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Dia a Dia

Estudo identifica poluição por remédios em amostras de rios de Manaus e riscos à saúde

17 de fevereiro de 2022 Dia a Dia
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Rio Madeira no Amazonas: estudo identifica poluição também por remédios (Foto: Lalo de Almeida/Folhapress)
Por Reinaldo José Lopes, da Folhapress

SÃO CARLOS – Um tipo menos visível de poluição tem se acumulado de forma preocupante nos rios e lagos do mundo todo: moléculas que os seres humanos usam com fins farmacêuticos ou recreativos, de antibióticos e anti-inflamatórios à nicotina dos cigarros.

O primeiro mapeamento mundial do problema, montado por uma equipe que inclui cientistas brasileiros, indica que os riscos trazidos por esses poluentes é particularmente alta em locais onde a rede de água e esgoto já é precária por outros motivos.

A presença dessas substâncias em ambientes naturais tem sido estudada de forma cada vez mais intensa nos últimos anos e, embora muitos de seus efeitos ainda não sejam bem compreendidos, já há indícios de que elas podem afetar o ciclo de vida e a saúde de peixes, anfíbios, aves aquáticas e micro-organismos.

“São moléculas biologicamente ativas, ou seja, desenhadas para a interagir com o nosso organismo em diversas vias metabólicas. Algumas delas podem estar presentes em outros organismos, tanto aquáticos quanto terrestres, e aí a preocupação aumenta”, diz Maria Tereza Pepe Razzolini, professora da Faculdade de Saúde Pública e coautora do levantamento.

A pesquisa, que acaba de sair na revista científica PNAS, foi coordenada por John Wilkinson, da Universidade de York, no Reino Unido, e levou em conta amostras de 1.052 localidades diferentes, espalhadas por 104 países.

As amostras brasileiras vieram de Manaus, de Americana (interior paulista) e do rio Pitimbu, nas vizinhanças de Natal (RN), conta Jean Leite Tavares, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte, que também assina o estudo.

Os pesquisadores montaram uma lista de 61 moléculas, formada principalmente por produtos farmacêuticos, mas que inclui também alguns de uso recreativo ou alimentar, como cafeína e nicotina.

Nas análises, descobriram que apenas dois locais – uma aldeia ianomâmi na Venezuela e a Islândia- não têm traços de nenhuma dessas substâncias. Por outro lado, em pouco mais de um quarto dos rios amostrados, a concentração de pelo menos uma das substâncias ficou acima do preconizado como seguro para seres vivos aquáticos.

O problema é mais agudo perto de metrópoles de países em desenvolvimento classificados como de renda média-baixa. Os campeões da lista são rios perto de Lahore, no Paquistão; La Paz, na Bolívia; e Adis Abeba, na Etiópia.

Segundo Razzolini, esses países sofrem mais agudamente com esse tipo de poluição porque, ao mesmo tempo, têm acesso relativamente fácil aos medicamentos mais usados, mas não contam com boa estrutura de saneamento básico e tratamento de esgoto.

Áreas urbanas do Brasil tendem a ficar mais ou menos no meio da lista –uma posição não muito confortável. “Isso não acontece com Manaus, onde a concentração é baixa por causa da grande vazão do Amazonas”, aponta Tavares.

“A situação de Americana também é melhor por causa da infraestrutura de saneamento básico do estado de São Paulo. Aqui no Rio Grande do Norte, que ficou entre os 60% dos lugares com mais presença de fármaco na água, essa infraestrutura é mais fraca e a vazão do rio também é bem menor”, explica ele.

Entre os fármacos detectados em rios de todos os continentes estão, além da cafeína e da nicotina, analgésicos, remédios para doenças cardíacas, antidepressivos, medicamentos contra diabetes, anti-inflamatórios e antibióticos.

Muitos deles podem ter efeitos perigosos sobre outras espécies. Os que afetam o sistema nervoso humano podem alterar o comportamento dos animais, por exemplo, enquanto antibióticos podem acabar levando à seleção de bactérias resistentes a eles, problema que já preocupa hospitais mundo afora.

Também há preocupação com os efeitos endócrinos, que podem até alterar o desenvolvimento sexual de peixes e anfíbios. Tudo isso pode trazer consequências negativas para a saúde daqueles ambientes, como a qualidade da água, e afetar ainda as pessoas que consumirem esses animais.

Além de investir no tratamento de esgoto, de preferência com técnicas mais avançadas, o problema pode ser minimizado com medidas como a restauração da mata ciliar, que protege as margens dos rios e ajuda na purificação da água.

Além disso, diz Tavares, em 2020 o Brasil criou uma legislação que favorece a logística reversa de fármacos. Ou seja, medicamentos vencidos, em vez de serem simplesmente descartados, poderiam voltar ao fabricante usando as farmácias como intermediários.

“A questão é como implementar isso, o que ainda não está claro em termos de custos e responsabilidades, mas é um caminho”, aponta ele.

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Assuntos manchete, poluição ambiental, remédios
Murilo Rodrigues 17 de fevereiro de 2022
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