
Do ATUAL
MANAUS – O avanço do desmatamento na Amazônia gera risco à economia do Brasil, segundo o estudo “Quando a Fonte Seca: As Ameaças do Desmatamento da Amazônia para a Economia Brasileira”, elaborado pelo Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio) em parceria com o projeto Amazônia 2030.
Segundo o relatório, publicado no dia 10 deste mês, a perda de floresta compromete o ciclo das chuvas que sustenta a geração de energia, a agropecuária, o abastecimento urbano e o transporte hidroviário — setores responsáveis por parcela significativa do PIB nacional.
“O desmatamento da Amazônia, além de acarretar profundos impactos ambientais, climáticos e de perda de biodiversidade, é uma ameaça à economia brasileira”, afirma o relatório. Para o CPI/PUC-Rio, “a proteção da Floresta Amazônica precisa ser estrategicamente encarada como prioridade nacional”.
A floresta que faz chover
O estudo explica que a Amazônia atua como uma grande usina de umidade. A floresta libera para a atmosfera a água que recebe da chuva, processo que alimenta os chamados rios voadores — correntes de ar úmidas que percorrem o território brasileiro de norte a sul. Esses fluxos seguem do Atlântico, atravessam a Amazônia e são desviados pelos Andes, espalhando chuvas sobre o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país.
Segundo o estudo, quando a vegetação é derrubada, a floresta perde a capacidade de “recarregar” a atmosfera. “O desmatamento da floresta diminui a umidade na atmosfera. As áreas situadas no trajeto dos ventos são afetadas pela diminuição das chuvas, o que resulta na redução da disponibilidade de água nessas áreas”, descreve o relatório.
Energia sob pressão
O setor elétrico é um dos mais vulneráveis. O Brasil depende de fontes renováveis para 88% da matriz elétrica, sendo 56% provenientes de hidrelétricas. A menor regularidade das chuvas, agravada pelo desmatamento, reduz a vazão dos rios e obriga o aumento do uso de termelétricas, mais caras e poluentes.
Estudos citados no relatório indicam que a UHE (Usina Hidrelétrica) Teles Pires, localizada entre Mato Grosso e Pará, perde cerca de R$ 115 milhões por ano em receita devido à queda no volume de água. As UHEs Itaipu, no rio Paraná–PR, e Belo Monte, no Xingu (PA), têm perdas potenciais superiores a R$ 1 bilhão anuais. “Juntas, as usinas perderam o potencial de gerar anualmente 3.700 GWh — valor equivalente ao consumo anual do estado de Rondônia”, informa o documento.
As análises do CPI/PUC-Rio mostram que 17 das 20 maiores hidrelétricas do país estão localizadas ao longo das rotas dos rios voadores, o que amplia a vulnerabilidade da matriz elétrica. O relatório identifica as regiões da floresta mais importantes para a operação dessas usinas — áreas que, ao perder cobertura vegetal, reduzem a regularidade das chuvas em bacias hidrográficas estratégicas, como a do Paraná, do Tapajós e do Xingu.
Água nas cidades e no campo
As massas úmidas que partem da Amazônia abastecem também regiões densamente povoadas, como São Paulo, Minas Gerais e Paraná, além de polos agrícolas do Centro-Oeste. Segundo o estudo, o desmatamento pode afetar sistemas urbanos inteiros.
O Sistema Cantareira, que fornece água a cerca de 9 milhões de pessoas na Região Metropolitana de São Paulo, enfrenta desde 2014 períodos de estiagem prolongada. “A redução no volume de chuvas decorrente do desmatamento da Amazônia tem o potencial de afetar a capacidade de abastecimento de água e saneamento no país”, alerta o CPI/PUC-Rio.
No campo, o risco é ainda maior. Apenas 13% da área agrícola brasileira tem irrigação, o que torna a produção altamente dependente da chuva. O estudo mostra que as trajetórias dos rios voadores cruzam o Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), o Centro-Oeste e o interior de São Paulo — regiões que concentram as principais lavouras de soja, milho e cana-de-açúcar.
Entre 2013 e 2022, a escassez hídrica gerou perdas estimadas em R$ 186 bilhões na agricultura e R$ 64 bilhões na pecuária. “A Floresta Amazônica, ao regular regimes hidrológicos, tem papel central no fornecimento de água para a produção agropecuária”, reforça o relatório.
Mais incêndios e rios rasos
Com menos umidade, aumenta também a vulnerabilidade do país a incêndios. Em 2024, as queimadas atingiram 30,8 milhões de hectares, 79% a mais que no ano anterior, afetando 18,9 milhões de pessoas. As áreas mais atingidas foram a Amazônia e o Cerrado, justamente as regiões que dependem da umidade vinda dos rios voadores.
“A redução do volume de chuvas resultante do desmatamento pode comprometer a capacidade da vegetação de resistir ao fogo”, cita trecho de documento.
Os efeitos do desmatamento chegam ainda às hidrovias, essenciais para o transporte de grãos e de produtos básicos que sustentam as exportações brasileiras O relatório mostra que os rios voadores passam por todas as grandes rotas hidroviárias do país, incluindo a hidrovia Tietê-Paraná e os rios Madeira e Tapajós, na Amazônia.
Em 2024, o Rio Madeira registrou o menor nível da história — apenas 25 centímetros de profundidade —, interrompendo operações no porto de Porto Velho–RO e provocando prejuízo de R$ 622 milhões à empresa Hidrovias do Brasil.
A floresta como ativo estratégico
Para os pesquisadores, o desmatamento não é apenas um problema ambiental, mas uma ameaça direta à produtividade nacional. “Ao regularizar os regimes de chuva em todo o país, a Floresta Amazônica constitui um ativo estratégico para a economia brasileira”, afirma o estudo.
O documento lembra que o Brasil já reduziu o desmatamento em cinco vezes entre 2004 e 2014 com políticas públicas eficazes, como o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal.
No entanto, entre 2014 e 2021, as taxas voltaram a subir e só começaram a cair novamente após 2022. “A adoção de políticas de combate ao desmatamento é um tema prioritário e não pode ficar submetida a ciclos políticos. É essencial que haja um esforço contínuo para a proteção da floresta”, conclui o CPI/PUC-Rio.
