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Dia a Dia

Hominídeo ‘superarcaico’ pode ser novo galho na árvore evolutiva humana

21 de fevereiro de 2020 Dia a Dia
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Neandertais e Denisovanos são duas espécies intimamente relacionadas entre si na escala evolutiva (Foto: Museu de História Natural/Divulgação)
Da Folhapress

SÃO CARLOS – Fantasmas genéticos parecem estar rondando a evolução do Homo sapiens. São membros ancestrais do gênero humano cujos fósseis ainda não foram identificados, mas que teriam legado trechos de seu DNA durante episódios de cruzamento com os ancestrais das pessoas de hoje.

Se a hipótese estiver correta, a evolução dos seres humanos teria sido marcada por sucessivos processos de miscigenação em escala global, conforme diferentes ondas de hominídeos (ancestrais e parentes próximos do homem) deixavam a África e se encontravam com “primos” que já tinham chegado a outros continentes.

Um dos novos estudos sobre o tema, publicado na edição desta semana da revista especializada Science Advances, propõe que hominídeos bastante primitivos, apelidados de “superarcaicos”, teriam participado do processo há cerca de 700 mil anos, durante uma das ondas de expansão africana rumo ao território europeu e asiático.

Alan Rogers e seus colegas do Departamento de Antropologia da Universidade de Utah (sudoeste dos EUA) chegaram a essa conclusão depois de usar métodos estatísticos para peneirar dados do genoma de seres humanos modernos da África e da Europa e de compará-los com o DNA de dois hominídeos extintos.

Essas espécies desaparecidas que entraram na análise, os neandertais e os denisovanos, estão longe de ser “fantasmas”. Os cientistas já encontraram seus fósseis (no caso dos denisovanos, apenas alguns fragmentos, por ora) e dispõem da sequência relativamente completa de “letras” químicas que compõem o DNA delas. Ambas viveram na Eurásia (os neandertais mais a oeste, os denisovanos mais a leste) e desapareceram no fim da Era do Gelo, antes de 30 mil anos atrás. E ambas se miscigenaram com o Homo sapiens antes de desaparecerem. Todas as pessoas não africanas carregam uma pequena porcentagem de DNA neandertal, e os asiáticos e nativos da Oceania também têm alguns genes denisovanos.

Essencialmente, o que Rogers e companhia fizeram no novo estudo foi comparar os padrões de trocas de “letras” individuais em DNA em todas essas linhagens. Em cada local do genoma, é possível classificar essas letras como “ancestrais” (ou seja, mantendo o padrão existente no passado remoto dos hominídeos, antes que as diferentes espécies surgissem) ou “derivadas” (ou seja, que sofreram mutações e foram trocadas).

A análise mostrou que o padrão de mutações nos vários ramos da evolução humana é tal que tanto os neandertais quanto os denisovanos carregam letras de DNA “derivadas” diferentes dos demais ramos -e com uma frequência tão elevada, ao longo do genoma, que seria improvável que essas mutações tivessem acontecido espontaneamente no DNA de ambas as espécies, explicou Rogers à reportagem.

É mais lógico imaginar que ao menos algumas delas foram transmitidas pelo cruzamento com os hominídeos superarcaicos, que carregariam parte dessas regiões divergentes do genoma. Isso teria acontecido, de início, antes que neandertais e denisovanos se transformassem em linhagens separadas (o genoma, de fato, indica que eles eram mais aparentados entre si do que com os ancestrais diretos dos seres humanos modernos).

Mas quem seriam os tais superarcaicos? É difícil dizer com certeza, embora fósseis e ferramentas de pedra indiquem que hominídeos muito primitivos já tinham chegado ao Cáucaso (entre a Europa e a Ásia), na atual Geórgia, há 1,8 milhão de anos.

“Poderiam ser membros da espécie Homo erectus ou um outro hominídeo que ainda não foi identificado”, diz Rogers. O pesquisador de Utah e seus colegas calculam, usando os dados genéticos, que a linhagem dos superarcaicos teria se separado das demais há cerca de 2 milhões de anos, o que bate com os dados arqueológicos sobre a primeira colonização da Eurásia por hominídeos.

Em outro estudo, também publicado recentemente na mesma revista científica, a dupla formada por Arun Durvasula e Sriram Sankararaman, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, usou métodos genômicos e estatísticos parecidos para identificar a contribuição genética de hominídeos fantasmas dentro do próprio continente africano.

Analisando o DNA de populações da África Ocidental, como os iorubás da Nigéria (aparentados a muitas das pessoas escravizadas que vieram para o Brasil) e os mandês de Serra Leoa, eles propõem que algo entre 2% e 19% do material genético desses grupos poderia vir de hominídeos arcaicos, que divergiram das demais linhagens humanas um pouco antes do aparecimento dos neandertais (há cerca de meio milhão de anos, portanto).

A situação da África é mais complicada do que a da Eurásia porque, por conta do clima mais quente, o registro fóssil africano é mais esparso, dificultando a identificação dos “fantasmas” e a extração de DNA dos fósseis que já foram achados. De qualquer modo, a aposta dos pesquisadores é que o cenário da evolução humana deve se tornar ainda mais complexo.

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Assuntos Homo sapiens, superarcaicos
Redação 21 de fevereiro de 2020
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