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Dia a Dia

Educação é negligenciada na política e dados expõem atraso na Amazônia

10 de outubro de 2026 Dia a Dia
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Jovens têm dificuldade com a matemática desde o ensino básico, mostra estudo (Imagem ilustrativa gerada por IA/Meta)
Na Amazônia, jovens concluem o ensino médio sem aprendizado adequado em matemática (Imagem meramente ilustrativa gerada por IA/Meta)
Por Marcelo Moreira, especial para o ATUAL 

MANAUS – Indicadores que mensuram a educação no Brasil revelam o longo caminho que ainda será necessário percorrer para alcançar o aprendizado e a estrutura adequados nas escolas públicas da Amazônia. Mesmo com avanços nos últimos anos, a região apresenta resultados de aprendizagem abaixo da média nacional.

Conforme os dados do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) de 2025, no ensino médio, o Amazonas, por exemplo, obteve indicador de 3,8, o mesmo que Roraima para aquele ano. Esses estados obtiveram o pior desempenho na Região Norte, sendo 4,5 a média no Brasil. 

O Anuário Brasileiro de Educação mostra que, também no ensino médio, só 4,7% dos estudantes amazonenses têm aprendizagem adequada em matemática. A defasagem nessa disciplina alcança todos os nove estados amazônicos, pois em nenhum deles a quantidade de alunos com aprendizagem adequada chegou a 10%, diferentemente da realidade em estados com mais estrutura e investimentos. 

A educação foi tratada de forma genérica por candidatos a governador nas Eleições 2026, sem metas concretas. Enquanto uns reconheciam algumas necessidades, outros deixaram de abordar ou abordaram pouco o tema. As propostas se rezumiram a valorizar os professores, mas sem especificar como será essa valorização.

É rara a inclusão da educação indígena no debate, e o uso de inteligência artificial nas escolas foi citado apenas em teoria. Saúde mental e combate a violência ficam de fora da discussão. Em contrapartida, a promessa mais comum foi a de construção de centenas de escolas cívico-militares. 

Aula sobre educação financeira: avanço tímido em assunto complexo (Foto: Divulgação)

Déficit de aprendizagem

O coordenador de políticas educacionais da Organização Todos Pela Educação, Pedro Rodrigues, explica que, nos estados amazônicos, o acesso e a permanência na trajetória educacional apresentaram melhora nos últimos anos, mas que o desafio tem sido garantir um espaço de trocas efetivas de conhecimento e ensino de qualidade. 

“A gente tem dados que chocam bastante. No estado do Amazonas, por exemplo, só 2% dos alunos estão concluindo o ensino médio com aprendizagem adequada em português e matemática. Os alunos não estão aprendendo da forma como deveriam. A gente sabe que a Região Norte do país enfrenta desafios, principalmente de custos”, disse Pedro. 

As características estruturais nas zonas urbana e rural interferem nas condições oferecidas aos estudantes. De acordo com o Anuário, em 2025, somente 9,3% das escolas públicas do Norte estavam conectadas à rede pública de esgoto e 18,3% tinham tratamento de lixo ou resíduos. Especialistas reforçam a necessidade de políticas adaptadas às adversidades amazônicas, onde fatores como comunicação, transporte e condições humanitárias próprias da cultura local são determinantes na trajetória educacional dos jovens. 

O professor Gersem Baniwa, do departamento de Antropologia da UnB (Universidade de Brasília), afirma que a educação na região amazônica exige mais investimentos e olhar prioritário por parte do poder público. “Eu sempre escuto dos gestores que a educação não é prioridade porque a educação não maltrata e não mata, como é o caso da saúde. Há uma compreensão equivocada de que a educação não é prioridade diante de outras questões”, disse. 

“Pouca gente tem consciência e clareza de que a educação não é despesa, é investimento, e que a educação é uma condição para o desenvolvimento digno, igualitário e sustentável de qualquer país, estado ou município. Mas isso não tem força na consciência dos gestores”, acrescentou Gersem. 

Analfabetismo ainda é significativo, inclusive entre adultos (Foto: Geovana Albuquerque/Agência Brasília)

Analfabetismo

Essa falta de prioridade também aparece em um dos problemas históricos da educação: o analfabetismo. No Acre, por exemplo, 9,4% das pessoas com 15 anos ou mais não sabiam ler e escrever em 2024, segundo a PNAD Contínua do IBGE. O índice era superior à média nacional, de 5,3%, e mostra que o desafio não está apenas em garantir que crianças sejam alfabetizadas, mas também em ampliar o acesso à educação para quem ficou para trás.

“Essa é uma preocupação que, de fato, precisa ser observada por qualquer governante. Afinal, são pessoas que ficam excluídas das políticas ofertadas pelo governo. O enfrentamento ao analfabetismo, especialmente na área rural, é fundamental, porque só assim a nossa população vai sair dessa zona que nos deixa em uma situação constrangedora e acaba não criando uma intervenção que possibilite um capital humano, seja com mão de obra qualificada, seja como pessoas efetivamente emancipadas”, disse o professor Pelegrino Verçosa, que estuda políticas educacionais na Ufac (Universidade Federal do Acre), ao falar sobre a importância de investimentos na EJA (Educação de Jovens e Adultos). 

No estado, também é relatada a dificuldade no ensino médio e com a alfabetização adequada. Em 2025, 32% das crianças acreanas do segundo ano do ensino fundamental ainda não estavam alfabetizadas.

 “No ensino médio, tem uma evasão muito grande e taxa de reprovação. São alunos que deveriam estar no ensino médio e não estão e ficam a mercê das desigualdades sociais. Os fenômenos da evasão são muitos, como a necessidade de trabalho, gravidez e falta de escola nos territórios mais distantes”, disse Pelegrino. 

Políticos prometem valorizar o professor, mas não expkicam como (Foto: Divulgação/Seduc)

Formação de professores

A formação inicial e continuada dos professores aparece como um dos caminhos para melhorar os indicadores educacionais. Mas essa também não é uma prioridade política. Analistas afirmam que pensar nos professores é estabelecer um planejamento de longo prazo. 

“O desenvolvimento dos profissionais também não deve estar dissociado das melhorias de sua condição de trabalho. Deve haver investimento, planejamento, organização e continuidade. A formação tem que vir acompanhada de valorização e boas condições de trabalho”, disse disse a professora Yoli Serrão, da Faculdade de Educação da Ufam.

“A gente tem que ter em mente que a educação precisa ser uma carreira atraente para os jovens. Então, não tem como separar a formação das condições mais dignas de trabalho. É necessário que o professor veja sentido e valorização no que faz”, acrescenta Yoli Serrão.

 Consequências e soluções

As falhas na educação causam déficits na formação básica e criam barreiras para a entrada no ensino superior. Também geram o desinteresse pela escola e pelo mercado de trabalho profissional formal. Por isso, os professores defendem que os investimentos sejam destinados, principalmente, à ampliação da educação integral e do ensino técnico, métodos que têm alcançado resultados satisfatórios em outras regiões do país. Com medidas como essas, seria necessário reforçar as estruturas física e humana da comunidade escolar.

“Temos alguns exemplos: Pernambuco adotou o modelo integral e teve bons resultados. A gente tem o Espírito Santo como o grande exemplo no ensino médio e conseguiu obter ótimos resultados com a educação integral. Em São Paulo, a gente tem o exemplo das creches em tempo integral. A educação integral como proposta ainda carece de evidências”, disse Pedro Rodrigues, do Todos Pela Educação. 

Na Amazônia Legal, a oferta de educação em tempo integral apresenta diferenças importantes entre os estados. Em 2025, o percentual de matrículas nesse modelo nos iniciais do ensino fundamental variava de 4,3% em Rondônia a 44,3% no Tocantins. Maranhão também aparece com uma parcela elevada, de 39,1%, enquanto Amazonas tinha 13,5%, Pará 15,6%, Acre 14,8% e Amapá 10%. Em Mato Grosso e Roraima, os índices eram ainda menores: 7,8% e 6,6%, respectivamente.

colegio militar
Alunos de colégio da Polícia Militar: modelo de educação ainda não provou ser eficiente (Foto: Divulgação/Seduc-AM)

Militarização 

Em estados como Mato Grosso e Acre, candidatos a governador defenderam a escolas cívico-militares. É por este método que os políticos tentam promover o que chamam de “educação cidadã”, mas para o analista Pedro Rodrigues, ainda não há evidências que confirmem a eficácia desse modelo de ensino na qualidade da aprendizagem. 

“As escolas cívico-militares fazem parte de uma política nova que alguns estados vêm adotando e que não têm evidências robustas de qualidade de aprendizagem e que tem um custo superior ao das demais escolas. É custo com policiais que fazem a supervisão [da escola]. A gente entende que o real investimento deve ser feito nos professores mesmo. Todas as evidências nos mostram que os principais fatores de aprendizagem são os professores”, disse Pedro Rodrigues. 

“Não basta construir escolas” 

A construção de mais escolas é promessa comum na política. Os especialistas consultados pela reportagem reconhecem a importância de novas estruturas, especialmente onde ainda carece de espaços adequados para a aprendizagem, mas afirmam que a melhoria na educação não depende apenas da estrutura. Deve partir, principalmente, de políticas que garantam o envolvimento da comunidade e resultados efetivos na vida das pessoas. 

“Não se resolve a educação com a construção de prédios, mas claro que a estrutura é importante. A prioridade deve ser a criação de um projeto que seja democrático e participativo. É preciso investimento, é preciso um projeto comprometido com a educação Integral, uma educação que garanta que nos tornemos plenamente humanos e capazes de desenvolver nossas potencialidades, gerar riquezas, desenvolver o senso crítico, inovar, articulares saberes, construir conhecimentos, estabelecer relações, desenvolver a ética para com o mundo, a natureza, os diferentes povos”, disse Yoli Serrão. 

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Assuntos Amazônia, analfabetismo, aprendizado, educação, ensino público, manchete, Matemática, português
Cleber Oliveira 10 de outubro de 2026
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