
Do ATUAL
MANAUS – Potência ambiental mundial, o Brasil é referência em legislação, mas não em eficiência no aproveitamento econômico dos recursos naturais. A engenheira química e ambiental Priscilla Araújo afirma que o país vive um momento decisivo na agenda climática, mas embora reúna condições únicas para liderar a transição sustentável, ainda falta consolidar uma estrutura eficiente de governança, fiscalização e continuidade das políticas públicas.
“Hoje o Brasil vive um grande paradoxo: temos um potencial gigantesco para sermos referência mundial, mas ainda patinamos em questões básicas como fiscalização, investimento contínuo e, principalmente, gestão eficiente. O maior desafio não é técnico, é cultural e político. Falta visão estratégica de longo prazo, falta compromisso real e, muitas vezes, falta coragem de enfrentar interesses que atrasam o progresso”, explica.
No Brasil, a Política Nacional sobre Mudança do Clima (Lei nº 12.187/2009) estabelece diretrizes e metas para redução de impactos, mas especialistas alertam que o desafio maior está na execução prática dessas políticas. Entender os entraves estruturais e culturais que limitam o avanço das ações ambientais se torna fundamental para que o país avance de forma sólida e recupere protagonismo internacional.
De acordo com a especialista, mesmo diante desse cenário, existe clareza sobre quais caminhos precisam ser percorridos para acelerar a agenda ambiental no Brasil. “Falta continuidade nas políticas públicas, integração entre setores e uma visão de que clima é estratégia, não burocracia. Precisamos parar de tratar as questões ambientais como algo isolado, porque elas são parte direta do desenvolvimento nacional. O Brasil sabe o caminho, já tem conhecimento técnico e experiência acumulada. Agora precisamos acelerar a execução com planejamento, metas e responsabilidade”.
Segundo a engenheira, o setor empresarial desempenha papel fundamental na transformação ambiental do Brasil. “O segredo é tirar a sustentabilidade da ‘pasta bonita na gaveta’ e colocar no planejamento estratégico. Quando a empresa entende que reduzir emissões melhora eficiência, reduz custos e fortalece reputação, tudo muda. Não é só sobre atender a uma norma, é sobre inteligência de gestão, competitividade e preparação para o futuro. Sustentabilidade é resultado de processo, não de discurso, e quando entra na rotina, ela transforma a cultura interna”.
Para diferenciar iniciativas simbólicas de ações realmente efetivas, a especialista cita a importância da prática e da mensuração. “A iniciativa simbólica fala bonito. A eficácia mostra números, reduz impacto e transforma comportamento. É a diferença entre plantar uma árvore apenas para foto e criar um programa permanente de reflorestamento com monitoramento real. Iniciativa séria tem método, indicador, responsável e acompanhamento”.
COP30 na Amazônia
Com a COP30 na Amazônia, Priscilla avalia que o evento se tornou um marco para o Brasil no cenário climático global. Para ela, ver o mundo reunido na região é uma oportunidade única para mostrar capacidade técnica, inovação e a força do Norte como centro estratégico das discussões ambientais.
“A COP30 está sendo um divisor de águas para o Brasil. Este é o momento de mostrar o que já fazemos aqui na região Norte e que muita gente nem imagina. Quero ver compromissos reais, parcerias técnicas, cooperações e abertura para soluções que já existem, mas ainda não têm visibilidade. A Amazônia tem muito a ensinar, e este é o momento ideal para isso”, afirma a engenheira e CEO da Universo LP, que atua na implementação de sistemas de gestão ambiental.
Priscilla enaftiza que sustentabilidade deve ser vista como investimento, e não como despesa. “Sustentabilidade não é custo, é economia. Não é peso, é vantagem. Não é moda, é sobrevivência. Quem investir agora vai colher competitividade, inovação e mercado. Quem não investir vai ficar para trás, porque o mundo está avançando e não vai esperar”.
