Nas duas últimas décadas o Brasil tem vivido uma crescente polarização política, de um lado o Partido dos Trabalhadores (PT) e do outro o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). A cada eleição os dois lados ganham novos adeptos e disputam palmo a palmo os votos do eleitorado. Quando as disputas aos cargos majoritários chegam ao segundo turno, o tom dos discursos se eleva e a concorrência se torna ainda mais acirrada.
O interessante é que após a divulgação do resultado das eleições, o clima pesado é substituído por dois sentimentos antagônicos: a euforia de quem venceu e a frustração de quem foi derrotado. Contudo, após o primeiro mês esses sentimentos ficam para trás, dando vez à normalidade da vida. O assunto acaba esquecido dentre outros temas mais atuais que vão surgindo. Tudo tranquilo, pelo menos até que cheguem as eleições seguintes.
Observa-se, no entanto, que a corrida presidencial de 2014 foi diferente de todas as anteriores: PT e PSDB protagonizaram a campanha eleitoral mais suja da história deste país, a vida pública e privada de cada um dos candidatos foi exposta da maneira mais leviana e mesquinha possível. A cada programa eleitoral exibido era possível se perceber a temperatura subindo e os ânimos ficando cada vez mais exaltados. Os debates promovidos serviram mais como um espaço para troca de acusações que para apresentação de propostas para o país.
A parte pior de tudo isso foi que o eleitorado foi arrastado para um comportamento semelhante, independentemente da condição social, do grau de instrução, da religião ou do sexo dos eleitores, as pessoas passaram a ofender umas às outras nas redes sociais, a bloquearem perfis de amigos, a deixarem de seguir ídolos, pararam de falar com amigos, colegas de trabalho e até familiares. O clima tenso teve seu ponto máximo no dia da votação do segundo turno, mais precisamente após a divulgação do resultado das eleições que apontou a vitória da presidente Dilma por uma leve diferença de votos.
Desde lá respiramos um ar pesado, que nos dá a impressão de que até hoje aquele resultado não foi aceito pelo lado derrotado, assim como não foi devidamente interpretado pelo lado vitorioso. Naquele momento ficou demonstrado através do percentual de votos que cada candidato teve, que o país estava dividido, praticamente rachado ao meio. Esperou-se, como de costume, que após o primeiro mês tudo estivesse superado, mas isso não ocorreu. Pelo contrário, os ânimos se elevaram ainda mais, persistindo a troca de acusações no lugar da apresentação de propostas.
A população novamente assumiu o mesmo comportamento, dando vez a posturas intolerantes, completamente avessas ao diálogo e incapazes de ouvir qualquer argumento que não seja o daqueles que compartilham do mesmo posicionamento político. Uma relação visceral que já tem resultado em agressões verbais, e até mesmo físicas. Chegou-se ao absurdo de não se tolerar o uso de roupas de uma certa cor por isso parecer sinal de referência a um partido político específico. E, mais uma vez, entrou-se na onda de se desfazer amizades.
A origem deste comportamento pode ser explicada justamente pela ausência de debates em nossa vida social, seja na escola, na família, no trabalho ou na vida pessoal. O hábito de motivar a exposição das ideias e, principalmente, a audição atenta de argumentos contrários, não é algo comum de se ver no processo de ensino-aprendizagem, por exemplo. É muito comum que professores percam rapidamente a paciência ao serem questionados por seus alunos, assim como patrões ao serem questionados por seus subordinados, da mesma forma homens e mulheres por seus cônjuges. Em muitas famílias também é comum vermos pais que dizem ter um bom diálogo com os filhos, mas que na verdade mais falam que ouvem.
Neste sentido, a escola pode ser um lugar privilegiado para o desenvolvimento de competências não cognitivas como as que são necessárias para um saudável debate. A pluralidade existente no ambiente escolar pode ser fundamental, por exemplo, para a comprovação de algo muito importante na vida: a de que nunca existem somente dois pontos de vistas sobre algo, há sempre a possibilidade de se lançar um terceiro, quarto, quinto… olhar. Outro ponto relevante que pode ser trabalhado com os alunos, é o de saber ouvir atentamente argumentos contrários, não os menosprezando, mas tentando enxergar neles o seu fundamento e talvez até a sua relevância para a discussão em curso.
Talvez assim, acostumando nossos jovens a momentos de troca como esses, tenhamos daqui a algum tempo adultos maduros que entendam que debates não são finais de campeonatos de futebol, ou seja, não precisam ser vencidos por um lado ou pelo outro. A grande riqueza destes momentos está no exercício da capacidade de argumentação e na construção saudável de valores que se dá nesse processo dialético.
