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Dia a Dia

Brasil tem recorde de mortes por coronavírus, e Bolsonaro diz não ter o que fazer

28 de abril de 2020 Dia a Dia
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presidente Jair Bolsonaro
Presidente Jair Bolsonaro disse que não faz milagre ao ser questionado sobre os números (Foto: Marcos Corrêa/PR)
Da Folhapress

SÃO PAULO e BRASÍLIA – O Brasil bateu um novo recorde de mortes registradas em 24 horas, com 474 óbitos, e ultrapassou a China no número total de óbitos pelo novo coronavírus.

O recorde diário anterior do Brasil era de 23 de abril, com 407 novas vítimas. O país é agora o nono com mais mortes no mundo.
Pouco antes de divulgar o novo recorde no total de mortes, o Palácio do Planalto cancelou uma coletiva de imprensa sobre ações para enfrentamento do novo coronavírus.

O ministro da Saúde, Nelson Teich, era um dos esperados na entrevista. Questionado, o ministério não apresentou justificativas para o cancelamento.

Já o Planalto alega que a mudança ocorreu “por motivo de ajustes nas agendas dos ministros”.

Questionado na saída do Palácio da Alvorada, o presidente Jair Bolsonaro afirmou lamentar mas não ter o que fazer em relação aos números.
“E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre​”, afirmou. Ele disse ainda que cabe ao ministro da Saúde explicar os dados.

Segundo o boletim mais recente do Ministério da Saúde, ao todo 5.017 pessoas morreram por Covid-19. A China, por sua vez, registra 4.637 mortos, segundo a Universidade Johns Hopkins.

No Brasil, os casos confirmados também estão mais concentrados em uma região, a Sudeste. Ao mesmo tempo, estados de outras regiões já apresentam alta incidência da doença, que é a proporção de casos pela população -as maiores são registradas no Amazonas, Amapá, Ceará, Roraima e Pernambuco.

Em números absolutos, São Paulo ainda lidera em número de registros, com 24.041 casos confirmados. Em seguida, está o Rio de Janeiro (8.504), Ceará (6.918) e Pernambuco (5.724).

O estado paulista também tem o maior número de mortes confirmadas, com 2.049 até o momento. Depois, vem o Rio de Janeiro, com 738, e Pernambuco, com 508.

Os primeiros casos confirmados do novo coronavírus foram registrados em Wuhan, na China, em dezembro de 2019. Já no início da pandemia o país determinou uma quarentena sem precedentes nas cidades afetadas. O isolamento, ao que tudo indica, levou à diminuição do número de novos casos confirmados por dia e culminou no relaxamento da quarentena no fim de março.

O recorde de mortes por coronavírus em 24 horas registradas na China aconteceu em 17 de fevereiro, após o país asiático adotar uma nova metodologia para confirmação de casos e vítimas.

A velocidade com que o vírus se alastra e causa mortes no Brasil é similar à observada na China. Ambos os países levaram cerca de dois meses para atingir os primeiros mil mortos após o registro do primeiro caso.

Os dados sobre mortes nos dois países desde o surgimento do vírus indicam que o Brasil ultrapassou a China devido à queda no número de novas mortes do país asiático.

No intervalo de 18 dias, entre 29 de março e 16 de abril, a China registrou 42 mortes novas mortes. No mesmo período, O Brasil registrou 1.788.

Assim como na China, é possível que no Brasil haja subnotificação do número de pessoas infectadas e de mortes causadas pela Covid-19.
Especialistas têm apontado a baixa oferta de testes como fator que dificulta ter um cenário real sobre a epidemia no país.

Atualmente, dados do Ministério da Saúde apontam ao menos 1.156 mortes ainda em investigação.

Em São Paulo, por exemplo, os cemitérios públicos têm recebido por dia entre 30 a 40 corpos de pessoas que morreram com suspeita de estarem contaminadas pelo novo coronavírus.

Por causa do atraso nos resultados dos testes laboratoriais que confirmariam a infecção, a maior parte desses óbitos não entrou nas estatísticas oficiais do Ministério da Saúde.

Dados de gráficos apresentados em boletim epidemiológico da pasta divulgado nesta segunda (27) dão pistas desse cenário.

O panorama mostra que, embora a maior parcela das novas mortes pelo novo coronavírus confirmadas a cada dia seja recente, há casos de óbitos que demoram até um mês para terem a investigação concluída e entrarem nos registros.

Um exemplo é que, entre as 338 mortes confirmadas na segunda-feira, havia casos de óbitos que ocorreram em 23 de março –há mais de um mês.

Relatórios da pasta também indicam aumento da transmissão do novo coronavírus -diferente do cenário registrado na China, onde os dados apontam queda.

Após uma resposta inicial turbulenta, com direito a censura em redes sociais e restrição de informações, a China zerou pela primeira vez, em 18 de março, a transmissão local do Sars-CoV-2.

Com os resultados positivos oriundos do isolamentos social, o país começou a ensaiar ainda em março o relaxamento da quarentena. No dia 28 daquele mês, o metrô voltou a funcionar junto com outros serviços de trem em Hubei.

Enquanto isso, no Brasil, os primeiros casos confirmados de transmissão sustentada eram anunciados pelas autoridades sanitárias do estado de São Paulo, onde a quarentena que estava prevista para chegar ao fim em 22 de abril foi prorrogada para 10 de maio.

No dia 22 de abril, o governador João Doria (PSDB) anunciou que a “reabertura econômica” do estado começaria em 11 de maio. Apenas um dia mais tarde, porém, Doria disse que poderia voltar atrás quanto a reabertura caso os índices de isolamento social não ficassem acima de 50%.

Pelo menos 24 cidades de São Paulo flexibilizaram a quarentena via decreto a revelia das determinações do governo estadual. O governador ameaçou, inclusive, entrar na Justiça contra as prefeituras. Não foi preciso.

O Ministério Público suspendeu a reabertura do comércio em pelos menos 11 cidades que chegaram a reabrir lojas ou apontar datas para retomada.

Enquanto na China, ao que se sabe, não houve interrupções ou grandes manifestações contrárias a quarentena, no Brasil, apoiadores de Bolsonaro -que se manifestou diversas vezes contra o isolamento social- têm participado de carreatas pedindo o impeachment do governador paulista e a reabertura da cidade.

Bolsonaro tem visto sua popularidade cair devido à forma como está gerindo a pandemia no país. O presidente chegou a demitir o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, por manter a orientação a favor da quarentena.

Para evitar novo desgaste e a exposição de desacordos no alto escalão do governo, o novo ministro, Nelson Teich, passou por treinamento sobre como lidar com a imprensa.

Teich não começou bem e conta com a reprovação de secretários de Saúde. Segundo eles, não houve mais diálogo com o ministério desde o dia 17 de abril, quando o novo ministro tomou posse. Com Mandetta, afirmam, as conversas eram diárias.

Após críticas, o ministro marcou a primeira reunião com presidentes de conselhos de secretários para esta quarta-feira, 29.

Desde a posse de Teich, a pasta tem mudado o modelo de divulgação de dados e deixado de divulgar diariamente balanços completos sobre a doença, diferente do que ocorria na gestão anterior.

A pasta também tem dado mais ênfase à divulgação de outros dados, como o total de pacientes tidos como recuperados -até esta terça, eram 32.544, o equivalente a 45% dos registros.

Até o momento, os Estados Unidos registram o maior impacto do coronavírus no mundo. O país atingiu nesta terça 1 milhão de casos confirmados de Covid-19, marca inédita entre os 185 países impactados pela pandemia. O patamar alarmante foi atingido 12 dias depois que o presidente Donald Trump anunciou um plano para a reabertura econômica dos estados americanos.

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Assuntos coronavírus, Covid-19, Jair Bolsonaro, mortes por covid-19
Valmir Lima 28 de abril de 2020
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