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© 2022 Amazonas Atual
Política

Fala de Bolsonaro sobre desaparecido na ditadura causa repúdio até entre aliados

30 de julho de 2019 Política
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João Doria criticou o presidente Jair Bolsonaro (Foto: YouTube/Reprodução)
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Da Folhapress

BRASÍLIA-DF, SÃO PAULO-SP E RECIFE-PE – Uma declaração do presidente Jair Bolsonaro (PSL) sobre o pai do advogado Felipe Santa Cruz, chefe nacional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), causou repúdio entre opositores e até entre aliados.

O advogado é filho de Fernando Augusto Santa Cruz de Oliveira, desaparecido em fevereiro de 1974, após ter sido preso junto de um amigo chamado Eduardo Collier por agentes do DOI-Codi, órgão de repressão da ditadura militar (1964-1985), no Rio de Janeiro.

A declaração repercutiu mal mesmo entre políticos próximos a Bolsonaro, como o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que já se coloca como postulante ao Planalto em 2022 em eleição que o presidente também indicou que pretende disputar.

“É inaceitável que um presidente da República se manifeste da forma que se manifestou em relação ao pai do presidente da OAB, Felipe Santa Cruz. Foi uma declaração infeliz”, afirmou Doria, após ser questionado sobre o tema em evento no Palácio dos Bandeirantes nesta segunda. “Não posso silenciar diante desse fato. Eu sou filho de um deputado federal cassado pelo golpe de 1964 e vivi o exílio com meu pai, que perdeu quase tudo na vida em dez anos de exílio pela ditadura militar”, disse o governador tucano.

O PSDB também se manifestou contra a fala de Bolsonaro. “Uma declaração desrespeitosa, abusiva e lamentável. Um líder pode até fazer história, mas não tem o poder de reescrevê-la”, afirmou o partido em sua conta no Twitter.

O governador do Maranhão, Flávio Dino (PC do B), disse que “o terrível assassinato do pai de uma pessoa não deve servir de arma para politicagem”. “Essa é a criminosa declaração de Jair Bolsonaro contra a OAB e, especialmente, o seu presidente Felipe Santa Cruz, que teve a memória do pai covardemente atacada por esse facínora que usa, de forma indigna, a faixa presidencial. Não ficará impune”, afirmou o líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE).

Ao prestar solidariedade a Santa Cruz “diante dos insultos de Bolsonaro  memória de seu pai, vítima da ditadura”, o ex-presidente do Senado Renan Calheiros (MDB-AL) disse que o presidente da República “cada vez mais perde a noção do respeito, é inacreditável”. A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) vai pedir explicações a Bolsonaro sobre a declaração.

Segundo depoimentos do ex-analista do DOI-Codi, Marival Chaves, Fernando Santa Cruz foi assassinado, junto com outros ex-integrantes da organização de esquerda Ação Popular, numa operação executada por conhecidos militares da repressão, como o então coronel do Exército Paulo Malhães (1937-2014), que assumiu ter conhecimento de diversos atos de tortura e assassinato de opositores políticos.

“É muito grave essa declaração”, disse a presidente da comissão, a procuradora da República Eugênia Augusta Gonzaga. “Ele (Bolsonaro) está transformando um dever oficial, que é dar informações aos familiares, que ele já deveria ter cumprido, em uso político contra um crítico do seu governo”.

“É lamentável a declaração sob qualquer aspecto. Ele dizer que sabe e usar isso, é uma forma de reiterar a tortura dos familiares. E o mais grave, ele usa um golpe tão baixo contra uma pessoa que ele ataca politicamente”, afirmou Gonzaga.

Familiares de Fernando Santa Cruz vão à PGR (Procuradoria-Geral da República) pretendem representar contra Bolsonaro pela declaração. Irmão do desaparecido, Marcelo Santa Cruz afirmou que o presidente tem obrigação de dizer tudo o que sabe sobre o caso e apontar, inclusive, onde estão as ossadas. “É uma resposta que buscamos há 45 anos. Minha mãe passou a vida procurando o filho e terminou morrendo neste ano sem saber o que ocorreu. É mais um sofrimento que o presidente impõe à família”, diz.

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Assuntos ditadura militar, Felipe Santa Cruz, Jair Bolsonaro
Cleber Oliveira 30 de julho de 2019
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