
EDITORIAL
MANAUS – O aumento de preços de produtos e serviços tem um efeito dominó e chega a todos os brasileiros de alguma forma, mesmo que um produto não seja usado por determinada parcela da população. Mas esse “fenômeno” atinge de forma mais cruel os trabalhadores de baixa renda e os pobres de modo geral.
Isso ocorre porque o aumento de preço vai sendo repassado para outros produtos e serviços, e não representa qualquer prejuízo para quem está acima da base da pirâmide social.
Uma empresa, seja de pequeno, médio ou grande porte, por exemplo, repassa o aumento de preço dos combustíveis, da energia elétrica, dos insumos e dos impostos aos seus produtos. Esse item entra na contabilidade da empresa como despesa, que é considerada na formação do preço final do produto produzido ou do serviço prestado.
Um profissional liberal, como o dentista, o advogado ou o médico, também podem elevar o preço de seus serviços para compensar a inflação.
O mesmo não acontece com o trabalhador, o aposentado, ou os dependentes dos benefícios sociais pagos pelos governos. Esses dependem da boa vontade das empresas de reajustar seus salários ou do aumento do salário mínimo determinado pelo governo central.
A pesquisa da cesta básica realizada pelo Dieese, no mês de junho, aponta que o salário mínimo necessário para uma família de quatro pessoas (considerando dois adultos e duas crianças) deveria ser de R$ 5.421,84.
Esse valor calculado pelo Dieese é 38% superior que em janeiro de 2019, quando houve a mudança de governo da União e dos Estados. Naquele mês, o salário mínimo necessário era R$ 3.928,73.
Enquanto o valor necessário para o sustento de uma família média brasileira subiu 38%, o salário mínimo subiu apenas 11,02%. Saiu de R$ 998,00 em janeiro de 2019 para R$ 1.100,00 atuais.
Na última pesquisa do Dieese, uma família estava gastando, em média, 55,68% do salário mínimo para comprar os produtos da cesta básica para uma pessoa adulta. Isso significa que o salário mínimo não dá para pagar a cesta básica para duas pessoas adultas.
Mas a cesta básica não é a única despesa das famílias: em Manaus, a concessionária de água aumentou o valor da tarifa em 24,5% no mês passado, reajuste que foi barrado por decisão judicial na noite desta terça-feira (31).
Para este mês a Agência Nacional de Energia Elétrica anunciou um aumento de 50% no valor da conta de luz, ao autorizar o aumento do preço da bandeira tarifária. Esse é mais um caso em que o trabalhador não tem como recuperar o aumento, ao contrário das empresas, que repassam o novo valor para seus produtos ou serviços.
A lógica do aumento de preços no Brasil é um salve-se quem puder. O problema é que as famílias de baixa renda estão jogadas ao mar sem colete salva-vidas. Portanto, essa parcela da sociedade, ao fim e ao cabo, é a que sente a maior pressão do aumento de preços.
O pobre não compra gasolina para o carro, mas paga mais caro pelo arroz e o feijão, porque o preço dos combustíveis é repassado pelo produtor, pelo transportador e pela rede varejista.

