
Os últimos anos da história do Brasil são pródigos em ensinamentos que mostram como levar um país ao colapso. Somos testemunhos contemporâneos de importantes transformações que resultaram na decadência do Brasil, implicando sofrimento e morte da população, da cultura e da natureza.
Tais transformações foram capitaneadas por elites nacionais e internacionais, que atuaram sincronicamente, visando ampliar as suas taxas de rendimentos, a despeito da destruição da soberania do país, numa total indiferença ao sofrimento da população.
Primeiro, o golpe contra a Presidente Dilma Rousseff, que fora traída por seu vice (Michael Temer), mobilizando os políticos que buscavam se beneficiar economicamente da situação. Neste evento, percebeu-se a atuação de poderosos grupos econômicos, representados por atores de destaque nas principais instituições nacionais: poder Executivo, poder Legislativo e poder Judiciário.
Depois deste evento, o poder Executivo foi encampado por atores claramente vinculados aos interesses do grande capital (empresas transnacionais, sistema financeiro, agências multilaterais e potências mundiais), que buscam privatizar o patrimônio público, restringir direitos dos trabalhadores e das populações tradicionais, assim como diminuir a responsabilidade social do Estado e flexibilizar as normas de proteção ambiental. Tais medidas, além de viabilizar a deterioração da natureza, têm gerado altos índices de desemprego, aumento da pobreza e fragilização da democracia.
O poder destrutivo destas medidas é evidenciado ainda mais neste período em que o mundo vive uma pandemia de extrema gravidade, que coloca em risco a vida humana. A começar pelo presidente da República, muitos líderes políticos negam a importância das ciências, adotam posturas autoritárias e ignoram a cooperação internacional, introduzindo o Brasil em situação caótica, em que a morte vitima centenas de pessoas no território nacional, criando um clima insuportável de luto e sofrimento.
Esta onda devastadora que tomou conta do país nos últimos anos é ilustrada pelo caos sanitário vivido em Manaus. A omissão do governo federal e a ineficiência do poder público local apontam para a atitude genocida e criminosa dos que lideram o Brasil. Alvo tradicional de corrupção e ignorado pelos gestores federais, estaduais e municipais, o sistema de saúde manauara indica como o setor público vem sendo tratado no Brasil, revelando a perversidade dos que comandam direta e indiretamente a sociedade brasileira.
Tudo isso mostra o sucesso das elites econômicas em se apropriar da política brasileira e em enganar a população, utilizando-se de estratégias criminosas como corrupção e fake news. Como resultado, vemos a democracia sucumbir, a desigualdade social aumentar e os nossos biomas naturais extinguirem-se em meio ao velório nacional e global de milhares pessoas.
Ainda é possível retomarmos as rédeas deste processo, pois surge outro agente importante nesta arena de conflitos, o Planeta Terra. Sua reação aos desmandos é visível nas “catástrofes naturais” e tragédias sanitárias, alertando para que a humanidade refaça as suas opções.
É preciso criar condições para que a vida mantenha o seu curso normal, preservando todos os seres vivos, sejam eles humanos e não humanos. Pautados pelo paradigma econômico, decidimos escolher o caminho da morte em lugar do caminho da vida. Agora, tudo depende da nossa vontade coletiva de viver.
Sandoval Alves Rocha é doutor em Ciências Sociais pela PUC-RIO. Participa da coordenação do Fórum das Águas do Amazonas e associado ao Observatório Nacional dos Direitos a Água e ao Saneamento (ONDAS). É membro da Companhia de Jesus/Jesuítas e professor da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).
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