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Política

Grupos de renovação política elegem 28 prefeitos e expõem dilemas

6 de dezembro de 2020 Política
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Cientista política Mônica Sodré diz que finalidade da Raps não é renovar a política (Foto: Facebook/Reprodução)
Cientista política Mônica Sodré diz que finalidade da Raps não é renovar a política (Foto: Facebook/Reprodução)
Por Géssica Brandino, da Folhapress

SÃO PAULO – A reeleição de Edvaldo Nogueira (PDT), 59, como prefeito da capital Aracaju (SE) e de Raquel Lyra (PSDB), 42, em Caruaru (PE), tem um ponto em comum com a eleição de Arão Jovino (PSD), 28, na pequena Ascurra, município catarinense onde vivem cerca de 8.000 pessoas. Todos integram grupos de qualificação e renovação política.

Nessas eleições municipais, de acordo com levantamento feito pela Folha com os movimentos Raps (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade), RenovaBR, Agora, Acredito e Livres, 28 candidatos com esse perfil foram eleitos ou reeleitos para prefeituras, em cidades do Sudeste e do Nordeste, mas também no Sul e no Centro-Oeste.

Em termos partidários, os integrantes transitam entre siglas de diferentes linhas ideológicas. O Podemos tem cinco eleitos. O Progressistas, quatro, PSD e MDB, têm três eleitos cada um. Solidariedade tem três, e PDT, dois.

Com exceção da Raps, criada em 2012, e do Livres, de 2015, essa é a primeira eleição municipal para a maioria desses grupos, que trabalham com diferentes plataformas e objetivos. O balanço que fazem em relação ao resultado é positivo, embora eleger quadros não seja a finalidade de todos, como ponderam Raps e Agora.

“Esse foi o melhor resultado da Raps em eleições municipais em oito anos da nossa história”, afirma a diretora-executiva da rede, Mônica Sodré. De 53 candidatos do grupo que disputaram o Executivo, 32% foram eleitos.

A cientista política explica que o movimento atua em três frentes, com formação, agenda e rede de conexões, buscando a qualificação da ação política. “A nossa preocupação não é renovar a política. O problema da política brasileira é de outra ordem e está relacionado à qualificação dos atores políticos, sejam eles novatos ou já eleitos”.

Político há mais de 30 anos, Edvaldo assumiu o primeiro mandato em 2006, após Marcelo Déda (PT) deixar a Prefeitura de Aracaju para disputar outro cargo. Ao concluir o segundo mandato, em 2013, conheceu a Raps. “Recebi muita contribuição da Raps, principalmente na ideia de cidade sustentável e inteligente, que foi algo que agregou muito para o meu mandato agora”, diz.

Com um convênio com o Instituto Arapyaú, que obteve por meio do movimento, o prefeito reeleito para o quarto mandato conseguiu criar na capital sergipana um departamento de inovação e implantar projetos, como matrículas online, prontuários eletrônicos e semáforos inteligentes.

O instituto também contribuiu com a gestão de Raquel em Caruaru, cidade de 365 mil habitantes. Ali a parceria foi para criar uma central de vagas em creches que ajudou estabelecer critérios para o atendimento. “O resultado prático disso é que tive o maior Ideb da nossa história”, afirma.

Além da Raps, Arão –jornalista e primeiro político da família– integra o RenovaBR, escola de formação de políticos do executivo Eduardo Mufarej, e o Agora, plataforma voltada para formulação de políticas públicas, que ajudaram a financiar a campanha.

“O movimento ajudou, seja com doação via vaquinha ou doadores de forma direta e com a construção de um plano de governo, e isso é importante frisar, porque em cidades como a nossa, de 8.000 habitantes, as pessoas não estão acostumadas a ver candidato com plano. Foi o que os eleitores mais comentaram durante a campanha”, afirma.

Em 2017, ele foi selecionado pela Fundação Lemann para um programa de formação de líderes públicos, com um curso na Universidade de Oxford, no Reino Unido. Em 2018, disputou pela primeira vez, ao cargo de deputado federal.

Os cinco grupos lançaram 184 candidaturas para prefeituras, sendo 47 mulheres (26%) e 50 de negros (27%), somando os autodeclarados pardos e negros. Dentre os 28 eleitos, 3 são mulheres (11%) e 8 negros (29%).

Lara Mesquita, cientista política e pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas, aponta que o número de candidaturas de mulheres a prefeituras ficou acima da média nacional, de 13%, mas foi menor em relação aos negros, 36%. Em relação a eleitos no cenário nacional, o percentual das mulheres foi de 12% (652) e o de negros de 31% (1.747).

Ela acrescenta que uma questão ainda a ser respondida é o quanto esses grupos de renovação ajudam na eleição de pessoas que não conseguiriam assumir um mandato sem tal apoio, ponderando que os partidos também promovem formações e que esses grupos não detêm o monopólio dos eleitos que defendem inovação nos mandatos.

Em relação à representatividade, a diretora executiva do RenovaBR, Irina Bullara, afirma que 33 alunas se candidataram a prefeituras nessas eleições e que, para apoiá-las, foi criado um grupo só de mulheres com a participação de uma psicóloga. Ao longo da campanha, elas sofreram com o sexismo e, em alguns casos, ameaças de morte.

“Infelizmente, uma única foi eleita. A gente tem que olhar isso dentro de uma situação estrutural brasileira, mas ficamos felizes em ter um exemplo para mostrar que é possível chegar lá”, diz.

De família de políticos, como Fernando Lyra, ministro da Justiça no governo Sarney, Raquel conta que, após deixar dez anos no serviço público e ingressar na política em 2010 – como deputada estadual mulher mais votada –, agora enfrenta desafios por ser uma mulher jovem no meio.

Na avaliação de Mônica, para que o aumento da representatividade de candidaturas se reflita no de eleitos, é preciso uma mudança de olhar nos partidos, garantir recursos para as campanhas e, no caso das mulheres, uma rede de apoio. “O bonde da história está passando e é parte do trabalho dos partidos abraçar essa causa, que é de homens e mulheres e não só feminina”.

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Assuntos Eleições 2020, eleições municipais, RenovaBr
Cleber Oliveira 6 de dezembro de 2020
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