
Do ATUAL
MANAUS – Pendurado numa rede feita sob medida, o macaco-prego batizado de “Chico” observa com desconfiança quem chega na casa da agricultora Raimunda Santos*, na zona rural de Itapiranga (a 226 quilômetros de Manaus), onde ele vive há alguns anos. Basta alguns minutos para ele se acostumar com a presença de “estranhos”. Depois, não para com a bagunça.
Segundo Raimunda, o macaco foi “adotado” quando era filhote após cair do colo da mãe. A agricultora recebeu o bicho de caçadores e decidiu criá-lo. Ele é alimentado com frutas e outras comidas típicas de agricultores.
No início, o animal era quieto, mas depois passou a mexer nos utensílios de casa. Fazia a bagunça. A “peraltice” do macaco fez com que ela o amarrasse com uma corda próximo à rede. Agora, Chico não vai muito longe. A corda tem menos de um metro.
Os “tutores” do animal tentaram devolvê-lo à natureza, mas era tarde. Chico já tinha se acostumado com a “família”. E sempre voltava para casa.

No mesmo município, em uma propriedade às margens do Rio Uatumã, vive uma garça-branca-grande batizada de “Morena”. O nome foi dado por Maria Francisca*, que vive da pesca e agricultura, com o marido.
Diferente do macaco Chico, Morena vive solta, mas não vai muito longe. Passeia entre árvores e campos próximos da casa de Maria. Basta chamar pelo nome e oferecer um peixinho que a garça vem ao encontro da “dona”.
Com estranhos, o animal age com muita desconfiança. Só se aproxima quando tem o peixe. Mas com Maria ela não fica acanhada. Deixa a “parceira” até fazer carinho na sua cabeça.
Morena chegou no local já adulta e não quis mais sair.

Em uma fazenda, o João Carlos* e a mãe dele criam um trio de marrecas-caboclas. Elas convivem com os patos. Os animais chegaram em um bando e foram capturadas pelo fazendeiro. Já se acostumaram com os “donos”, mas são ariscas com “estranhos”.
Todos os animais citados na matéria tem algo em comum: são animais silvestres e, conforme a legislação brasileira, não podem ser domesticados.
A Lei de Crimes Ambientais (Lei Federal nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998) prevê pena de detenção de seis a um ano, e multa a quem “matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida”.
O ecólogo Carlos Durigan explica que a cultura de ter o animal silvestre em casa é global, e não restrita ao Brasil ou à Amazônia. O costume, no entanto, traz risco ao seres humanos.
“Ter [animal doméstico] como animal de estimação tem diversos problemas. Apesar de ser um hábito e ser culturalmente uma coisa que atravessa gerações, existem estudos mostrando por exemplo que algumas espécies podem ser problemáticas quando trazidas para a convivência humana, seja por potenciais inconvenientes que podem causar nessa convivência, como estragos e tudo mais, quanto também problemas relacionados a zoonoses [doenças infecciosas transmitidas entre animais e pessoas]”, afirmou Durigan, que é diretor da WCS Brasil, uma ONG que atua na conversação da flora e fauna da Amazônia.
A criação de animais silvestres é uma questão enfrentada há algumas décadas através das mudanças na legislação em todo o mundo, pois, conforme o ecólogo, envolve um mercado que lucra bilhões. De acordo com Durigan, o tamanho da “encrenca” é proporcional ao “tamanho da biodiversidade que nós temos”.
“Existe um mercado de animais tanto legal quanto ilegal de espécies que são silvestres ou espécies silvestres que são criadas em cativeiro. É um mercado muito amplo, que movimenta bilhões de dólares todos os anos porque é para diversos fins, não só para pets como também retirada de partes de animais [pele, chifres, ossos] ou animais que são utilizados em pesquisas”, disse Durigan.
Carlos cita mudanças importantes na legislação brasileira para proteger animais da caça intensa.
“No Brasil, nós tivemos um marco legal importante que foi a Lei de Crimes Contra a Fauna, de 1967. Até então, era permitida a caça para venda de pele. O Brasil tinha o comércio ilegal de peles de animais”, afirma Durigan.
“Na Amazônia, na época que acabou o segundo ciclo da borracha, uma grande cadeia comercial que se desenvolveu pelos anos 40, 50, até início do 70, foi o comércio legal de peles. Onça pintada, jaguatirica, capivara, peixe boi. Muitas espécies que eram caçadas de forma bastante intensa justamente porque se transformou em uma alternativa econômica”, completa o ecólogo.
O rigor na lei sobre animais silvestres, conforme Durigan, ocorreu para combater a exploração desenfreada.
“A caça e a captura de animais silvestres é proibida, mesmo com as leis subsequentes que vieram. Por exemplo, a Lei de Crimes Ambientais, dos anos 1990, dá alguma abertura para algumas frentes, mas mantém como crime a caça e captura de animais silvestres sem a licença devida. Existem casos onde a caça e a captura é permitida legalmente”, disse Durigan.
Educação
O ecólogo explica que a evolução das leis no país não foi acompanhada da necessária educação ambiental da população.
“Existe, hoje, uma linha de trabalho que inclusive a gente, na minha organização, tem adotado que se chama de ‘mudança de comportamento’. É uma discussão planetária, que existem questões culturais e humanas, modo de viver e produzir, que gera tanto impacto que a gente precisa começar a discutir formas de mudar certos hábitos e comportamentos que causam degradação, impacto”, afirmou Durigan.
Riscos
De acordo com Durigan, esses bichos são suscetíveis a portar doenças e até contaminar humanos. “Existem estudos mostrando que algumas espécies são muito propensas a serem reservatórios de algumas endemias”, afirma o ecólogo.
“É sempre um risco, uma preocupação muito grande. Pode ocorrer eventos que são chamados de spillover, em que um causador de doenças e um vírus, uma bactéria que infecta e causa doença para um animal, pode mudar seu comportamento e passar a contaminar seres humanos também”, completou Durigan.
Carlos exemplifica esse problema usando como referência populações de capivaras que cresceram em alguns estados.
“Nós temos regiões no Brasil onde não existe mais caça de capivara. As pessoas deixaram o hábito de caçar animais silvestres para alimentar e está vindo uma superpopulação da capivaras. Esses animais estão se transformando em reservatórios de uma doença muito preocupante, a febre maculosa, transmitida por carrapatos”, afirmou Durigan.
As mudanças no comportamento do animal também são apontadas como risco aos seres humanos. “Quando esse animal está pequeno, está numa situação mais frágil, aparentemente ele tem um comportamento mais tímido. Com o tempo, ele começa a crescer e gerar o problema”, afirmou o ecólogo.
“Muitas vezes esses animais que foram tirados de seus ambientes e vieram para ser cuidados como pets acabam sendo objeto de entrega voluntária para os órgãos ambientais. É muito comum resgate de animais que as vezes a pessoa não consegue mais cuidar, o animal foge, a pessoa abandona em alguma área. É comum chamados para o Batalhão Ambiental, Bombeiros, Ibama, Ipaam, estarem lá para resgatar o animal. Animais que simplesmente são entregues voluntariamente”, completou Durigan.
De acordo com o ecólogo, macacos como o Chico quando adultos começam a ter outro tipo de comportamento, às vezes, em razão do estresse por não estar no seu habitat natural.
“São quando pequeno uma coisa. E começa a ficar grande e mordem as pessoas, começam a ter aquele comportamento. Animal silvestre em cativeiro começa a ficar um animal estressado, está fora do ambiente, está fora da convivência com os seus iguais”, disse o ecólogo.
“Isso começa a gerar uma série de comportamentos erráticos do animal. Isso acaba levando a problemas inclusive de ataques. A própria capivara ou outros animais, quando ficam adultos, assumem outros de comportamentos. A capivara, como é bicho que vive em bando, muitas vezes nos bandos mesmo a gente percebe conflitos entre indivíduos”, completou Durigan.
(*Os personagens desta matéria são reais, mas não quiseram se identificar – os nomes são fictícios – por medo de sofrer multas em valores “impagáveis”.)
