
Da Agência Gov
BELÉM – O governo brasileiro inaugurou nesta quarta-feira (12), em Belém (PA), o Pavilhão do Balanço Ético Global (BEG), na Zona Azul da COP30. O espaço representa uma das etapas de conclusão da iniciativa, que integra os quatro círculos de liderança da conferência e busca engajar diferentes setores na construção de soluções éticas e colaborativas para enfrentar os desafios impostos pela mudança do clima.
Ao longo da COP30, o Pavilhão sediará 23 atividades, com a participação de 30 instituições e 60 painelistas. Durante a abertura, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, disse ser importante preservar o legado do BEG. “Nós queremos que essa casa continue nos abrigando, que o BEG continue como parte do processo de discussão e mobilização de todas as COPs porque a perspectiva da ética é o que vai fazer a diferença”, disse.
Marina Silva ressaltou a força da cooperação entre países e setores. “Se a gente juntar as nossas vantagens comparativas e, em vez de transformá-las em vantagem competitiva, a gente transformar em vantagem colaborativa, como nós fizemos aqui, todos nós vamos nos orgulhar da resposta que fomos capazes de dar para o maior desafio da humanidade, que é enfrentar a mudança do clima”.
“Dez anos após o Acordo de Paris, nós precisávamos disso. Precisamos devolver a ética a esse processo. E a realidade científica nos obriga a restabelecer um diálogo e um novo contrato com a população. Isso será um dos legados da COP30”, reforçou André Corrêa do Lago, presidente da COP30.
A primeira-dama Janja da Silva citou o protagonismo feminino na ação climática. “Tenho dito que somos nós, mulheres indígenas, quilombolas, ribeirinhas e pescadoras, que estamos na linha de frente. No entanto, ainda não ocupamos de forma efetiva os espaços de decisão e poder, especialmente no que diz respeito às decisões da COP e às políticas de enfrentamento às mudanças climáticas”.
Com a criação do BEG, segundo Selwin Hart, secretário-geral da ONU para Ação Climática e Transição Justa, a ministra Marina Silva e os colíderes dos seis continentes “garantiram que a justiça fosse colocada no centro da resposta à crise climática”. “Muitas vezes, quando estamos em salas de negociação, discutindo números e metas, esquecemos o verdadeiro motivo pelo qual estamos ali. E vocês nos lembraram disso, lembraram que este esforço existe para enfrentar uma crise que é, antes de tudo, ética”.
Com base na ética e na cultura, o BEG tem como propósito estimular uma reflexão profunda sobre o quanto o mundo já progrediu e o quanto ainda precisa agir para manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais, meta central do Acordo de Paris. A iniciativa, conduzida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em parceria com o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, é coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).
Inspirado no primeiro Balanço Global do Acordo de Paris, concluído na COP28, em Dubai, em 2023, o BEG segue o modelo que levou quase 200 países a firmarem compromissos para triplicar a capacidade de energias renováveis, dobrar a eficiência energética, frear o desmatamento e planejar uma transição justa, gradual e equilibrada para o fim do uso de combustíveis fósseis.
A iniciativa também fortalece o mutirão global convocado pela Presidência da COP30 para a implementação dos pactos climáticos firmados pelos países signatários do Acordo de Paris na última década, desde sua assinatura, em 2015.
“Nenhuma crise climática pode ignorar a dimensão ética. Quando falamos sobre clima, falamos sobre famílias que não têm o que comer, pessoas que perderam tudo em enchentes, vítimas de todo tipo de desastre. Falamos de histórias pessoais, de vidas reais. E jamais podemos esquecê-la”, disse Michele Bachelet, colíder do Diálogo Regional da América do Sul, América Central e Caribe.
Para Wanjira Mathai, diretora regional para a África no World Resources Institute, combater os desafios da mudança do clima não é uma negociação, é um fato. “Trata-se do que as pessoas querem. E, para nós, no Balanço Ético Africano, entramos com força e estamos prontos para defender tudo o que discutimos e acordamos. Esse foi um processo feito pelas pessoas e continuará sendo para as pessoas”.
Nos últimos meses, a iniciativa promoveu seis diálogos regionais em todos os continentes, reunindo líderes indígenas e comunitários, representantes políticos, religiosos, espirituais e da sociedade civil, além de cientistas, artistas e ativistas. O objetivo foi discutir os caminhos para uma verdadeira transformação ecológica, baseada não apenas em soluções técnicas, que já estão disponíveis, mas em um compromisso ético global para colocá-las em prática.
“A ética é o que mais precisamos. Ela não é uma ciência exata, mas a distinção entre o certo e o errado e as implicações disso para o nosso comportamento. O chamado feito por meio do Balanço Ético Global é algo profundamente poderoso”, complementou Karenna Gore, da diretora do Center for Earth Ethics.
Caminho percorrido até a COP 30
O percurso do BEG até a COP30 envolveu diálogos realizados em todos os continentes, com encontros em Londres, Bogotá, Nova Délhi, Adis Abeba e Sydney, reunindo lideranças políticas, sociais e espirituais.
Os debates, conduzidos por colíderes como Mary Robinson, Michelle Bachelet, Kailash Satyarthi, Wanjira Mathai, Anote Tong e Karenna Gore, resultaram em um conjunto de recomendações prioritárias para os chefes de Estado e negociadores da COP30, compiladas em um Relatório Global. O processo também inclui Diálogos Autogestionados, que ampliam o alcance local do BEG, um deles realizado no Vaticano, antes do encontro da ministra Marina Silva com o Papa Leão XIV, em Roma.
