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Economia

Empresários relatam dificuldade para pagar o 13º salário na pandemia

11 de novembro de 2020 Economia
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Para receber o auxílio, a renda familiar deve ser de até R$ 522,50 por pessoa ou de até três salários mínimos (Foto: Marcello Casal/Agência Brasil)
Empresários relatam dificuldade para pagar o 13º salário neste ano (Foto: Marcello Casal/Agência Brasil)
Da Folhapress

SÃO PAULO – A crise econômica deflagrada pela pandemia do novo coronavírus agora é uma ameaça para o pagamento do 13º, especialmente entre pequenas e médias empresas.

Pesquisa já contabiliza o tamanho do problema em São Paulo. Entre as pequenas e médias indústrias do estado, 6 em cada 10 projetam que terão dificuldades com o pagamento do 13º salário de seus funcionários, e, na comparação com o ano passado, mais da metade diz que a situação está mais complicada agora.

Entidades de outros setores, que não chegaram a fazer sondagem sobre o tema, recebem relatos de pequenos negócios com o mesmo problema.

Segundo boletim de tendências do Simpi (Sindicato da Micro e Pequena Indústria do Estado de São Paulo), elaborado pelo Datafolha para monitorar os impactos da pandemia sobre os negócios, 24% dos empresários desse segmento declaram que será muito difícil pagar o abono de Natal.

O índice chega a 30% entre as pequenas indústrias e é de 33% na região metropolitana de São Paulo. Em relação ao fim de 2019, somente 11% disseram estar agora em situação melhor quanto às condições para o pagamento do abono. Para 36%, segue tudo igual.

Para o presidente do Simpi, Joseph Couri, a chegada ao fim de ano com problemas de caixa para pagar uma despesa previsível, como é o 13º salário, é resultado de uma combinação de fatores próprios dos desequilíbrios acentuados pela pandemia.

“Primeiro, temos falta de dinheiro mesmo, pois o nível de acesso a crédito está muito baixo. Segundo, muitas empresas, sejam fornecedores ou clientes, faliram, fecharam ou estão em crise grave, o que resultou em uma quebra na cadeia de produção”, diz Couri. Entidades que representam empresas menores têm recebido relatos sobre dificuldades para fechar as contas de final de ano.

“A percepção é que muita gente vai ter dificuldade”, diz Tito Bessa Júnior, presidente da Ablos (Associação Brasileira de Lojistas Satélites), que reúne pequenos lojistas.

A esperança, diz ele, é que as medidas que suspenderam jornada e salário e, por conseguinte, reduzem a despesa com o 13º possa dar alívio para alguns.

“Os lojistas estão em dificuldades financeiras, foram muitos meses fechados, tem gente com dificuldade até para pagar salário – a engrenagem quebrou”, diz Aldo Macri, presidente do Sindlojas (Sindicato de Lojistas do Comércio de São Paulo), que representa 30 mil lojista, especialmente do ramo de vestuário.

Segundo Percival Maricato, presidente da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), pagar o 13º é um dos tantos problemas que os empresários do setor quebram a cabeça para resolver. “Os empresários dizem que vão ter dificuldades para pagar não apenas o 13º mas todas as contas”, diz Maricato.

“Mais da metade dos estabelecimentos não fatura nem 40% do resultado pré-pandemia, e donos dos locais, que concederam desconto, agora pressionam para voltar o valor do original do aluguel”. Segundo a entidade, há 1 milhão de bares e restaurantes no país.

São duas as leis que tratam do 13º – uma cria a gratificação natalina, e a outra define regras para o pagamento. Essa última prevê que que a data-limite é sempre o dia 20 de dezembro. Entre fevereiro e novembro, o empregador pode antecipar os valores.

Quem percebeu o problema lá atrás tentou contorná-lo antecipando a despesa, por exemplo. Uma forjaria da Mooca, na zona leste da capital paulista, decidiu pela antecipação do pagamento do abono, para evitar que a despesa ficasse concentrada nos meses de novembro ou dezembro.

“No começo (da pandemia) ficou claro que não seria uma coisa que passaria tão rápido, e vimos que não íamos conseguir se deixássemos para o fim do ano”, diz Humberto

Gonçalves, sócio da TecStam, fábrica de parafusos, porcas e outros elementos de fixação. “A ideia foi bem-aceita pelo pessoal da fábrica, então começamos a pagar em julho”. Segundo o empresário, obras de infraestrutura garantiram que a forjaria mantivesse bom ritmo de trabalho, evitando demissões.

O professor de direito do trabalho da FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas) Ricardo Calcini diz que o parcelamento do abono é possível, mas não é obrigatório. Pode, por exemplo, ser previsto em acordo coletivo e, segundo ele, é comum em prédios e condomínios.

O atraso nesse pagamento, por outro lado, pode colocar a empresa em situação mais delicada, pois configura falta grave ante a legislação trabalhista. O funcionário pode pedir rescisão indireta do contrato e cobrar indenização, por exemplo.

Entre as micro e pequenas indústrias de São Paulo, 25% declararam na pesquisa que veem o risco de atrasar esse pagamento. O percentual chega a 30% entre a menores. Segundo o Simpi, são 290 mil micro e pequenas indústrias no estado de São Paulo, que empregam cerca de 1,9 milhão de pessoas.

O boletim do Simpi vem monitorando semanalmente pequenas e microindústrias no estado de São Paulo. Na semana encerrada em 30 de outubro, 38% disseram que o capital de giro estava insuficiente. Um pouco mais da metade (53%) afirmou que o caixa estava empatando –tinha exatamente o necessário para manter o negócio.

“Quase 80% das empresas não têm acesso a crédito. Como então elas sobreviveram? Usando o cheque especial como capital de giro”, diz o presidente do sindicato do setor.

Segundo a pesquisa, 27% das indústrias usaram cheque especial em setembro para honrar compromissos. Na região metropolitana de São Paulo, o índice chegou a 34%.

O presidente do Simpi lembra ainda que a indústria vem sofrendo com alto custo (87% das empresas), atraso (68%) e falta (70%) de matéria-prima nos fornecedores.

O desarranjo das cadeias produtivas agrava o cenário financeiro. O comércio de acessórios automotivos de Cleber Oliveira Messias é uma demonstração disso. “O mercado até reagiu, mas agora estamos com problema com matéria-prima. Quem tem matéria-prima não tem quem produza. Poderia ser o melhor mês, mas não vai chegar”, diz.

Para garantir capital de giro e o dinheiro necessário ao 13º dos oito funcionários, Messias tomou há alguns meses um empréstimo com a Desenvolve SP, a agência de desenvolvimento ligada ao governo de São Paulo.

“Nossa cultura é a de todo mês separar um valor para o 13º, mas, com a pandemia, não teve outro jeito, pegamos o empréstimo”, afirma o empresário. “A pessoa não vai deixar de comer para comprar um acessório para o carro durante a pandemia”.

O Sebrae-SP não monitora a situação econômica das empresas que atende, mas o consultor Felipe Chiconato diz que a orientação é que 1/12 do valor do 13º seja incluído como custo mensal.

“Neste ano, com a economia conturbada, vai ser ainda mais difícil para quem não fez o provisionamento. As empresas estão sentindo a pressão de faturar o dobro para a conta fechar”.

Para ele, que atua orientando a estratégia dos empreendedores, um empréstimo pode até ser uma solução para quem está apertado, mas faz um alerta: “O empresário vai ganhar tempo, mas, se não mudar a maneira como toca o negócio, só acabará com uma dívida a mais”.

No Bradesco, cresceu a busca pela linha “capital de giro 13º”. A demanda já e 19% maior, em valores, do que a registrada em 2019. Segundo o banco, essa opção financia a folha de pagamento e outras despesas de fim de ano, como cobertura de gastos com temporários e gratificações.

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Assuntos 13º salário, empresários, salários
Redação 11 de novembro de 2020
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