
Por Felipe Campinas, do ATUAL
MANAUS — Dados extraídos do celular da médica Juliana Brasil Santos pela Policia Civil mostram que ela enviou mensagens a quatro médicos pedindo orientação sobre como conduzir o atendimento do paciente Benício Xavier de Freitas, de 6 anos, após ele receber adrenalina por via intravenosa, prescrita por ela, no Hospital Santa Júlia, em Manaus, em novembro de 2025. A criança morreu horas depois da administração do medicamento.
As mensagens, obtidas pela Polícia Civil do Amazonas, mostram que, no momento em que Benício sofria as consequências da medicação, Juliana tratava da venda de maquiagens por mensagens. No material, segundo a polícia, também foi identificado que ela atuou na produção de um vídeo editado para apontar falha no sistema e responsabilizar o hospital.
O Relatório de Extração de Dados Telefônicos assinado pelo investigador Fábio Barreto, que o ATUAL teve acesso, conclui que Juliana “não detinha domínio técnico e conhecimento compatíveis com a condução do atendimento prestado ao menor Benício”, e revelam “indiferença da investigada com a vida da vítima”.
O atendimento ocorreu na tarde do dia 22 de novembro de 2025, quando os pais levaram o menino ao hospital, na zona sul de Manaus, com quadro de laringite. Segundo a investigação, Juliana prescreveu adrenalina por via intravenosa (EV), procedimento executado pela técnica de enfermagem Raíza Bentes.
Após receber a medicação, Benício sofreu seis paradas cardíacas e morreu na madrugada do dia 23 de novembro. Desde então, houve uma guerra de narrativas. A médica afirmou ter orientado verbalmente uma conduta diferente, enquanto a técnica diz ter apenas seguido o que estava registrado pela pediatra.
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A polícia apreendeu documentos e o celular de Juliana para extrair dados e esclarecer “a dinâmica dos fatos e a conduta dos profissionais envolvidos”. Foram encontradas mensagens trocadas no intervalo entre o momento em que ela foi informada do agravamento do quadro de Benício e a orientação para que deixasse de se comunicar pela internet.
Primeiro médico
De acordo com a polícia, ao tomar conhecimento do erro na prescrição Juliana ligou para um número identificado como “Dr. Enryco”, mas as chamadas não foram atendidas. Em seguida, ela enviou mensagem ao mesmo contato informando que havia prescrito “inalação com adrenalina” e que “acabaram fazendo EV”.
A médica também disse que o caso era de urgência e relatou o quadro do paciente: “Paciente tá passando mal, ficou todo amarelo. Pede pra alguém da UTI descer urgente. Urgente, dr. Pelo amor de Deus”.

Para o investigador, nesse momento a médica “demonstrou ausência de preparo técnico para lidar com a situação instaurada, sobretudo por não evidenciar conhecimento e segurança suficientes para adotar conduta imediata e adequada diante da possibilidade de intoxicação medicamentosa decorrente do erro de prescrição sobre a via de administração”.
Na mesma conversa, Juliana perguntou o código para solicitar um leito na UTI e recebeu a resposta: “Juliana, está em todas as mesas do consultório”. O código se refere ao comando necessário para efetivar a solicitação de leito de UTI no sistema interno do hospital.
“Tal circunstância revela, em tese, falta de familiaridade com os fluxos assistenciais e administrativos do Hospital Santa Júlia, bem como possível desconhecimento do funcionamento da plataforma utilizada para registro e encaminhamentos (inclusive quanto às rotinas de regulação interna e abertura de leito)”, diz o relatório da Polícia Civil.
Segunda médica
Juliana também ligou para um contato identificado como “Dra. Suely Teles – HAP”, com quem conversou por seis minutos. Ela ainda enviou fotos e vídeos de Benício no leito e pediu orientação. A médica respondeu com recomendações de procedimentos que poderiam ser adotados, incluindo eletrocardiograma.

Segundo o investigador, o teor do diálogo “indica uma postura mais reativa do que diretiva, com ausência de iniciativa técnica clara para conduzir as providências imediatas”. “A conduta [recorrer a outros médicos] não se limita a uma ‘consulta de confirmação’, mas revela fragilidade de compreensão operacional e assistencial sobre o procedimento requerido relevado nas imagens seguir”, diz o relatório.
Para o investigador, o diálogo mostra que Juliana não tinha apenas uma “dúvida circunstancial”. “A conversa evidencia insegurança e falta de domínio sobre a própria demanda que estava sendo encaminhada, aspecto relevante para a análise das condutas adotadas no caso concreto”, diz o relatório.
Terceira médica
No mesmo intervalo de tempo, Juliana solicitou auxílio de outra profissional, identificada como “Laura Machado HRS”, a quem buscou orientação acerca de como deveria proceder diante do quadro apresentado.
De acordo com a polícia, o teor da conversa demonstra que Juliana fez “questionamentos práticos e imediatos” sobre como conduzir a situação, “evidenciando insegurança técnica e ausência de preparo suficiente” para lidar com o caso.
Juliana enviou a Laura uma foto do monitor cardíaco de Benício, e Laura respondeu indicando a medicação que, na avaliação dela, deveria ser administrada. Elas só voltaram a se falar no dia seguinte, quando Laura perguntou sobre o quadro do paciente; nessa ocasião, Juliana informou o falecimento de Benício.
De acordo com a polícia, na mesma conversa Laura enfatiza a importância do protocolo de checagem como etapa indispensável para a segurança do paciente e afirma que deveria ter havido conferência antes da administração do fármaco.
Quarta médica
As mensagens também indicam que Juliana recorreu a um contato identificado como “Anna Rosa – HSJ”, que, segundo a polícia, também é médica. Juliana enviou as seguintes mensagens: “Fala comigo, dra.”, “Ele não está conseguindo respirar” e “Me ajuda, dra.”.
O teor das mensagens é usado pela polícia para apontar que Juliana acompanhou e esteve ciente de todo o procedimento de transferência do menor Benício Xavier da sala vermelha para a UTI. Conforme a polícia, Juliana pediu de Anna informações sobre o estado de Benício e, à noite, a médica informou que não estava mais no hospital, mas que foi informada que o menino “estava mais corado e estava melhor”.
Venda de maquiagem
A polícia também apurou que Juliana tratava da venda de maquiagens no momento em que o quadro de saúde de Benício se agravava, antes de sua transferência para a UTI.
Paralelamente às tentativas de obter orientações médicas com Suely, ela respondia a um contato identificado como “Débora” sobre o pagamento de produtos vendidos, informando inclusive o preço de cada item e a concessão de desconto.

O investigador apontou desvio de foco, falha de postura profissional e evidente indiferença com a vida da vítima, além de quebra de prioridade assistencial em momento crítico.
Segundo o investigador Fábio Barreto, a concomitância de ações, em cenário incompatível com urgência clínica, sugere desleixo, falta de empatia e fragilização de protocolos essenciais de segurança do paciente, pois a condução do caso aparenta não ter recebido a atenção e a diligência exigidas.
“Tal conduta evidencia, de forma objetiva, quebra do dever de atenção integral e prioridade absoluta exigidos em atendimentos de alta complexidade, sobretudo quando o paciente se encontrava na Sala Vermelha, apresentando taquicardia e quadro que demandava monitorização contínua, tomada imediata de decisões clínicas e rigor na aplicação de protocolos”, disse o investigador.
Vídeo editado
A polícia também identificou que um contato salvo como “Wesley HRS”, apontado como médico, sugeriu que Juliana gravasse um vídeo do sistema. Segundo o investigador, esse material foi posteriormente apresentado como prova em habeas corpus, mas perícia técnica concluiu que o vídeo havia sido adulterado.
De acordo com a polícia, em conversa com sua advogada, Juliana relatou ter recebido um vídeo adulterado, que seria o mesmo arquivo posteriormente apresentado no habeas corpus relacionado ao caso. Para o investigador, a referência é relevante por sugerir possível manipulação prévia de prova digital e o uso do conteúdo em peça judicial.
O investigador recomendou diligências para identificar a origem do arquivo, a cadeia de encaminhamentos (quem produziu, quem editou e quem repassou), além da preservação da cadeia de custódia, do confronto com eventuais versões originais e da realização de perícia técnica para verificar possíveis edições, cortes, sobreposições e metadados.
