
Por Marcelo Moreira, especial para o ATUAL
MANAUS – Com a “tempestade” de fumaça em outubro em Manaus, a gerente Kelcy Cruz, responsável por uma loja de roupas no Centro da capital, viu o movimento cair. “Posso relatar o baixo fluxo de clientes, inclusive no período festivo como o Dia das Crianças, devido o mal-estar gerado pela qualidade do ar muito ruim”, disse a comerciante.
Nessa loja, o faturamento caiu aproximadamente 50%, segundo a gerente. Além de afastar os clientes, as condições climáticas causaram problemas de saúde para quem saiu de casa para trabalhar.
“Isso teve um impacto na saúde dos trabalhadores: o aumento de síndromes respiratórias e o cansaço extremo gerado pelo calor e pela fumaça afetaram a disposição e a própria presença dos trabalhadores na empresa”, disse Kelcy Cruz.
Nos últimos dias, Manaus concentrou a pior qualidade do ar do Brasil. A fumaça das queimadas atinge a capital e municípios do interior do Amazonas desde o início de outubro, afetando a rotina de empresas, escolas, serviços públicos e comprometendo a renda de quem depende do movimento ao ar livre para trabalhar.

A pressão climática prejudica não apenas quem depende do movimento de consumidores, mas também o orçamento familiar, que passa a atender necessidades específicas, como a compra de medicamentos, atendimentos de saúde e compras por delivery. Ao mesmo tempo, o ar com qualidade ruim limita o acesso à remuneração de trabalhos presenciais.
“É a saúde em primeiro lugar. Então, há uma retração no consumo, até porque os informes dizem: ‘se puder, não saia de casa’. Se eu não saio, eu não consumo presencialmente, e se eu não consumo, a loja não vende, e, assim, o negócio não poderá gerar mais empregos”, disse a economista Denise Kassama.
Perdas econômicas
Para além da relação entre consumidor e comércio, a fumaça das queimadas atinge uma cadeia de impactos bem mais ampla, que envolve gastos públicos, produtividade no trabalho, educação, transporte aéreo e turismo.
O biólogo Rogério Fonseca, coordenador do programa de pós-graduação em Ciências Florestais e Ambientais da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), afirma que as prefeituras devem criar ações estratégicas junto aos governos estadual e federal para que seja possível calcular as perdas econômicas provocadas por eventos climáticos.
“O que a gente pode e deve fazer como sociedade é ter uma organização da governança em questões que estão relacionadas a problemas ambientais. As estruturas da defesa civil, meio ambiente, agricultura, fazenda, planejamento e segurança pública precisam trabalhar de forma integrada. Quando há sinergia entre essas estruturas, elas começam a trabalhar como um corpo e não como uma competição”, disse o biólogo.

O especialista defende a inclusão dos desastres naturais e ambientais na política econômica dos estados, como uma forma de considerar a relação entre economia e meio ambiente nas leis orçamentárias. Essa integração seria importante para enfrentar as mudanças climáticas não apenas como um fenômeno ambiental, mas como um reflexo da ação humana que gera efeitos em todos os setores da sociedade.
Rogério Fonseca cita impactos que seriam evitados se houvesse metodologia adequada para calcular as perdas econômicas. “Os prejuízos indiretos ficam completamente invisíveis. A fumaça das queimadas causa o aumento dos gastos com saúde pública. Isso está sendo mensurado? A fumaça também causa o efeito de redução da produtividade do trabalho e fechamento do transporte aéreo e fluvial, devido às más condições de visibilidade. Além disso, em Manaus, a gente vê a redução do turismo, a queda no comércio e os prejuízos na agricultura”.
Reação e planejamento
É fato que secas, cheias e incêndios florestais são esperados todos os anos, especialmente na região amazônica. Mas na última década, os eventos climáticos se intensificaram e alcançaram extremos, como as secas de 2023, 2024 e 2026. Por outro lado, os recordes de desmatamento e queimadas agravam a emissão de gases poluentes e, consequentemente, o aquecimento global. A natureza abalada responde com catástrofes e fenômenos em menor intervalo de tempo.
Prevendo os impactos das transformações climáticas, como secas e cheias severas, o avanço do El Niño e os estudos sobre a interferência das ações humanas na regularidade climática, a proposta da ciência é que os governos invistam em metas preventivas, como garantir a preservação de rios e florestas, ampliar áreas verdes e a relação entre meio ambiente e comunidade, aumentar a fiscalização e reestruturar as cidades com foco em educação ambiental.
“A gente tem que extinguir a cultura reativa, ou seja: se tem incêndio, apaga. Se tem seca, a gente distribui água, cesta básica e auxílio financeiro. Historicamente, a administração pública brasileira tem a sua estrutura para responder às emergências, mas não para gerenciar riscos a médio e a longo prazo. Se a gente não caminhar para uma cultura de planejamento preventivo, a gente vai continuar tomando as mesmas ações e querendo resultados diferentes”, disse Rogério Fonseca.

Fumaça
Pesquisadores afirmam que os incêndios na Amazônia são criminosos e que as ocorrências exigem adequada investigação. Quando a imensa nuvem de fumaça chega aos centros urbanos, a população vê apenas o indício de um problema ambiental que acelera as mudanças climáticas. A situação crítica deixa os estados em alerta e gera insegurança aos setores que sustentam a economia.
Para o comerciante Henrique Souza, que trabalha no ramo de cosméticos e alimentos no Centro de Manaus, tem sido um desafio encarar a crise climática. Nas últimas semanas, o empresário precisou liberar os funcionários mais cedo e buscar alternativas imediatamente, mas o prejuízo foi inevitável.
“A situação exigiu mudanças drásticas na nossa rotina. O impacto no Centro da cidade por conta da fumaça foi imediato e visível. O prejuízo financeiro acaba sendo inevitável porque os custos fixos continuam os mesmos, mas o faturamento despenca. Para tentar recuperar e não sofrer tanta perda, estamos reforçando o atendimento online, os serviços de entrega e buscando contato direto com a carteira de clientes para oferecer opções que não exijam que eles venham presencialmente até a loja”, disse o comerciante.
O presidente da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) de Manaus, Ralph Assayag, afirma que, apesar de não ter sentido a necessidade de paralisar o comércio durante os dias críticos de fumaça, acompanha a situação dos comerciantes e monitora os impactos dos incêndios florestais e da seca na economia.
“Nós não tivemos nenhuma solicitação, já sabendo que o governo estadual e a prefeitura estavam fazendo o trabalho de tentar evitar as queimadas com aviões. Nós estamos acompanhando [essa situação] muito de perto. A saúde dos funcionários, lógico, nos preocupou muito”, disse Ralph Assayag.
“A carga da mercadoria fica mais cara porque o rio seco para levar essa mercadoria para o interior fica muito difícil e muito mais caro. Isso, com certeza, afeta a economia e, por isso, nós temos feito de tudo, antecipando alguma coisa que for possível”, acrescentou o presidente da CDL Manaus.
Em nota, o governo do Amazonas informou que intensifica ações de apoio financeiro e alimentar a produtores rurais, empreendedores e famílias afetadas pela estiagem, mas não respondeu quais investimentos tem feito para dar assistência aos trabalhadores afetados pela fumaça e pelos incêndios florestais.
