
Do ATUAL
MANAUS — A delegada Joyce Coelho, da Delegacia de Polícia de Manacapuru (a 68 quilômetros de Manaus), afirmou nesta segunda-feira (14) que investiga se há um esquema de adoção ilegal no município. A investigação ocorre a partir da prisão em flagrante de um casal homoafetivo e de outro homem, na sexta-feira (11), suspeitos de tráfico de pessoas com finalidade de adoção.
“Há realmente um esquema de adoção ilegal, inclusive com o pagamento em quantia em dinheiro. Justamente por isso fizemos o flagrante delito e apreendemos o telefone celular dos presos. Amanhã (terça-feira – 15) vou entrar com um pedido de quebra de sigilo para a gente poder identificar todos os possíveis envolvidos”, afirmou.
Joyce Coelho divulgou os nomes de José Uberlane Pinheiro de Magalhães, de 47 anos, e do casal Luiz Armando dos Santos, 40 anos, e Wesley Fabiano Lourenço, de 38. Eles foram presos após a polícia receber uma denúncia anônima por aplicativo de mensagem que incluía a imagem de um carro e relatava que dois homens estariam circulando pela cidade negociando a compra de um recém-nascido na maternidade pública de Manacapuru.
Na unidade de saúde, a polícia apurou que quatro mulheres deram à luz naquele dia. Uma delas, de 31 anos, foi identificada como a mãe disposta a entregar o bebê, mas não pôde prestar depoimento porque estava em atendimento médico.
A delegada revela que os investigadores descobriram que um dos suspeitos se apresentou como pai biológico da criança. Ele acompanhou o parto, recebeu a DNV (Declaração de Nascido Vivo) e tentou registrar o bebê em cartório, mas a emissão do documento não foi concluída devido a uma falha no sistema.
Conforme a delegada, José Uberlane atuou como intermediador na negociação e recebeu transferências bancárias do casal. Ele relatou que foi procurado pela mãe do bebê que disse estar endividada e buscava alguém disposto a ficar com a criança em troca de R$ 500.
“O intermediador relatou para a equipe de investigação que não foi só essa quantia [R$ 500]. Ele e sua esposa foram procurados por essa mulher que relatou que ela estava devendo a um agiota um valor de R$ 500 e [perguntou] se ele sabia de alguém que queria ficar com a criança pagando essa quantia. Então, ele acabou intermediando esse fato. Alega que não tinha noção de que isso era um crime, um crime grave, mas que intermediou”, explicou Joyce Coelho.
A delegada disse que o casal investigado estava em Manacapuru desde junho esperando o nascimento do bebê. A intenção era levá-lo para São Paulo. Segundo a delegada, há indícios de que uma mulher natural de Manacapuru, conhecida por facilitar adoções ilegais em São Paulo, também tenha participado da negociação.
A polícia também inspecionou a ficha hospitalar da mãe do bebê, que indica oito partos registrados na mesma maternidade, mas o Conselho Tutelar de Manacapuru contesta essa informação. “É de se estranhar que na ficha do hospital essa mesma mulher consta como tendo oito partos naquela unidade de saúde. Ela tem 31 anos e, segundo o Conselho Tutelar, ela não tem esses filhos todos. Então, são situações que estão muito nebulosas e que a gente vai esclarecer no decorrer das investigações”, disse Joyce Coelho.
A delegada citou também possíveis falhas no controle de acesso dentro da maternidade. “Com certeza há alguém facilitando esse acesso. Acesso à sala de parto, acesso à DNV, e isso tudo é muito grave. A gente espera identificar todos os responsáveis para que eles sejam punidos de igual forma”
A Polícia Civil apura ainda se o casal teria levado outra criança em ocasião anterior, pois havia tentado adotar legalmente, mas o processo foi arquivado por tentativa de fraude e falta de documentação.
O casal foi liberado na audiência de custódia. O homem suspeito de intermediar a “compra” do bebê permanece detido.
