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© 2022 Amazonas Atual
Gina Moraes

Hoje é dia de votar a favor de Manaus

15 de novembro de 2020 Gina Moraes
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Os gregos definiram política como o desafio de civilizar a  vida em sociedade e esse paradigma permanece como um desafio ao longo dos séculos para quem abraça essa profissão sagrada e tão desgastada na ótica dos cidadãos neste Brasil. Recomendamos, a propósito, a série Borgen, disponível no aplicativo Netflix, que narra os detalhes dos jogos de interesse que se desenvolvem no exercício da política dinamarquesa. Uma realidade distante, porém factível, se nós, eleitores, assim escolhermos, cobrarmos e virarmos o tabuleiro das presepadas com o erário.

Parlamento do povo

A sugestão do seriado Borgen, que significa Castelo, abreviatura do nome do Palácio de Christiansborg, sede do Parlamento dinamarquês, pretende apontar, com base nisso, um paradigma e um parâmetro real e desejável de exercer a política. Talvez nosso fio da meada seja indagar por que, entre nós, é tão rasteiro, execrável em muitos casos, o modo de representar os interesses dos eleitores. Saltam algumas indagações e muita indignação a respeito: por que nossos tributos são tão mal empregados, por que pagamos tantas mordomias para os políticos e recebemos uma banana de volta, quase sempre podre e intragável? Por que priorizar o pagamento da distorção institucional que o sistema estabelece se o mesmo prestígio ou prioridade não se aplicam à gestão pública, por exemplo, da saúde e da educação? Saúde para resguardar a qualidade de vida e educação para promover o exercício pleno da cidadania.

Escolhas equivocadas

Serão os políticos, em sua maioria, uma espécie de agentes do Mal, enviados do reino dos ilícitos para deteriorar as pilastras do edifício social? Não, não são. Eles não são impostos, são escolhidos pelos próprios cidadãos, muitas vezes por uma contrapartida humilhante para quem foi barrado no baile. Entre 2014 e 2018, a renda dos 5% mais pobres no Brasil caiu 39% e, no mesmo período, houve um acréscimo de 67% daqueles que vivem em extrema pobreza, de acordo com o IBGE. É o círculo vicioso, porque os políticos mais espertos, no sentido criminoso do termo, vão buscar seu credenciamento no toma lá dá cá com as classes mais desfavorecidas. São elas que trocam seus votos por uma doação momentânea da temporada eleitoral.

Como mudar essa desordem social, encravada e viciada no modelo Brasil de exercitar a política? Na Dinamarca, há uma justa distribuição de renda, de forma que os políticos não ostentam riqueza, são pessoas comuns, que permanecem no cotidiano de seus eleitores. Lá, todos os parlamentares recebem como benefício um cartão que dá direito ao metrô, ao trem e ao ônibus para sua movimentação diária. Mesmo assim, essa “mordomia” ocorre sob protesto dos cidadãos. Os parlamentares não possuem servidores exclusivos, e, para cada grupo de quatro parlamentares, são compartilhados uma secretária, dois acadêmicos e um estagiário.

Indignação generalizada

No Brasil, cada parlamentar tem à disposição, mensalmente, R$ 106.866,59 para contratar até 25 funcionários. No caso de deputados federais e senadores, há uma ajuda de custo, auxílio moradia e verba do “cotão”, uma verba extra para reembolso de passagem aérea, fretamento de jatinho, alimentação, gasto com telefonia e correio, consultoria para a divulgação do mandato, manutenção de escritórios de apoio à atividade parlamentar, compreendendo locação de imóveis, pagamento de taxa de condomínio, IPTU, seguro contra incêndio, energia elétrica, água e esgoto, locação de móveis e equipamentos, material de expediente e suprimentos de informática, acesso à internet, TV a cabo, licença de uso de software e assinatura de publicações; táxi, estacionamento e ajuda para combustível, enfim uma imoralidade que assombra qualquer cidadão de bem e pode ser tachada de atrocidade pelos excluídos dessa festa imodesta.

Quem criou essa imoralidade?

Somos, obviamente, os promotores diretos dessa imoralidade institucionalizada. E não vale argumentar que a Dinamarca, que tomamos como paradigma, tem apenas 5,5 milhões de habitantes, enquanto no Brasil havia, em 2018, 210 milhões de pessoas. O problema não é demográfico, é educacional, cultural e estrutural. Entretanto, se já foi equacionado, não temos por que desanimar sob a desculpa de que eles são evoluídos e nós não. Sejamos, pois. E a ferramenta é muito simples, eficaz, decisiva e definitiva: chama-se voto, escolha, compromisso. E o começo da mudança pode acontecer hoje, data da atrapalhada, porém simbólica, Proclamação da República.

Entregues a deus-dará!

E por que essa mudança tem tanta urgência de acontecer? Basta andar pela cidade de Manaus para entender e decidir que, assim como está, não dá para continuar. Uma das capitais que mais arrecada recursos no país, ironicamente, é detentora de deploráveis indicadores de desenvolvimento humano, abraçada por um cinturão de pobreza, violento e abandonado pelo poder público. Recordista de indicadores da criminalidade, a cidade padece de mobilidade urbana, transformada em transtorno público, visto que as pessoas caminham às margens fétidas e poluídas por tudo quanto é resíduo social, inclusive o descaso de seus gestores.

Votar é celebrar a cidadania

Vamos fazer deste 15 de novembro, a Proclamação da República da indignação e da intolerância com o descaso. Vamos escolher pessoas comprovadamente envolvidas pelo conhecimento e comprometimento com nossos problemas. Vemos, com bons olhos, profissionais liberais, servidores públicos, lideranças comunitárias no rol da disputa por nosso voto sagrado. Cidadãos com ficha limpa e passado marcado pelo trabalho em prol do bem comum. Tenhamos em mente não apenas a Dinamarca, mas sobretudo o número de quem sinaliza uma direção inspirada naquele país, um Castelo erguido para coroar a cidadania. Vamos votar em favor de Manaus!


Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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Assuntos eleições municipais, Prefeitura de Manaus, voto
Cleber Oliveira 15 de novembro de 2020
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