Essa tal corrupção

Corrupção, do latim corruptio ou corruptione, referindo-se ao ato de decompor, deteriorar, degenerar, “quebrar aos pedaços”, não é um processo de simples entendimento ou decifração. A corrupção pode assumir distintas facetas, inclusive como espécie de viciamento humano. Algo muito frequente e constatável em nossa sociedade.

A corrupção não pode ser entendida como se fosse algo fixo, tal como uma fotografia imutável, como se a história e o processo social não admitissem mudanças. O processo cultural é dinâmico, a história e formação do povo brasileiro, assim como os demais, estão envoltas em constantes transformações. Por essa razão, a corrupção não é algo endêmico do país, algo definitivo nem genético, muito menos um modo de ser do povo. A corrupção é algo que, tal como se formou, pode ser combatido, em todas as suas formas de manifestação e em todas as esferas, instituições e poderes públicos. Requer a dinamização da cultura na direção do amadurecimento ético, das práticas sociais, dos valores coletivos, das instituições formais, dos hábitos e dos costumes.

Considerados esses aspectos, pode-se entender a corrupção como um tipo de vício comportamental, influenciado por aspectos simbólicos, institucionais, culturais ou contextuais que impactam nocivamente a formação ética e psicossocial de indivíduo e de grupos, considerando regras, costumes e valores da sociedade no qual estão inseridos.

A corrupção pode impactar a vida de alguns, de muitos ou mesmo de todos, em especial quando os viciados em corrupção estão à frente de instituições e organizações que dirigem a coletividade, controlando poderes, governos, repartições, enfim, a máquina estatal que deveria opera em prol do público. As condutas corrompidas e corruptoras produzem efeitos extremamente danosos à vida dos indivíduos e das sociedades. O vício em corrupção é o típico “poço sem fundo”: são praticamente inesgotáveis os delírios de prazer, de poder, de ostentação, de acumulação, de consumismo, de vantagens indevidas ou de qualquer outro objeto que retroalimenta ciclicamente esse tipo de viciamento.

O viciado em corrupção, tal como ocorre com outros vícios, procura distintas razões para justificar o vício. São razões genéticas, culturais, históricas, ideológicas, psicológicas, cognitivas, dentre outras tentativas de desculpar a própria consciência e a conduta viciada. A mais comum continua sendo dizer que todos fazem ou fariam o mesmo se estivessem na mesma posição, ou seja, nivelar a todos ao seu baixo patamar para encontrar um pretexto que legitime o vício da corrupção. Tenta-se assim passar a ideia de que se está isento de toda e qualquer responsabilidade pela sua viciosa conduta.

O viciado em corrupção quase sempre se convence de que as “vantagens” obtidas com o vício, as quais são apresentadas como atrativas, compensam tudo (fraude, violência, abusos, injustiças), sendo ainda frutos da singular “inteligência” ou “ego superior” do corrupto. Procura assim legitimar e justificar tais condutas criminosas, tentando iludir o próprio discernimento. Por isso muitos acabam incorporando uma maneira bipolar de ser.

Dificilmente o viciado em corrupção admite posicionamentos ou opiniões diferentes. Sente-se dono da razão, senhor da verdade, imune a equívocos. Raramente consegue, de fato, escutar alguém. Quase sempre se toma por mais inteligente e mais importante que as demais pessoas. Aliena-se da própria realidade.

Quando afeta a coisa pública, a dimensão do estrago pode ser muito maior e mais profunda. Não é raro haver certas promiscuidades entre os negócios públicos e privados. Ainda mais quando se admite legalmente certas condutas e burocracias que favorecem aos viciados em corrupção. Afirma o filósofo iluminista Montesquieu que “a corrupção dos governantes quase sempre começa com a corrupção dos seus princípios.” Daí em diante nada é tão ruim que não possa ficar ainda pior.

As ilusões do viciamento afetam a cognição, a autonomia da vontade e a lucidez não apenas dos viciados, mas de todos aqueles que eles manipulam ou mantém em engano, em erro ou em crônica dependência. Além disso, as conseqüências sociais, éticas, civis e criminais recaem sobre todos os que participam do processo que deflagram condutas ilícitas. Não é por acaso que o vício da corrupção está ligado à violência e à criminalidade.

O viciado em corrupção deturpa, estraga, eiva de erro, de maledicência e de danos qualquer procedimentos ou relação com vistas a obter vantagens indevidas. É a auto-afirmação por meio do desvio patológico. O viciado em corrupção procura cooptar outros para a prática da fraude, de ilícito, de abusos e qualquer outro ato que viole regras, processos e procedimentos lícitos, por vezes formando quadrilhas e organizações criminosas.

Indivíduos e grupos portadores desses vícios julgam-se acima das leis e produzem estragos em todas as esferas (pessoal, familiar, comunitária, coletiva, social, política, econômica, cultural, religiosa, profissional), principalmente quando associados a outros vícios, em especial o viciamento químico, o consumismo e outras formas viciadas. Nesse sentido, podem conduzir a sociedade a regimes narcopolíticos, plutocratas e cleptocratas.

É regra dos viciados em corrupção tentar impor a terceiros a responsabilidade pelas condutas indevidas que praticam na busca de obter as vantagens ilícitas. Costumam conhecer a regra para violá-la, encontrar brechas nas leis para desviar-se dos efeitos delas, e exercer abusivamente o poder apenas em proveito próprio. Desenvolvem comportamento patológico em relação às normas institucionais e as regras de convivência social. Apegam-se a padrões antiéticos e tomam por referência o agir de outros viciados, inclusive no permanente empenho de justificar o próprio vício.

Estudar o vício em corrupção, compreender os processos e vias pelas quais se dissemina e reinventa, é essencial para tentar combater e evitar a reprodução desse tipo de cultura de viciamento humano e social, cujos transtornos, danos e prejuízos são impactantes a toda a sociedade.  De fato, não é nada fácil lidar com essa tal corrupção.

1 Comentário on "Essa tal corrupção"

  1. Carlos Alberto Marques de Almeida - Escrivao aposentado | 9 de dezembro de 2018 de 09:22 | Responder

    Mestre o senhor estah nessa mensagem ensinando a todos que quizerem estirpar a Corrupao ajudar o nosso Pais a mudar e fazer com que aqueles que soh denigrem a imagem do Brasil, tome outro caminho. Obrigado pela mensagem

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