Governo elabora plano emergencial caso Maduro corte energia do Brasil

Hidrelétrica de Tucuruí: o Planalto tenta destravar a construção do linhão de Tucuruí para conectar Roraima ao SIN (Foto: Rui Faquini/ANA)
Por Ricardo Della Coletta, da Folhapress

BRASÍLIA – O governo Jair Bolsonaro (PSL) elaborou um plano emergencial caso a Venezuela corte totalmente o fornecimento de energia para Roraima, o único estado brasileiro que não está conectado ao SIN (Sistema Interligado Nacional).

O tema foi tratado pelo Ministério de Minas e Energia no 30 dia de janeiro, numa reunião entre o governador de Roraima, Antônio Denarium (PSL), o secretário de Energia Elétrica da pasta, Ricardo Cyrino, o diretor-geral da Aneel (Agência Nacional de Energia elétrica), André Pepitone, e os diretores da Roraima Energia, que faz a distribuição de eletricidade no Estado.O governo Bolsonaro trabalha com a hipótese  de uma interrupção integral da energia que chega ao Brasil proveniente da hidrelétrica de Guri, no estado venezuelano de Bolívar.

Quando a reunião foi convocada, o Ministério de Minas e Energia temia que o ditador Nicolás Maduro interrompesse o fornecimento de eletricidade em retaliação ao Brasil, que poucos dias antes reconheceu o líder opositor Juan Guaidó como presidente legítimo da Venezuela.

Ao fazer esse gesto, Bolsonaro rompeu basicamente todas as pontes com Maduro. Embora isolado internacionalmente e pressionado a deixar o poder, o líder chavista mantém a fidelidade do exército e controla o território do país.

No entanto, a avaliação entre pessoas envolvidas nas tratativas é que o risco de uma retaliação diminuiu nos últimos dias. Na opinião desses interlocutores, caso Maduro quisesse enviar uma mensagem política contra Bolsonaro, o corte na energia enviada de Guri já teria acontecido.

Apesar disso, o plano emergencial na hipótese de uma queda brusca de fornecimento continua pronto para ser ativado. Hoje, o governo considera que as ações emergenciais podem ser desencadeadas inclusive pelas constantes falhas técnicas registradas na linha que transporta a energia do estado de Bolívar para o Brasil.

Roraima é abastecida por eletricidade da Venezuela desde 2001. Com o agravamento da crise no país vizinho, a transmissão da eletricidade vem sofrendo com falta de manutenção, o que leva a constantes apagões em Boa Vista. Só no ano passado foram 83 cortes no fornecimento de energia que levaram a blecautes, segundo a Roraima Energia. Desde o início do ano, já foram registrados nove incidentes do tipo.

De acordo com o diretor de relações institucionais da Roraima Energia, Anselmo Santana Brasil, hoje Roraima opera com pouco mais da metade da sua energia originária da Venezuela. A proporção varia constantemente, de acordo com o nível de falhas apresentado pela energia venezuelana. Nesta semana, por exemplo, Boa Vista voltou a reduzir o uso de eletricidade de Guri entre 7h e 18h, quando a demanda é mais intensa. A estratégia foi utilizada para reduzir o risco de apagões.  

De acordo com Santana, as autoridades em Brasília perguntaram, na reunião do dia 30 de janeiro, qual era a capacidade da Roraima Energia caso o fornecimento de eletricidade venezuelana fosse interrompido, uma vez que a empresa também administra as usinas térmicas no estado que complementam a energia enviada do país vizinho.

“Fomos chamados pelo governo federal com a preocupação de uma saída definitiva da Venezuela [do fornecimento de energia]”, afirmou Anselmo à reportagem. “O governo está preocupado com o assunto. Conversamos todas as necessidades, para caso haja uma operação contínua do parque térmico no estado.”

O diretor diz que a empresa mantém um estoque de óleo diesel que pode suprir as necessidades de Boa Vista durante oito dias, a partir do momento em que a eletricidade da Venezuela deixe de chegar. Mas, nesse cenário de uso exclusivo das térmicas, a Roraima Energia precisaria de apoio do governo para fazer chegar a Boa Vista caminhões de Manaus com o combustível. Segundo Santana, a empresa calcula que seria necessário um fluxo de caminhões três vezes maior do que o atual.

Os diretores da empresa também disseram na reunião que, caso o plano emergencial seja ativado, o governo precisa garantir à companhia agilidade nos repasses da conta da Aneel que compensa as geradoras pelo uso intensivo de combustíveis fósseis.

Uma operação prolongada das térmicas também representaria um gasto bastante mais elevado, uma vez que a energia gerada por combustíveis tem um custo maior do que a de Guri, de matriz hidrelétrica.

Interlocutores no governo afirmaram que o Ministério de Minas e Energia sinalizou aos executivos que o Planalto, na hipótese de ativação do plano emergencial, atuará para fazer chegar o óleo diesel a Boa Vista.

No longo prazo, o governo Bolsonaro espera reduzir a dependência de Roraima com a energia venezuelana. O Planalto tenta destravar a construção do linhão de Tucuruí, para conectar o estado ao Sistema Interligado Nacional.

Embora a previsão inicial fosse para que o linhão começasse a ser construído em 2011, o projeto sofreu sucessivos atrasos em razão de uma contenda com os índios que vivem na terra Waimiri-Atroari. O trajeto da linha atravessa o território indígena.

O governo também quer realizar leilões para a geração de energia de diferentes matrizes para tentar aumentar a capacidade do parque instalado em Roraima. No entanto, interlocutores no governo avaliam que esses empreendimentos só estarão prontos para operar plenamente daqui a dois anos.

Procurado, o Ministério de Minas e Energia afirmou que o “governo está atento para o crescente aumento das interrupções por conta das falhas de natureza técnica, que tem provocado blecautes parciais em Boa Vista.”
“O governo tem tomado iniciativas de buscar soluções de caráter estrutural e conjuntural”, acrescentou a pasta.

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