que pode encarecer insumos importados e aumentar custos de produção e impactar a competitividade das indústrias instaladas no estado.
Confira os dados de importação e exportação do Amazonas.
