
Por Iolanda Ventura, do ATUAL
MANAUS – Combater fake news é difícil, pois envolve mais do que desmentir notícias falsas; é preciso desfazer narrativas conspiratórias, afirma Leonardo Rossatto Queiroz, cientista social e especialista em Políticas Públicas no governo do Estado de São Paulo.
Leonardo Rossato explica que geralmente a notícia falsa é enquadrada dentro de um contexto plausível, para que pareça mais crível.
“Daí nascem as grandes narrativas conspiratórias, que atribuem a poderes ocultos, impossíveis de serem confirmadas ou desmentidas, todos os males da humanidade, e essas narrativas são usadas para justificar ações tomadas por líderes ou militantes de extrema direita”, diz.
O cientista social afirma que normalmente desmentir não adianta muito, uma vez que essas narrativas são espalhadas continuamente. Ele cita como exemplo o Artigo 142, da Constituição Federal, usado em protestos para defender uma intervenção federal contra o resultado das eleições deste ano.
A redação do Artigo 142 é: “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.”
“Coisas como ‘Artigo 142’, por exemplo, são espalhadas por anos a fio, insistentemente, mesmo com inúmeros desmentidos. Isso é estratégia: cria-se uma narrativa que faz parte de uma visão de mundo conspiratória maior, e essa narrativa é insistentemente espalhada até que as pessoas se convençam dela”, afirma Rossato.

Ainda em 2020, a Câmara dos Deputado emitiu parecer esclarecendo que Artigo 142 da Constituição não autoriza intervenção militar. Segundo o documento, é “fraude ao texto constitucional” a interpretação de que as Forças Armadas teriam o poder de se sobrepor a “decisões de representantes eleitos pelo povo ou de quaisquer autoridades constitucionais a pretexto de ‘restaurar a ordem’”.
Em virtude disso, o trabalho de desmentir é tão difícil. “O desmentir precisa ser contínuo, e deve se concentrar não só nos fatos (como geralmente fazem as agências de fact checking), mas nas narrativas como um todo e na visão de mundo que alimenta essas narrativas”, ressalta o especialista.
Redes Sociais

Nesse contexto, as redes sociais são ferramentas importantes para que as notícias falsas ganhem espaço. Luiz Antônio Nascimento, sociólogo e professor da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), ressalta que as fake news já existiam, mas ganharam força nesses meios.
“Aquilo que antes na notícia do jornal, do telejornal alcançava algumas centenas, alguns milhares de pessoas, agora alcança milhões de pessoas, sem qualquer filtro”.
O conteúdo produzido circula nas redes internas de comunicação dos grupos favoráveis ao posicionamento como expressão da verdade.
“Eles vão te dizer: ‘você só vai ter essa informação aqui porque a mídia tradicional mente para você’. Então por isso que as pessoas não vão checar as informações. Porque foram orientadas a entender que não adianta checar, porque lá na checagem o que ela vai encontrar é a mentira”, explica.
A estratégia inclui atacar pessoalmente e ameaçar quem tenta refutar a mentira. “A ideia é que você produza sobre essas pessoas um acabrunhamento, para que se sintam constrangidas e vão para o canto, com medo”, diz.
O sociólogo explica que quando a informação falsa é desmentida, o primeiro ato do indivíduo é questionar a idoneidade de quem fala.
“Lembra quando o Bolsonaro pergunta do Lula qual é a fonte num debate para o Lula? A ideia da fonte, que é a premissa da informação, eles desmontam. Porque quando você apresenta aquela informação eles colocam em xeque o produtor da fonte. Porque não estão preocupados em debater, mas em destruir o outro”.
Luiz Antônio afirma que quando não há o recuo com medo, parte-se para o ataque físico. “Essa violência toda que os petistas têm recebido desde a eleição do Bolsonaro não é por acaso”.
Leonardo Rossato pontua que o trabalho da extrema direita em usar as redes sociais como ferramenta para criação de uma realidade paralela é algo realmente grande, e encontra eco em discursos de pessoas que são consideradas autoridades na vida cotidiana, como o pastor da igreja ou o policial do bairro.
“É por isso que o bolsonarismo investe tanto nesse tipo de influenciador: são pessoas que realmente tem capacidade de ir moldando as opiniões das pessoas no dia a dia até elas aceitarem todos os elementos dessa realidade paralela”, diz.
Verdade X Posicionamento Político

De acordo com Rossato, acaba sendo mais fácil aceitar a mentira como verdade. “Já há vários anos pesquisadores no Brasil e no exterior mostram que, para grande parte das pessoas, a questão do viés vem antes da verificação de veracidade. Isso quer dizer que os mecanismos de verificação não funcionam como deveriam quando as notícias vão ao encontro do que as pessoas já acreditam”.
Luiz Antônio Nascimento pontua que parte da população tem raciocínio de ciclo curto, o que torna fácil fazer com que acredite em notícias falsas.
“Porque não desenvolveu a capacidade de leitura, interpretação do mundo, apropriação da cultura, da arte. Então quando o pastor diz que o prefeito da cidade de São Paulo distribuiu cartilha kit gay, pronto, bastou. Eu não preciso fazer raciocínio muito complicado, aquilo está dado, o pastor falou”, afirmou.
Para Rossato, a facilidade em convencer algumas pessoas com conteúdos falsos sobre as eleições envolve não somente o uso do desconhecimento sobre como funciona a democracia, mas também diz respeito à disposição em acreditar.
“Projetos políticos, especialmente os autoritários, usam a frustração e o ressentimento como ferramenta para difundir ódio. As pessoas passam a ser condicionadas por esse ódio e a acreditarem só no que corrobora esse ódio”, diz.
O cientista social alerta para o perigo dos discursos de ódio.
“Para quem está radicalizado pelo discurso de ódio, pouco importa se uma notícia é verdadeira ou falsa. Suas percepções já estão condicionadas e isso é um risco não só para quem abraça esses discursos, e sim para a sociedade toda, como mostram os vários casos de violência motivada pela política ocorridos durante o processo eleitoral”, ressalta.
