
Por Thiago Gonçalves, do ATUAL
MANAUS – Quimicamente idêntica ao cloridrato de cocaína tradicional, com os mesmos efeitos psicóticos e forma de uso, a cocaína negra é um desafio para as forças de segurança. A diferença está na camuflagem: a adição de carvão ativado e outras substâncias escuras possibilitam enganar os testes preliminares usados pela polícia no momento das abordagens e até dificultar o trabalho dos cães treinados para farejar drogas.
Apreendida em Manaus no mês de outubro, pela segunda vez, a droga gerou um alerta. É que a técnica para camuflar a cocaína é usada especialmente para o tráfico internacional, com destino à Europa e Austrália onde o preço pode ser até dez vezes maior que no mercado interno.
“A cocaína negra nada mais é do que cocaína, que é a mesma droga, em tese, com os mesmos efeitos farmacológicos, com a mesma forma de uso. A única diferença é que se agregou a ela, via de regra, substâncias, por exemplo, no caso da cocaína negra, carvão ativo, que escurecem o produto. Mas ela, para todos os efeitos, é a mesma cocaína”, explica Marcos Camargo, presidente da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF).
Desde 2021 houve duas apreensões desse tipo de droga no Amazonas. Foram 80 quilos que eram destinados ao exterior. A primeira ocorreu em abril de 2021, em Manacapuru, quando 40 kg foram encontrados juntos com 600 kg de maconha skunk em uma embarcação que descia da tríplice fronteira pela rota do Rio Solimões. A segunda, mais recente, ocorreu no dia 17 de outubro quando 40 kg foram descobertos dentro de quadros e cadeiras em uma mansão na capital amazonense. O material estava pronto para ser enviado para a Austrália.
A coloração da cocaína tem um propósito específico e estratégico, que é burlar a fiscalização durante o transporte internacional. O processo de produção é bem fácil para quem atua no tráfico, não exigindo conhecimento químico avançado nem equipamentos complexos.

“Normalmente, ela é produzida ou durante o próprio refino, por meio de substâncias que geram e agregam cor, ou, normalmente, talvez até a forma mais comum, após o produto pronto, por meio de adição de alguma substância colorida”, explica Camargo.
O perito descreve como o processo funciona na prática, revelando a simplicidade do método. “Por exemplo: na cocaína negra você mistura carvão ativo, enfim, com substâncias escuras. Uma cocaína marrom, você pode misturar pó de café nela, vai ficar marrom. Então, normalmente, são substâncias, muito sais, compostos inorgânicos, muitas vezes, que têm cor e que você, então, agrega”.
Para deixar claro que se trata da mesma droga apenas com aparência diferente, Camargo faz uma comparação com bebida alcoólica. “É a mesma coisa que você pensar assim: ‘ah, eu tenho uísque com água, com gelo, e eu tenho uísque puro’. Qual é a diferença? A diferença é que um está com gelo, o outro está puro, mas é o mesmo uísque”.
Do ponto de vista jurídico, a legislação brasileira não faz distinção entre as diferentes formas de apresentação da droga. “Do ponto de vista legal, é o mesmo crime. A cocaína é proibida, seja ela preta, branca, azul, amarela, misturada, pura. A legislação não faz distinção sobre formas de apresentação de cocaína”, afirma o presidente da APCF.
O grande problema na prática surge justamente no momento mais crítico das operações policiais: as abordagens em portos, aeroportos e rodovias. Os testes preliminares, aqueles realizados rapidamente no local da apreensão para sustentar um flagrante até que exames laboratoriais mais aprofundados sejam feitos, funcionam por reação química de cor. No caso específico da cocaína, o reagente químico deve ficar azul quando em contato com a droga, indicando a presença do alcaloide.
“Esses testes rápidos, que são esses laudos preliminares, que obrigatoriamente, obrigatoriamente, precisam ser complementados em até 10 dias por um laudo definitivo, eles normalmente são testes de cor. Você pega lá o produto, pinga uma gotinha, no caso de cocaína, se ficar azul é positivo”, explica Camargo.
Experiência
Camargo diz que policiais experientes podem contornar a situação com técnicas alternativas. “Mas há formas de você eliminar esse problema, aí vai da experiência da pessoa que está conduzindo esses testes preliminares. Existem formas de você conseguir eliminar um pouco dessas interferências e você ter um resultado em que você vai poder observar alguma cor. Mas sim, de fato, isso é uma dificuldade a mais. Precisa ter um pouquinho mais de experiência para poder resolver isso aí”.
O delegado Rodrigo Torres, diretor do Denarc (Departamento de Investigações sobre Narcóticos), da Polícia Civil do Amazonas, confirma que o impacto é real e preocupante. “Essa camuflagem, ela também camufla inclusive o exame convencional, aquele teste preliminar que é utilizado quando a polícia faz a apreensão para detectar naquele momento que é droga. Esse exame ele dá um falso negativo”.
‘Inovação’ no tráfico
O especialista em segurança pública Hilton Ferreira diz que a cocaína negra no Amazonas não é uma novidade em si, mas revela algo mais preocupante: as facções estão inovando cada vez mais. Segundo ele, o crime organizado age como uma empresa, testando métodos, investindo em tecnologia e buscando formas de driblar a fiscalização em uma das fronteiras mais extensas e vulneráveis do país.
“O crime organizado age como empresa. Ele pesquisa, investe, testa, usa tecnologia e inteligência artificial. Não se trata apenas da cor da droga, mas da velocidade com que essas organizações estão criando maneiras novas de camuflar carregamentos”, afirma.
Hilton destaca que a técnica da cocaína negra dificilmente será adotada no mercado interno porque altera cheiro e paladar, o que leva o usuário a rejeitar o produto. “Já tentaram outras vezes. Não vingou. Essa cocaína escurecida não interessa ao consumidor brasileiro. O objetivo é exportar, e isso revela um outro problema: as facções estão apostando em métodos que passem despercebidos em portos, aeroportos e rotas fluviais”.

Os cães treinados para detectar drogas também podem encontrar dificuldades com a cocaína negra, principalmente quando substâncias odoríferas são misturadas ao entorpecente para tentar mascarar o cheiro característico que os animais conseguem identificar.
Camargo explica que um cão bem treinado, acompanhado de um adestrador experiente, pode sim identificar a cocaína negra, mas há um fator humano fundamental nessa equação. “O cachorro não fala, o cachorro não diz, ‘ó, isso aqui é cocaína, ela está misturada’. Ele apenas sinaliza. Cabe ao policial, que está com o cachorro, interpretar o que o cachorro está fazendo. Então, se o policial não imagina que possa existir cocaína colorida, ele pode entender que o cachorro errou. Então, o tirocínio policial é importante, o treinamento é importante”.
Por essa razão específica, o Denarc implementou um programa de treinamento dos cães farejadores usando amostras reais de cocaína negra, afirma o diretor do departamento. “Agora nós estamos aqui com o cão farejador sendo paulatinamente treinado com todos os tipos de substâncias entorpecentes para ele conseguir farejar, incluindo aí a cocaína negra”, informa Rodrigo Torres.
Mercado internacional
A cocaína negra não é produzida para consumo no mercado brasileiro, mas exclusivamente para exportação, onde os lucros são exponencialmente maiores. Os traficantes investem nessa camuflagem específica pensando nas barreiras alfandegárias internacionais, muito mais rigorosas que as fiscalizações internas.
“O principal objetivo deles é camuflar a cocaína para poder exportar sem ser identificado tão facilmente por cães e agentes da polícia e até por máquinas de raio-x”, afirma Torres.
Os mercados de destino são bem definidos geograficamente. “A principal rota que eles conseguem lucrar, maior lucratividade para eles aí realmente é o mercado europeu, a Austrália”.
Torres confirma o envolvimento das grandes organizações criminosas brasileiras nesse tipo de operação sofisticada. “Com certeza, essa estratégia é adotada pelas facções que atuam em grande parte do país e fora dele”.

Rota do Solimões
A principal entrada da cocaína no Amazonas é a mesma há décadas: o Rio Solimões, que atravessa a Amazônia e liga os países produtores de coca ao esquema de distribuição e exportação das facções. “Até então, sabemos aí que a rota do Solimões é uma rota utilizada há décadas, e a tríplice fronteira, inclusive, já é no Solimões. São produtores da cocaína da Colômbia, do Peru, aqui na nossa tríplice fronteira. Então, essa droga vem dali, o escoamento acontece nessa região”, diz Torres.
Os traficantes mostram flexibilidade nos transportes, adaptando-se às condições e riscos de cada operação. “Eles utilizam todos os modais, o principal é o fluvial, são as embarcações, dada a possibilidade de grandes quantidades de drogas serem transportadas e camufladas, isso barateando aí o custo deles da logística. Mas o modal aéreo também é bastante utilizado, principalmente na seca”.
Apesar dos desafios nos testes preliminares, os laboratórios de criminalística do Brasil, incluindo o Instituto de Criminalística do Amazonas, possuem plena capacidade técnica para identificar a cocaína negra através de exames definitivos realizados com equipamentos sofisticados.
Marcos Camargo explica que identificar a adulteração em si não é tão complicado para peritos experientes. “Hoje todas as unidades [de perícia técnica], todos os estados possuem estruturas de perícia oficial de natureza criminal, todos eles possuem laboratórios de química forense, possuem peritos criminais capacitados, então todos os estados possuem condição”.
O exame definitivo padrão-ouro é a cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas. “Um exame de cromatografia gasosa acoplado à espectrometria de massas para a identificação de cocaína demora cerca de 15 minutos. Então, até você preparar a amostra, em uma hora você consegue fazer esse exame”, explica Camargo.

O perito diz que é o maior desafio no combate ao narcotráfico é encontrar a droga. “O difícil da cocaína é ela escondida. Depois que você achou, ela pode estar na cor que quiser, pode estar do jeito que quiser, você consegue identificar. Mas o mais difícil é achar a cocaína. É achar naqueles dez trilhões de containers que tem no porto, qual é o que tem cocaína ali dentro. Isso é que é o difícil. Depois que você achou a substância, não é a cor dela que vai ser o grande dificultador”.
Por isso, as forças de segurança do Amazonas estão implementando treinamentos específicos. “Não só a Polícia Civil, não só o Denarc, mas outras forças policiais também estão redobrando a atenção para esse tipo de drogas que está agora começando a ser apreendido aqui no Amazonas, inclusive com treinamentos dos cães farejadores, e informações trocadas para poder identificar ela de forma mais fácil no olhar do policial”, diz o delegado Rodrigo Torres.
O cenário é de disputa permanente entre crime organizado e forças de segurança, com inovações constantes de ambos os lados. Hilton Ferreira resume bem essa dinâmica. “O crime está sempre inovando, assim como nos golpes, usa IA, usa tecnologia, eles detêm também muito dinheiro, muitos milhões de dólares. E a polícia também tem seus laboratórios de investigação, de perícia, de perícia forense, avança também, então é uma briga eterna, o crime avança, a segurança também avança.”
Camargo concorda que as técnicas de camuflagem são uma constante no narcotráfico. “Nós temos um consumo grande de drogas. O tráfico de drogas não dá sinal de se refrear. Enquanto você tiver um tráfico prolífico, ativo, você vai ter sempre tentativas de camuflar. Isso sempre vai existir. Ninguém vai ficar traficando cocaína mostrando para todo mundo que está traficando cocaína”.
O perito conclui que a cocaína negra é apenas mais uma variação de um fenômeno antigo. “Então, as técnicas de camuflagem, elas sempre existiram e sempre vão existir. Eu não diria que é uma tendência de crescimento, porque elas sempre existiram. E vão continuar existindo. E aí, claro, volta e meia aparecem técnicas exóticas, que são as cocaínas coloridas, roupas impregnadas com cocaína, suportes produzidos com cocaína”.

Desafio maior na fronteira
Hilton Ferreira afirma que o verdadeiro desafio vai além das técnicas de camuflagem e está na própria geografia do estado. “A preocupação é a mesma em referência ao tráfico, mas aqui, se não estancar a fronteira, tanto faz ser negra como branca, nós vamos ter sempre problema”.
As limitações orçamentárias são um obstáculo real. “O estado do Amazonas não tem, nenhum estado brasileiro tem estrutura financeira, orçamento. Você viu o que acontece no Rio de Janeiro, ele esbarra na lei de responsabilidade fiscal, então não pode contratar mais policiais, nós estamos numa guerra no Brasil”, diz o especialista.
Ferreira defende uma abordagem diferenciada. “E essa guerra tem que ser uma verba, inclusive secreta. Como é que você compra, contrata tantos informantes, todo mundo fica sabendo quanto você contratou, o que você vai comprar, tem que ser verba secreta. Nós estamos numa guerra. Então, o Estado do Amazonas deveria ter uma lei específica justamente por isso, por fazer parte da vizinhança dos maiores produtores de drogas do planeta”.
