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Economia

Demissões e acúmulo de funções são efeitos da pandemia nos pequenos empresários

17 de março de 2021 Economia
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Empresário Marcos Martins, do Mar de Café; reinvenção no negócio (Foto: Instagram/Reprodução)
Empresário Marcos Martins, do Mar de Café; reinvenção no negócio (Foto: Instagram/Reprodução)
Por Marília Miragaia, da Folhapress

SÃO PAULO – O pequeno empresário chega a um ano da pandemia, declarada no começo de março de 2020, com o caixa baixo, acúmulo de funções no negócio e a tarefa de continuar transformações para sobreviver ao momento mais preocupante da Covid-19 no Brasil.

Desde fevereiro, o dentista Fábio Masson, 42, à frente do Centro Odontológico Sorriso.com, em Santo André (ABC), tem observado uma retração da clientela, depois de ter registrado uma alta na procura no fim do ano passado.

“Diminuí muito minha margem de lucro por causa da inflação, mas, ainda assim, o cliente não vem. É uma situação propícia para quebrar. O estresse é grande, é difícil dormir à noite”, diz.

Com a crise, o empresário teve de demitir metade da equipe. Mesmo acumulando funções, começou a fazer um curso de redes sociais. “É um investimento e uma tarefa a mais em uma rotina já conturbada. Mas tenho a clínica há 17 anos, e hoje só o boca a boca não é mais suficiente. A pandemia nos ensinou isso rapidamente”, diz.

Além de preparar conteúdo para as redes sociais, ele uma planeja uma estratégia para começar com anúncios pagos, com o intuito de conquistar novos pacientes.

Após um ano da migração para o digital, os empresários agora têm de aprender a usar recursos online em todo seu potencial, diz Rafael Moreira, economista do Sebrae. Isso significa avançar em campanhas feitas pela internet, aumentar presença em marketplaces e explorar ferramentas como o CRM (Gestão de Relacionamento com o Cliente, em português), usado na venda virtual em maior escala.

O sistema é um dos recursos usados por Fábio em seu consultório, utilizado para gerar informações sobre clientes e manter contato por email. Mas, mesmo com o esforço de vendas, ele precisou recorrer a linhas de crédito -e só conseguiu ter acesso às tradicionais, já oferecidas pelos bancos antes da crise.

“Teria feito toda diferença o acesso ao Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte). Poderia estar com as contas mais saudáveis e ter fôlego para atravessar essa nova fase”, diz.

Na última quarta, 10, o Senado aprovou um projeto de lei que torna o Pronampe permanente, como política oficial de crédito. O texto foi encaminhado à Câmara dos Deputados para votação, mas com nova taxa de juros: agora, tem limite máximo de 6% (mais a Selic), contra 1,25% (mais a Selic) de rodadas anteriores.

O projeto também prorroga por mais seis meses a carência dos empréstimos já concedidos – a demanda já vinha sendo apresentada por empresários que, com o avanço da Covid-19, não tinham caixa para arcar com as parcelas.

Ao longo do ano, o empreendedor precisou fazer ajustes ao mesmo tempo em que avaliava se o negócio tinha condições de atravessar o período de crise, diz Edson Barbero, coordenador do centro de empreendedorismo da Fecap (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado).

Em junho, o empresário Marcos Martins, 37, decidiu entregar o ponto físico da cafeteria Mar de Café, que funcionou por quase dois anos na zona sul de São Paulo. Ele manteve a marca e vende agora, pelas redes sociais e por WhatsApp, pacotes de café em grãos ou moídos e pão de queijo refrigerado.

Mesmo com uma estrutura enxuta -Marcos era quem fazia os quitutes, o serviço e a contabilidade –, ele decidiu encerrar as atividades para não acumular dívidas.

Com a diminuição do consumo presencial, Marcos não tem planos de reabrir a cafeteria, mas estuda montar uma torrefação e distribuir o grão. “O negócio como está me deu outras possibilidades porque não me toma muito tempo”, diz. Hoje, ele desenvolve, ao lado de sócios, o projeto São Paulo Coffee Hub, que pretende atuar na criação de eventos, inteligência de mercado e formação de profissional relacionados ao café.

Decisões como mudar o modelo de negócios ou fechar as portas devem ser amparadas por números e, durante a crise, muitos empreendedores aprenderam a gerenciar esses resultados mais de perto, diz Dariane Fraga, professora do Proced (Programa de Capacitação da Empresa em Desenvolvimento) da FIA (Fundação Instituto de Administração). “Fechar um negócio pode ser duro, mas às vezes é a melhor decisão a se tomar”, afirma Barbero, da Fecap.

A empresária Débora Araújo, 40, teve encerrar as atividades da sua escola, a Educare, em Birigui (SP), no mês passado, pouco antes de completar dez anos de operação. A empresa, que oferecia aulas de reforço, passou a maior parte de 2020 com faturamento 90% abaixo do esperado.

Enquanto a escola apresentava perdas, ela começou a investir no segmento de massas congeladas. Hoje, toda a sua renda vem do novo negócio, todo digital, chamado Comida Nobre, que começou com cerca de R$ 1.500, investidos em produtos e embalagens.

Hoje, o faturamento médio de Débora é de R$ 6.500. Mesmo com o progresso na venda de massas, ela ainda pensa em retornar à educação. “No dia em que eu fechei as portas, pensei: ‘Ainda vou voltar’. Aí vieram o choro e as incertezas. Mas empreender é estar preparado para correr riscos”.

Depois de investirem tempo e energia para reinventar seus negócios, os empreendedores ainda vão precisar se manter criativos para enfrentar a nova fase da pandemia – o que tem um custo emocional que deve ser considerado, afirma Edgard Barki, coordenador do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV (Fundação Getulio Vargas). “Toda a literatura sobre empreendedorismo sempre falou da importância da resiliência. Mas esta pandemia esta exigindo capacidade ainda maior de adaptação do pequeno”.

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Assuntos crise econômica, pandemia, pequenos negócios
Cleber Oliveira 17 de março de 2021
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