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Dia a Dia

Cheia do Rio Solimões torna Anamã uma cidade ‘anfíbia’ no Amazonas

7 de maio de 2021 Dia a Dia
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Enchente deixa cidade no Amazonas debaixo d’água (Foto: Reprodução/YouTube)
Por Fabiano Maisonnave e Edimar Barros, da Folhapress

ANAMÃ – A chegada ao porto de Anamã (161 km em linha reta de Manaus), no Amazonas, vem acompanhada de um susto: na praça e nas ruas alagadas, pessoas com água acima do joelho transitam sem pressa enquanto canoas e lanchas passam pelas vias submersas. Da farmácia à igreja, tudo está aberto como se a cidade não precisasse do chão firme para funcionar.

De fato, a Anamã já se adaptou com a vida anfíbia e até se orgulha dela: no arco de entrada diante do porto, está a inscrição “Veneza da Amazônia” devido às alagações quase anuais. A diferença é que neste ano o Rio Solimões transbordou com um mês de antecedência e já cobre todas as ruas. A única vez que isso ocorreu foi em 2015, ano da maior enchente já registrada.

A pequena cidade de 14 mil habitantes é apenas um dos 53 municípios do Amazonas (de um total de 62) já impactados pelas chuvas acima da média nas cabeceiras dos principais rios amazônicos.

“Esta cidade está 100% n’água, não tem como dizer onde que tem terra”, diz o eletricista aposentado Estáquio Viana dos Santos, 77, em conversa na recém-instalada maromba, como são chamadas as tábuas de madeira amparadas nas paredes das casas que funcionam como um piso mais alto.

Para entrar ali, foi preciso subir em uma cadeira e passar pela janela – a porta já está submersa. A casa conta também com um segundo andar, construído para o caso de enchentes mais altas.

Além das marombas e do segundo piso, os moradores também recorrem à elevação das casas. A técnica é tão engenhosa quanto rudimentar: na fundação, são colocados de 15 a 20 macacos hidráulicos de automóveis. Pouco a pouco, a casa vai sendo escorada e subindo até a altura desejada, geralmente 3 metros. São então fixadas as palafitas.

Com o nível da água ainda relativamente baixo, por enquanto, a cidade não tem desabrigados. Em todo o estado, já são 12.650 desabrigados, segundo a Defesa Civil. Nesta quinta-feira, 6, o governador Wilson Lima (PSC) anunciou o pagamento de R$ 300 para até 100 mil famílias.

Com as casas adaptadas, a principal preocupação dos moradores é outra: regulamentar o trânsito fluvial urbano durante o período inundado, que costuma durar até três meses.

“Quando a rabeta (canoa com motor) passa em alta velocidade, o banzeiro (ondas) derruba o liquidificador, estraga as portas”, diz a artesã Elcilene dos Santos, 42, ecoando uma reclamação generalizada.

A polêmica maior é com as casquetas, pequenas canoas pilotadas por jovens. Para envenenar o motor, eles colocam carburador de moto e trocam a hélice pela “palheta tailandesa”, uma febre recente na cidade. “É como se fosse uma Ferrari”, compara o vereador Jane Menezes (PSC), 43. Nesta semana, a Câmara se reuniu para discutir o assunto. As propostas vão desde proibir o trânsito das casquetas dentro da cidade até estipular um limite de velocidade. O problema, diz ele, é encontrar uma jurisprudência.

Já os carros precisaram ser levados de balsa para uma comunidade próxima, em terra firme. Mas há quem prefira pendurar seu automóvel no teto da garagem, por meio de grossas correntes, enquanto as motos ficam dentro das casas.

Para as crianças, as ruas são motivo de festa. No final da tarde, são centenas se divertindo na água com pulos acrobáticos do alto das casas elevadas.

O problema é que a água não é muito limpa, apesar de haver uma correnteza constante. Com as fossas alagadas, todo o esgoto sobe, e algumas casas precisam tirar o cano da privada para que a descarga funcione.

O resultado é que o posto de saúde e o hospital, recém-transferidos para barcos, passaram a registrar um mais casos de diarreia e de micose, principalmente nas crianças.

Já a água consumida vem de poços artesianos. Para buscá-la, os moradores vão de barcos a três pontos diferentes, onde, de cima de canoas, enchem galões e garrafas de água. O governo do Amazonas promete instalar nesta sexta-feira

uma unidade de tratamento móvel, trazida sobre uma balsa.

A cheia também atrapalha a agricultura. “Está tudo embaixo d’água, não tem onde plantar”, diz o agricultor Altenir Soriano de Souza, 60. “A alagação estragou muita plantação. Matou a banana, cupuaçu, limão, laranja”.

A reportagem o encontrou na casa de farinha municipal, onde ele estava trabalhando junto com a família. Por causa da alagação, ele só vendeu um saco da recente produção, por R$ 300.

“Vendi um sacozinho para aguentar com um pouco de dinheiro. Os outros 15 sacos, eu vou guardar para comer na alagação”, diz.
Outro problema é a falta de maromba. A prefeitura distribui duas dúzias de tábuas e de “pernas mancas”, como são chamadas as madeiras afixadas na parede para escorar o piso elevado, mas a quantidade não é suficiente para uma casa inteira.

A artesã Elcilene dos Santos só conseguiu erguer a maromba na cozinha. Agora, ela espera vender sachês de sabonete no Dia das Mães para conseguir comprar o resto das tábuas.

Quem está lucrando com a enchente é o comerciante Thiago Kleber Silva, 19. Dono da SOS Celular, ele atende sobre uma maromba a clientes que chegam de canoa para consertar o aparelho encharcado.

“Já perdi a conta de quantos estão no conserto. Por dia, recebemos uns 15 celulares que caíram na água. O movimento aumentou uns 80%”.

Para dar conta, ele contratou mais dois técnicos e, por meio de um tutorial encontrado na internet, construiu uma estufa com lâmpada UV para a secagem. Mas nem todos têm salvação. “O segredo é trazer assim que cair na água”, aconselha.

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Assuntos Amazonas, Anamã, cheia, enchente, Rio Solimões
Redação 7 de maio de 2021
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