Brasil registra declínio em índice que mede a liberdade de expressão

Policiais devem ter treinamento específico e justificar a opção pelo uso do armamento (Foto: Divulgação)

Policiais usam balas de borracha em protesto em São Paulo: liberdade de expressão caiu em manifestações públicas (Foto: Divulgação)

Por Débora Sögur Hous, da Folhapress

SÃO PAULO-SP – O Brasil é o 2º país em que as garantias para a liberdade de expressão mais decaíram nos últimos três anos, diz relatório Agenda da Expressão (Expression Agenda ou XPA), elaborado pela organização não governamental Artigo 19, e publicado nesta quarta-feira, 5.

Segundo o estudo, o nível de liberdade de expressão tem declinado no mundo há dez anos, mas teve sua queda acentuada nos últimos três, quando a imprensa mundial viu sua liberdade cada vez mais restrita. O Brasil registrou uma decadência mais acentuada na liberdade de expressão em ambientes online ou no espaço público comum, como em protestos ou manifestações.

A organização considera especialmente alarmantes os números de ataques a jornalistas em nível global: até agora 78 jornalistas foram mortos; 326 foram detidos (194 sob a acusação de terem enfrentado o Estado; 97% dos comunicadores presos trabalhavam em nível local; em média, 90% das agressões físicos contra jornalistas ficaram impunes.

No mundo, recentemente teve destaque a morte de um jornalista saudita na Turquia. No Brasil, a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) registrou mais de 150 agressões a jornalistas no contexto eleitoral, entre ataques verbais e físicos. A Artigo 19 também compilou 22 assassinatos de blogueiros, radialistas e comunicadores no interior do Brasil, entre 2012 e 2016.

O relatório da ONG também menciona o cerceamento da imprensa através de armadilhas judiciais. Por exemplo, a Folha de S.Paulo teve entrevista com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vetada e censurada pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Luiz Fux. O processo ainda tramita na corte.

Nas palavras do estudo, o assédio judicial inviabiliza principalmente a existência de jornalismo no interior do país. Isto ocorre porque blogueiros, radialistas e comunicadores de pequenos veículos locais temem ter suas atividades interrompidas por processos, que podem miná-los economicamente. O resultado são os chamados desertos de notícia. Áreas no país que não têm atividade de nenhum tipo de veículo jornalístico para fiscalizar oligarquias políticas locais.

Segundo Thomas Hughes, diretor executivo da Artigo 19, o fenômeno da queda de liberdade de expressão e de imprensa é global e não tem poupado nem países que tradicionalmente tinham esses direitos muito protegidos, como os Estados Unidos. “Há uma ascensão muito clara ao poder de homens com um viés autoritário, Donald Trump tem funcionado como uma figura na qual muitos governantes se inspiram. É um movimento político que pode se tornar mais presente nas democracias do mundo”, disse.

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