
MANAUS – É fácil compreender que a crise vende mais cliques, mas se não encontrarmos um meio de construção de um espaço público de debate e de convergências para a sociedade, seguiremos no caminho da destruição, tal qual em outras eras, com o fascismo, a hiperinflação ou o autoritarismo nacional ou estrangeiro.
Se considerarmos o nosso momento brasileiro, o desemprego está em baixa, o dólar em baixa frente a uma grande cesta de moedas incluindo o real, mas estamos superatentos para o movimento de presidentes estrangeiros. Há mais sobre outros países do que sobre o nosso. É certo que a todo instante teremos crises e oportunidades, mas estamos extremamente apegados às crises, inclusive no meio de muitas oportunidades.
Gordon Brown (ex-Primeiro-Ministro do Reino Unido), Mohamed A. El-Erian (Universidade de Cambridge), Michael Spence (Prêmio Nobel de Economia), com Reid Lidow publicaram em 2023 o livro “Permacrisis” (sem edição em português), onde eles argumentam o quanto o mundo vive em uma crise permanente. Esta visão é completamente aderente ao que vemos em qualquer noticiário brasileiro. Os autores propõem um plano em três frentes: crescimento, gestão econômica e governança.
Os autores argumentam que o crescimento, em vários setores, não está sendo transferido apropriadamente para a sociedade. Existe a necessidade de encararmos novamente objetivos para a sociedade. Há uma grande geração de riquezas, com pouca criação de benefícios sociais.
De fato, há recentemente uma destruição de benefícios que levaram anos para serem construídos, com um desmonte de serviços para a sociedade, por uma série de fatores que são discutidos no livro, dentre elas o que eles chamam de boas e más práticas da gestão econômica. Advogam ainda que é necessário reconfigurar a globalização, revitalizando a cooperação institucional.
Voltando para o meu paralelo, a construção de um sistema que conjugue uma cooperação para a redução das desigualdades parece hoje fora da pauta das discussões nacionais. Bilhões de Reais são alocados com facilidade para apoiar empresas na crise tarifária (ação rápida e necessária), mas pouco ou nada se faz para enfrentar as diversas crises da educação. As pautas são conduzidas pelas necessidades individuais das partes com mais poder e não pelas coletividades. Por exemplo, a redução das desigualdades regionais ou sociais sumiu das discussões públicas.
A economia parece voltada para atender a grandes empresas. Os pequenos e médios negócios estão praticamente esquecidos, enquanto se normaliza o subemprego e a informalidade do trabalho para empresas de tecnologia estrangeiras, como o Uber (EUA) ou 99 (China). É evidente que há como fazer isso ser um progresso e não um progresso ao custo de destruição de valor para o trabalho ou capital do “empreendedor”. Falta discutir como o subemprego compete com o emprego formal — hipótese quase ausente no debate público.
Augusto César Barreto Rocha é doutor em Engenharia de Transportes (COPPE/UFRJ), professor da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), diretor adjunto da FIEAM, onde é responsável pelas Coordenadorias de Infraestrutura, Transporte e Logística.
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