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Dia a Dia

Conselheiro de segurança pública desconstrói discurso sobre crime organizado no Brasil

24 de fevereiro de 2026 Dia a Dia
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Ricardo Brisolla Balestreri diz que é ingenuidade acreditar que líder de crime organizado mora em favela (Foto: Acervo pessoal/Divulgação)
Ricardo Brisolla Balestreri diz que é ingenuidade acreditar que líder de crime organizado mora em favela (Foto: Acervo pessoal/Divulgação)
Do ATUAL

MANAUS – “Líder de crime organizado mora em condomínio de luxo” e “em mansão à beira-mar e não em favelas”, afirma Ricardo Brizola Palestreri, do Conselho Nacional de Segurança Pública. Em palestra nesta terça-feira (24) em Manaus, Palestreri disse que é necessário primeiro entender como o crime organizado funciona, se organiza e onde se infiltra para poder combatê-lo.

O conselheiro participou do 1º Seminário Nacional de Segurança Pública com o tema “Segurança pública na Amazônia: desafios e soluções”. O evento é promovido pela Comissão de Segurança Pública do Instituto dos Advogados Brasileiros com apoio da UEA (Universidade do Estado do Amazonas) e ocorreu nesta terça-feira (24).

Ricardo Palestreri apresentou dados de estudo realizado em 2022 quando o crime organizado movimentou cerca de R$ 347,8 bilhões. Ele classifica o crime organizado como “negócio”, pois objetiva lucro com práticas criminosas. O conselheiro disse que, por efeito midiático, a maioria dos brasileiros acredita que líderes de organização criminosa moram em favelas ou em locais com forte presença ostensiva do Estado.

“Líder de organização criminosa é gente fina e elegante. Só não é sincera. Líder de crime organizado não mora em favela. Não tem nenhum líder do crime organizado no Brasil morando em favela, nenhum. Se líder do crime organizado, com 350 bilhões de reais por ano de receita, fosse morar em favela, devia ser um cara legal, […] isso é ingênuo, isso é absurdo”, disse.

Ele faz uma analogia para exemplificar a comparação. “É alguém com opção preferencial pelo pobre, uma espécie de Zeca Pagodinho do crime que fica morando na favela porque acha legal, porque gosta dos favelados. Isso é ingenuidade, isso é absurdo”.

Segundo Palestreri, essa percepção equivocada dificulta o enfrentamento do crime organizado, pois direciona a atenção para a base visível da criminalidade e não para o topo da estrutura financeira e estratégica das organizações.

Ao citar nomes conhecidos, como Fernandinho Beira-Mar e Marcola, Palestreri afirmou que há uma “ingenuidade midiática” ao tratá-los como líderes máximos do crime organizado no país. Para ele, os nomes que aparecem na televisão não representam necessariamente o comando real das estruturas criminosas.

“Não embarque na ingenuidade midiática de achar que o crime tem sede na favela. De achar que o menino com bermudão caindo e a cueca aparecendo é líder de crime organizado. Não embarque na ingenuidade de acreditar que o Fernandinho Beiramar é líder de crime organizado. Não embarquem na ingenuidade de acreditar que esses nomes todos que aparecem na TV são líderes de crime organizado. Não embarque na ingenuidade de achar que o Marcola é líder do PCC”, enfatizou.

Ricardo Palestreri comparou a estrutura de facções como o PCC a modelos de máfia, com organização empresarial e divisão estratégica de funções. “Somos comerciantes, é um negócio”, disse, ao reforçar que o crime organizado atua como indústria estruturada e altamente lucrativa.

Para Palestreri, ainda há no Brasil uma visão de 40 a 50 anos atrás sobre como o crime se organiza, o que dificulta respostas eficazes do Estado. “Não compreendemos o que é um crime organizado, não temos ideia dos números do crime organizado. Nós não temos ideia do crime organizado na sociedade brasileira e, por isso, não conseguimos decifrá-lo”.

“Não é na favela que se resolve o crime organizado. Não é na laje que se define”, afirmou, ao defender políticas estruturais, inteligência e compreensão do funcionamento econômico das organizações criminosas.

“Líder de crime organizado mora em condomínio de luxo. Líder de crime organizado vai de jatinho particular a Miami, não anda em voo de carreira. Pegam seu jatinho particular e vão a Miami, Amsterdã, por exemplo, fazer comércio internacional poliglota, falando várias línguas. Esse é o perfil do líder do crime organizado. Líder de organização mora em mansão à beira-mar”, afirmou.

Comércio de drogas

Para Palestreri, o comércio de drogas é apenas a penúltima atividade lucrativa na estrutura do crime organizado. Embora seja bilionária, essa atividade, segundo ele, não representa o núcleo central da chamada indústria do crime no Brasil.

De acordo com o conselheiro, a sociedade acaba direcionando a atenção apenas ao tráfico porque ele está visivelmente instalado, sobretudo nas favelas e áreas periféricas. Essa visibilidade, afirma, acaba distorcendo a compreensão sobre onde realmente está o comando e a maior concentração de poder econômico do crime organizado.

“Se a gente olha só para a droga, a gente olha só para baixo e o sistema não quer que a gente olhe para cima, onde as coisas importantes acontecem […] Metaforicamente, se o crime fosse um edifício, o crime não está no térreo. No térreo tem atividade criminal, mas o crime importante acontece na cobertura”, comentou.

Confira trechos da palestra.

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Assuntos crime organizado, CV, Fernandinho Beira Mar, manchete, Marcola, PCC, segurança pública
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