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Dia a Dia

Conversa com os filhos sobre ataques em escolas ameniza o medo

29 de março de 2023 Dia a Dia
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evasao escolar
Alunos em sala de aula; pais devem conversar sobre violência na escola (Foto: Altemar Alcantara/Semcom)
Por Gabriella Sales, da Folhapress

SÃO PAULO – As escolas costumam ser um lugar seguro para os pais deixarem seus filhos. Afinal, estarão num ambiente controlado, supervisionado e organizado especialmente para o seu desenvolvimento. O que fazer, então, quando essa segurança é quebrada e a a escola se torna um local sujeito a violência?

Atentados como os do último dia 27, em que um aluno de 13 anos matou uma professora e deixou outros 5 estudantes feridos em uma escola na zona oeste de São Paulo, podem instaurar insegurança generalizada em pais e alunos. Desde agosto de 2022, houve mais de um ataque do tipo por mês no Brasil.

Para abordar o assunto em casa e lidar com medos e traumas, especialistas recomendam acolher os sentimentos dos filhos e procurar ajuda especializada, quando necessário.

Como iniciar uma conversa sobre o assunto?

No primeiro momento, o mais importante é manter uma postura acolhedora e um espaço de escuta ativa. Segundo Danila Zambianco, doutoranda em Educação pela Unicamp (Universidade de Campinas) e especialista em competências socioemocionais, a abordagem pode mudar a depender de como foi a participação da criança na situação.

Caso o estudante tenha presenciado, a especialista recomenda aguardar as orientações da escola sobre como abordar o assunto em casa.

Porém, caso seja alguém distante do ocorrido, os pais e familiares podem iniciar o assunto comentando sobre a notícia e buscando entender o que o jovem sabe sobre o ocorrido.

Dizer “Ouvi uma notícia bem ruim hoje sobre uma escola, você ouviu?” pode ser uma boa maneira de iniciar uma conversa, afirma a especialista.

A partir daí, Zambianco recomenda sondar o que o estudante sabe sobre o assunto. O ideal é informar de maneira sucinta e também esclarecer informações falsas, evitando julgamentos e suposições.

“Não se deve esconder nada dos alunos, até porque eles têm todas as informações nos celulares”, reforça Elaine Alves, pesquisadora do Instituto de psicologia da USP (Universidade de São Paulo) e coordenadora do Niped (Núcleo de Intervenção Psicossocial em Emergências e Desastre).

A indicação é ser o mais realista possível e buscar entender como o jovem se sente e o que gostaria de falar sobre o assunto. “Alguns têm necessidade de falar muito sobre o assunto, outros não. É preciso respeitar isso”, diz Alves.

O que deve ser abordado?

Zambianco recomenda também conversar sobre qual a reação adequada a cada situação. A especialista indica usar frases que questionem, de forma acolhedora, a criança ou adolescente, como “Quando não estamos de acordo com algo, como podemos resolver? Mesmo quando ficamos muito bravos? O que podemos ou não fazer?”.

Nessa primeira conversa, a proposta é informar o aluno e abrir espaço para falar sobre os sentimentos. Considerações sobre o porquê de um ataque ser feito ou juízos de valor não são produtivos.

“É preciso acolher, ou seja, demonstrar apoio e escuta e não impor sentimentos nesse momento. Deixar que digam como se sentem, quando querem dizer”, afirma a especialista.

Também não é recomendado apressar as crianças ou impor o que os pais consideram correto nesse momento, mas sim respeitar a dor e os sentimentos do estudante.

O que fazer se as crianças estiverem com medo de voltar à escola?

Antes, Zambianco destaca o que não fazer: assistir aos noticiários sobre o tema compulsivamente e comentar com constância sobre o assunto na frente das crianças não é indicado. “Não se trata de esconder o que houve, mas de dar a devida medida para as coisas”, afirma.

Lidar com o medo só é possível depois de identificar de onde ele vem. Por exemplo, se o que amedronta é a possibilidade de ocorrer um novo ataque, conhecer as estratégias de segurança que estão sendo estabelecidas pela escola pode ajudar.

A família também pode pensar em estratégias personalizadas. Zambianco sugere frases como: “Quando você sentir medo na escola, o que pode fazer para se sentir seguro?”.

Essas estratégias devem ser temporárias, até que o estudante volte a ter a sensação de segurança.
A especialista Elaine Alves ressalta que os sintomas do estresse pós-traumático são comuns nos primeiros 30 dias após o acontecimento. Muitas crianças podem apresentar, por exemplo, pesadelos e outros problemas de sono.

Como a família pode lidar com o próprio medo?

A família deve ser transparente com os jovens, deixando claro que a situação é angustiante e manifestando os próprios sentimentos. “É importante que os pais se coloquem de maneira verdadeira”, afirma Alves. “O medo é esperado”.

A psicóloga recomenda acolher os próprios sentimentos e reconhecer que são válidos. Além disso, buscar escola e em outras famílias para elaborar as preocupações e entender as estratégias que estão sendo estabelecidas pode ajudar.

Apesar disso, pais e responsáveis devem administrar o próprio medo para que ele não seja transferido às crianças de maneira exagerada.

Para isso, é importante checar a veracidade de notícias e evitar discussões acaloradas no ambiente digital.

As estratégias usadas para acalmar as crianças podem ser replicadas pelos próprios adultos, mas também é essencial manter contato com a instituição de ensino e outros órgãos responsáveis para receber informações atualizadas sobre as estratégias de segurança e cobrar políticas de diálogo e acolhimento.

Quando procurar ajuda profissional?

O primeiro passo recomendado pelos especialistas é estabelecer conversas com o jovem e a escola para verificar se há alguma maneira de lidar com a situação internamente.

A educadora Danila Zambianco afirma que não conseguir voltar às aulas, apresentar sofrimento acentuado ou prolongado, e automutilação são alguns sinais que pedem atenção dos pais e familiares.

“São exemplo de situações que podem indicar que precisam de ajuda de algum profissional’, aponta.

A psicóloga Belinda Mandelbaum, coordenadora do Laboratório de Estudos da Família da USP, aponta que, muitas vezes, as crianças não manifestam a necessidade de ajuda verbalmente. Muitas têm manifestações emocionais e sintomas psicossomáticos (físicos).

“É preciso haver essa sensibilidade dos adultos entorno para essas diversas manifestações, que podem ser verbais ou não verbais”, ressalta. Problemas de sono e alimentação, por exemplo, também podem fazer parte.

Caso o aluno tenha um precenciado, é necessário trocar de escola?

Em um primeiro momento, todos os desejos e considerações devem ser escutados.
Porém, Mandelbaum afirma que mudar as crianças de escola não é uma estratégia efetiva. “Não garante a segurança, pois este é um problema maior”, diz.

O momento deve ser encarado de maneira coletiva, pois não é uma questão individual. As estratégias para lidar com o trauma serão majoritariamente organizadas nas instituições de ensino por meio de rodas de conversa e outros encontros.

Além de ser uma maneira de evitar lidar com o trauma, mudar de escola pode acabar dificultando o processo e deixando a criança mais isolada. “É uma situação em que o trabalho coletivo é muito importante”, reforça Mandelbaum.

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