Brasil, um país sem presente

Noite de sexta. Belo casamento de dois jovens engenheiros, formados há cerca de um ano. Cerimônia. Festa. Encontro de ex-alunos próximos a eles, uns padrinhos, outros amigos. Alegria e esperança nos olhos. Pergunto ao noivo e já sei a resposta: próximos passos? Nova Zelândia. Fazer o quê? Ora, ser engenheiro? Por quê? Um ano desempregado, temos que buscar oportunidades e já tenho emprego certo – estou contratado. Falo com o padrinho e pergunto, também já sabendo a resposta: e o mestrado? Tudo certo, Alemanha, com duas alternativas e somente depende do trabalho para saber em qual das duas, acho que vou escolher a que falamos. O que é necessário para ser Engenheiro na Alemanha? Cópia do Diploma, se for para empresa de Engenharia. E a namorada? Já está lá. Encontro outra colega deles, da mesma turma, que voara para Brasília e pergunto: que tal, como vão as coisas? Vou para Portugal. Alegria? Esperança? Para eles, sim, com todas as ferramentas para terem sucesso, como brilharam na carreira acadêmica aqui, certamente vencerão por lá. Para nós, que ficamos, nem tanto.

Para o Brasil, segundo estimativas do Confea, há um déficit de 20 mil engenheiros, quando 40 mil são formados em cada ano. A Rússia forma 190 mil, Índia 220 mil e China 650 mil. Faltam 20 mil engenheiros ao ano, mas nossos engenheiros brilhantes estão indo embora. O perfil destes ex-alunos de Empreendedorismo ou Planejamento dos Transportes fez com que eles abrissem empresas reais durante seu curso ou apresentassem projetos reais sobre e para a cidade de Manaus. Não há receptividade da prefeitura para seus projetos e ninguém os quer ouvir ou adotar as soluções propostas. Seus empreendimentos? Deram certo, mas como ser microempresário aqui, com tantas regras e tantos impostos?  Um deles analisou: imagine risco, no primeiro processo trabalhista a empresa quebra. Não há como ser capitalista sem capital, pois os juros e as regulamentações insanas afugentam novos empreendedores.

A mudança de cenários era imperativa, mas ainda não está claro como faremos. O discurso de posse do novo Ministro da Economia, contrário aos “rentistas” (que ou aquele que vive exclusivamente de rendimentos) é um alento de esperança e a modificação da lógica atual do Brasil, onde somente há espaço para os favorecidos do grande capital ou com relações fortes com o estado em algum nível, por meio de alguma “oportunidade”. A possibilidade de modificação deste cenário, pelo menos no discurso, já dá um ânimo para as próximas turmas, por que o passado recente está perdido.

Há uma vitória na semana da Zona Franca de Manaus: manutenção dos incentivos de Imposto de Renda. Que bom. Há um alinhamento de perspectivas de discurso, com nossas necessidades desenvolvimentistas. Mesmo assim, há temores de alguns e esperança de outros de nós. Todavia, pelo bem de nosso futuro, precisamos encontrar um caminho para aproveitar e olhar para as oportunidades. Que nossos mundos políticos e empresariais consigam construir juntos a esperança de um país melhor, de um Amazonas melhor, de uma Manaus melhor, com mais oportunidades para os jovens brilhantes pararem de considerar o exterior ou o concurso público como a única alternativa de futuro. Precisamos de um Estado menos medieval no trato dos cidadãos.

Festa acabando, sou abordado por ex-aluno deste final de ano, que foi meu orientado, ainda me sentindo alegre por aqueles que se casam ou que se vão, mas meio desolado pelo país. Neste cenário mental, pergunto ao recém concluinte: próximos passos? Resposta seca e direta: Alemanha. Belo jeito de acabar a noite. Acordo, animado com o sábado de Sol dúbio, tomo saboroso café. Logo depois, encontro jovem executivo de multinacional e pergunto: como vão as coisas? Ah, estou pensando em ir para Harvard… Que os formandos encontrem um país melhor ao final do ano. Feliz 2019 e boa sorte para nós, pois, segundo a FINEP, no país há 600 mil engenheiros, o que é equivalente a 6 para cada mil trabalhadores. Nos EUA e Japão, a proporção é de 25 engenheiros para cada mil trabalhadores. Longo caminho a percorrer e muitas oportunidades para explorar. Tomara que saibamos mirar mais nas oportunidades e menos nas questões secundárias, pelo menos para a próxima geração, pois a geração brilhante dos anos recentes já desistiu deste mundo medieval que criamos.

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