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Dia a Dia

Cientistas identificam vírus em urina de paciente com febre amarela

8 de fevereiro de 2018 Dia a Dia
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(Foto: Fiocruz/Divulgação)
Transmissão da febre amarela ocorre quando mosquito injeta o vírus na corrente sanguínea e ele chegua a camada interna dos vasos sanguíneos (Foto: Fiocruz/Divulgação)

Do Estadão Conteúdo

SÃO PAULO – Um grupo de cientistas brasileiros conseguiu detectar o RNA do vírus da febre amarela – isto é, seu material genético – na urina e no sêmen de um paciente com a doença. De acordo com os autores da nova pesquisa, a descoberta poderá ser útil para aprimorar os testes diagnósticos da doença.

O RNA do vírus é normalmente detectado no sangue de pacientes infectados, mas até agora não havia sido observado no sêmen e na urina. A nova pesquisa teve seus resultados publicados na “Infectious Diseases”, revista científica dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) do governo dos Estados Unidos.

“Nossos resultados sugerem que o sêmen pode ser um material clínico útil para o diagnóstico da febre amarela e indica a necessidade de realizar testes de urina e coletar amostras de sêmen de pacientes com a doença em estágio avançado”, diz o artigo.

Esses testes poderão aprimorar os diagnósticos, reduzir os resultados falsos negativos e reforçar a confiabilidade dos dados epidemiológicos durante a atual e as futuras epidemias”, escreveram os cientistas.

De acordo com o coordenador do estudo, Paolo Zanotto, pesquisador do Instituto de Ciências Biológicas da USP (Universidade de São Paulo), embora a descoberta também levante alguma preocupação – por mostrar que o vírus permanece no organismo por mais tempo do que se pensava – o seu impacto é predominantemente positivo.

“É uma boa notícia, porque com a presença do RNA do vírus na urina podemos ter acesso a uma nova ferramenta diagnóstica. Outro aspecto positivo é que aumentamos nosso conhecimento sobre a biologia do vírus. O vírus da febre amarela já é estudado há quase 100 anos e ainda não se sabia que ele podia ser detectado na urina e no sêmen”, disse Zanotto.

Os cientistas ainda não sabem quais as implicações da descoberta para a transmissão do vírus, mas Zanotto considera improvável que a presença do RNA no sêmen permita a transmissão sexual da febre amarela.

“Se houvesse um mecanismo de transmissão sexual, já teríamos percebido, porque esse vírus é muito ativo na África e nunca surgiu nenhuma evidência. A transmissão sexual é muito fácil de constatar, porque quando ela acontecem aparecem muitos pares concordantes – isto é, casais que aparecem com a doença ao mesmo tempo. Nos ciclos urbanos do vírus na África não apareceram pares concordantes”, explicou o cientista.

Segundo Zanotto, para que febre amarela seja transmitida a humanos, é preciso que o mosquito inocule o vírus na corrente sanguínea e que ele chegue ao sistema endotelial da pessoa. “Constatamos que o vírus é excretado pela urina, mas não há evidências de que ele possa chegar ao sistema endotelial por via sexual – o mosquito é capaz de fazer isso com muito mais facilidade”, afirmou Zanotto.

Embora o RNA do vírus tenha sido encontrado também no sêmen, o cientista diz que ainda não é possível saber se o vírus é realmente excretado pelo sêmen, ou se a detecção ocorreu porque a uretra do paciente estava contaminada com o vírus excretado na urina.

Vírus persistente

Para realizar o estudo, os cientistas acompanharam um paciente de 65 anos de idade, que havia sido contaminado, mas não havia entrado na fase tóxica da doença. O paciente, morador de São Paulo, havia viajado para Januária (MG), no dia 28 de dezembro de 2016 e depois para uma área rural no norte da capital paulista, no dia 3 de janeiro de 2017.

Três dias depois, no dia 6 de janeiro do ano passado, o paciente começou a apresentar sintomas: febre, calafrios, dor corporal e náuseas. Os sintomas se agravaram durante mais três dias, com febre de até 40°C, dores de cabeça, prostração, vômitos, tontura anorexia, urina escura e gosto amargo na boca.

As amostras de urina e sêmen do paciente apresentavam o RNA do vírus em quantidade considerável, 15 dias e 25 dias após os primeiros sintomas de febre amarela. “Esperávamos que o vírus só pudesse ser detectado no organismo no máximo uma semana após o início da manifestação da doença”, disse Zanotto.

Segundo o pesquisador, o caso estudado indica que o período de transmissibilidade do vírus é maior do que se pensava. Atualmente aceita-se que esse período tem início entre 24 horas e 48 horas antes do aparecimento dos sintomas e se estenderia por mais um período de no máximo uma semana após o início dos sintomas.

A confirmação clínica da infecção por febre amarela se baseia atualmente na detecção de RNA do vírus no sangue por sorologia, pela técnica de PCR de transcrição reversa (RT-PCR) ou pelo ensaio de imunoabsorção enzimática (ELISA, na sigla em inglês) – um teste que permite a detecção no plasma sanguíneo de anticorpos específicos, como a imunoglobulina M (IgM e IgG), que o organismo produz quando entra em contato com algum tipo de microrganismo invasor.

“Quando uma pessoa com suspeita de infecção chega a um hospital, se a viremia (presença do vírus no sangue) já acabou, fazemos a sorologia para saber se ele foi infectado. Mas seria muito melhor ter a confirmação por meio de um teste de urina, porque não haveria risco de falsos negativos. Isso produziria diagnósticos mais precisos, mais rápidos e mais seguros, além de nos fornecer estatísticas melhores para compreender e combater a doença”, disse Zanotto.

Além de Zanotto, participaram do estudo Carla Barbosa, Edison Durigon, Nicholas Di Paola, Marielton Cunha, Mônica Rodrigues-Jesus, Danielle Araújo, Vanessa Silveira, Fabyano Leal Flávio Mesquita e Danielle Oliveira – todos da USP -, Viviane Botosso, do Instituto Butantan e Marcos Silva, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e da PUC-SP.

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Assuntos Belo Horizonte, Febre amarela, Ministério da Saúde, rio de janeiro, sao paulo, USP
Redação 8 de fevereiro de 2018
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