
Do ATUAL, com colaboração de Milton Almeida
MANAUS – A redução da jornada 6×1 deve considerar as peculiaridades do trabalho no Brasil, como o baixo salário e os longos deslocamentos entre a empresa e a casa do trabalhador, para não gerar estímulo à atividade extra nos dias destinados à folga.
O alerta é de especialistas ouvidos pelo ATUAL. A proposta em análise na Câmara dos Deputados é para proporcionar mais tempo dedicado à família, ao lazer e à melhor saúde do trabalhador.
“Vamos imaginar, por exemplo, um homem e uma mulher que são os responsáveis financeiros da família. Suponhamos que eles ganhem dois mil reais por mês na escala seis por um. Com a redução da jornada aprovada, eles trabalhariam cinco dias. Muito bem. Mas a empresa fala para eles que os ganhos deles também vão ser afetados, ou seja, eles vão ganhar menos. Então, provavelmente, esse homem e essa mulher, os responsáveis financeiros da família, vão buscar outra fonte de complementação”, diz Danilo Victor Quinta, especialista em psicologia organizacional e do trabalho.
A médica do trabalho Ethel Trindade diz que antes de reduzir a jornada é necessário analisar cenários financeiros diversificados. A realidade europeia, por exemplo, é completamente diferente da brasileira.
“Estudos realizados em outros países que adotaram jornadas de trabalho reduzidas como Holanda e Bélgica mostram que em muitos casos, a produtividade dos trabalhadores se manteve ou até aumentou. Porém, essa não é uma realidade amplamente estudada e/ou aplicada em outros países fora da Europa”, revela.
Na questão da saúde, Ethel afirma que o fim da escala 6×1 melhora na qualidade de vida. “Em tese, reduz os estados de estresse e fadiga, visto que os trabalhadores irão dispor de mais tempo livre para si mesmos e suas famílias, repouso e lazer diversos, bem como para manter exercícios físicos regulares, alimentação balanceada e terapias complementares necessárias quando já são portadores de alguma doença crônica, como a fisioterapia, no caso das osteomusculares”, diz.
Mas jornada de trabalho não envolve apenas a atividade laboral em uma empresa. O deslocamento ao local de trabalho deve ser incluído no debate, pois mobilidade urbana precária também afeta a saúde do trabalhador.
Para o psicólogo Danilo Quinta, longos períodos no trânsito, ônibus lotados, atrasos são causas de estresse e aumento da pressão cardiológica. “Se tivéssemos políticas públicas mais eficientes para o trânsito, geraria efeitos positivos no humor e na qualidade de vida. Mas com a realidade que temos, não vai adiantar muito reduzir a escala de trabalho. O bem-estar dos trabalhadores e dos próprios colaboradores da empresa são fatores essenciais para a produtividade, mas devem ser vistos como pessoas e não como máquinas”, diz.
Outra questão que é debatida na diminuição da jornada é sobre a relação entre patrões e empregados no sentido de que com menos jornadas de trabalho haveria menos cobranças de tarefas.
“Uma das principais motivações para a inclusão dos fatores de risco psicossociais no PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos) pelos seus idealizadores foi o aumento exponencial do número de atestados médicos e, consequentemente, de afastamentos pelo INSS por motivos de saúde mental. Nesse contexto, o assédio moral ou, como são popularmente conhecidos, ‘as perseguições no ambiente de trabalho’ estão no topo das principais causas”, afirma Ethel Trindade.
“Cobranças realizadas de maneira mais empática, mais compassiva e menos agressiva, por parte das lideranças desses trabalhadores, teriam um grande impacto na saúde mental, reduzindo a quantidade de dias perdidos por ausências médicas por esse motivo”, diz acrescenta a médica.
O psicólogo Danilo Victor Quinta complementa: “A cobrança por resultados faz parte de qualquer ambiente de trabalho, mas os abusos devem ser evitados. A cultura organizacional vai valorizar o equilíbrio entre o bem-estar e a produtividade do trabalhador. As empresas que incentivam a saúde mental promovem um melhor ambiente de trabalho, têm melhores resultados. Trabalhadores menos exaustos, têm maior atenção e concentração, vai diminuir as ocorrências de riscos no trabalho, menos gastos com saúde e menos afastamento”.
Em fevereiro deste ano, a PEC 8/25 (Proposta de Emenda à Constituição), que acaba com a escala de trabalho 6×1, foi protocolada na Câmara dos Deputados pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP) e tem apoio da base do governo. O texto, que estabelece jornada de quatro dias por semana e três de descanso, recebeu apoio de 171 dos 513 deputados.
Atualmente, a Constituição estabelece que a jornada deve ser de até 8 horas diárias e até 44 horas semanais.
