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Esporte

Brasileiros lutam para quebrar hegemonia africana na São Silvestre

30 de dezembro de 2021 Esporte
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Com ultrapassagem espetacular, Kibiwott Kandie vence a São Silvestre de 2019 (Foto: Paulo Pinto /Fotos Publicas)
Com ultrapassagem espetacular, Kibiwott Kandie venceu a São Silvestre de 2019 (Foto: Paulo Pinto /Fotos Publicas)
Por Bárbara Blum, da Folhapress

SÃO PAULO – Existe um provérbio africano, segundo o maratonista Daniel Nascimento, 23, que diz: quem deseja ir rápido, deve correr sozinho, mas quem deseja ir longe, deve ir em grupo. Para ele e Grazieli Zarry, 23, a máxima ajuda a explicar a hegemonia dos africanos na São Silvestre, corrida de rua mais famosa do Brasil que volta em sua 96ª edição na sexta-feira (31). Os dois atletas são as principais esperanças do Brasil de retomar o pódio.

“Seria legal se todo mundo se ajudasse”, reflete Zarry. Ela diz, porém, que, no Brasil, é cada um por si.

O último vencedor brasileiro, Marilson Gomes dos Santos, levou o título em 2010. Dentre as brasileiras, a última foi Lucélia Peres, em 2006. Desde então, etíopes e quenianos dividem as últimas dez vitórias na competição.

O Quênia lidera a soma de edições vencidas – são 15 masculinas e 14 femininas. O Brasil vem na sequência no masculino, com 11 vitórias, e em terceiro no feminino, com 5 -duas a menos que Portugal, com 7 títulos entre as mulheres.

“O Brasil é o país do futebol, a África [o continente] do atletismo”, diz Daniel em entrevista coletiva na quinta-feira (30). Ele diz que passou a treinar no Quênia para estar entre os melhores, mas não esquece da história brasileira no atletismo: “Eles aprenderam com a gente de 1995 a 2000. Agora temos que ir lá buscar [a excelência] para trazer de novo”.

Tradicional a ponto de estar no calendário turístico de São Paulo, a São Silvestre volta às ruas do centro da cidade depois do primeiro cancelamento da história da competição, no ano passado.

O retorno oficial da corrida contará com nomes de peso dentre os atletas de elite. Além de Daniel e Grazieli, correm Elisha Rotich, queniano recordista da Maratona de Paris de 2021, Sandrafelis Chebet, também queniana e vencedora da prova de 2018, e o etíope Belay Bezabh, ganhador no masculino em 2018.

Alguns estrelados largam com o público geral, caso de Emerson Iser Bem, campeão em 1997, e Marílson dos Santos, tricampeão e último atleta nacional a vencer a competição, em 2010.

A alta nos casos de Covid-19 no Brasil, com aumento de 50% em relação às duas semanas anteriores, para cerca de 6.000 casos diários, não impediu a prefeitura de manter a corrida -e nem os atletas de desejar correr.

É o caso de Sandrafelis Chebet, que disse em entrevista coletiva na quinta-feira (30) que a vida não pode parar por causa da pandemia.

Para a segurança do evento, protocolos foram adotados, caso das máscaras, ainda obrigatórias em espaços abertos, que devem ser usadas nas concentrações de largada e de chegada. Durante a corrida o uso é facultativo, embora recomendado.

Outra adaptação à pandemia é a necessidade de comprovar ao menos uma dose da vacina contra o coronavírus – no caso da falta de uma das doses de vacinas duplas, é necessário apresentar um teste negativo para a doença. O regulamento do evento estipula que tanto o passaporte vacinal quanto os testes precisam ser apresentados no momento de retirada do kit do atleta, que inclui brindes de patrocinadores e a camiseta da edição.

A presença da plateia na avenida Paulista, que costuma oferecer água aos corredores em outro aspecto tradicional da competição, ficou suspensa para evitar aglomerações.

A prova começa com a largada dos corredores com deficiências, às 7h25, seguidos pela elite feminina, com 20 atletas, às 7h40. A elite masculina, com 21 atletas, e o pelotão geral, com 20 mil participantes, largam às 8h05.

Os inscritos foram limitados por causa da pandemia de Covid-19. Em 2019 foram 35 mil corredores, 15 mil a mais que em 2021.
No ano passado a corrida foi suspensa pela primeira vez na história. Desde a estreia, em 1925, nem a Revolução Constitucionalista de 1932 e a Segunda Guerra Mundial foram capazes de impedir a realização da prova.

Para os brasileiros Daniel e Grazieli, a suspensão significou mais tempo de treino – feito, muitas vezes, com máscaras, seguindo os protocolos do lugar em que estivessem no momento. “Não parei na pandemia, o trabalho duro continuou”, disse Grazieli, nesta quinta-feira (30).

A São Silvestre, batizada em homenagem ao santo do dia 31, data em que é realizada desde o início, é uma empreitada do jornalista e empresário aficionado por esportes Cásper Líbero. Ao ver uma corrida noturna em que os corredores carregavam tochas para iluminar o trajeto em Paris, o comunicador decidiu implementar uma ideia similar no Brasil.

Assim nasceu o que é hoje a corrida de rua mais famosa do país: com participantes exclusivamente homens e brasileiros correndo por 8,8 km durante a noite paulistana.

Ao longo de suas 96 edições a competição sofreu uma série de mudanças. A partir de 1945 ficou permitida a participação de estrangeiros da América do Sul e, diante da popularidade da medida, em 1947 passou a valer para corredores do mundo todo.

A presença feminina começou só em 1975, na esteira do Ano da Mulher declarado pela ONU (Organização das Nações Unidas).

A maior mudança, porém, veio depois de 1988, quando a corrida passou a se adequar às normas da então IAAF (hoje, World Athletics, órgão que gere o atletismo mundialmente). O trajeto passou a ter 15 km, mínimo estabelecido para figurar no calendário oficial, e a corrida passou a ser de dia -polêmica entre os fãs do evento, já que era considerado um dos marcos do Reveillon paulista.

Antes do cancelamento da corrida em 2020 em decorrência da pandemia – na época, vacinas ainda não estavam disponíveis – alguns corredores amadores organizaram a própria corrida, noturna, na qual viravam o ano correndo. “Tem um resgate da São Silvestre que eu via na televisão quando criança”, disse o corredor Demétrius Carvalho em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo no ano passado.

Veja o trajeto completo da São Silvestre

Largada: Av. Paulista x Rua Augusta
Av. Dr. Arnaldo
Rua Maj. Natanael
Rua Des. Paulo Passalaqua
Av. Pacaembu
Viaduto Gal. Olímpio Silveira: passagem
Av. Dr. Abrahão Ribeiro
Av. Norma Giannotti
Av. Rudge
Viaduto Orlando Murgel
Av. Rio Branco
Av. Ipiranga
Av. São João
Alameda Barão de Limeira
Av. Duque de Caxias
Rua Rego Freitas
Rua Gal. Jardim
Rua Bento Freitas
Largo do Arouche
Av. Vieira de Carvalho
Praça da República
Av. Ipiranga
Av. São João
Rua Conselheiro Crispiniano
Praça Ramos de Azevedo
Rua Xavier de Toledo
Viaduto Nove de Julho
Viaduto Jacareí
Rua Santo Amaro
Rua Maria Paula
Av. Brig. Luis Antônio
Chegada: Av. Paulista, 900

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Assuntos brasileiros, São Silvestre
Murilo Rodrigues 30 de dezembro de 2021
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