
EDITORIAL
MANAUS – O governo Bolsonaro terminou no dia 30 de outubro. Desde a proclamação do resultado da eleição presidencial, Jair Bolsonaro (PL) se recolheu aos aposentos no Palácio do Alvorada, a residência oficial do presidente, e não se viu mais qualquer ação de governo. Os ministros de Bolsonaro também sumiram. Paulo Guedes, o fanfarrão das frases de efeito cheias de defeitos, calou-se.
O país segue como um navio sem comandante, guiado pelo funcionalismo do Estado, que não depende de presidente. As instituições funcionam com o trabalho dos técnicos, independente do comandante mor.
No noticiário profissional nenhuma informação sobre decisões de governo. A mídia brasileira e internacional volta-se para a equipe de transição, dirigida pelo vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin (PSB).
O Congresso Nacional parece não sentir a falta do presidente da República, apoiado por esse mesmo Congresso até às vésperas do segundo turno da eleição. A Câmara dos Deputados, cuja maioria estava com Jair Bolsonaro, se anima com o governo futuro e já acena para ele com sorriso largo.
Enquanto isso, Lula, em menos de 20 dias depois do resultado das urnas, é tratado como se já fosse o presidente do Brasil, apesar dos 44 dias que faltam para a posse.
Na COP27, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, Lula diz, no primeiro discurso, que o convite para participar do evento não foi dirigido a ele, mas ao seu país, o Brasil. De fato, foram três anos de participação acanhada do Brasil nas Conferências das Partes.
Por isso, Lula foi tão festejado e atuou como representante do Brasil sem exercer cargo algum. O presidente eleito deu dois recados importantes: 1) o de que é preciso tirar do papel os acordos já firmados nas conferências anteriores e 2) de que os países ricos, os que mais contribuíram para a devastação ambiental e comprometimento do futuro do Planeta Terra, precisam contribuir financeiramente para reverter os problemas causados principalmente aos mais pobres.
Sobre a Amazônia, Lula deixou um recado claro: “Não há segurança climática sem uma Amazônia protegida. Não mediremos esforços para zerar o desmatamento e a degradação de nossos biomas até 2030. Mas também cobrou dos 130 países membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima.
A fala de Lula sobre a Amazônia significa uma guinada do Brasil para a proteção desse bioma, tão importante para o mundo.
Cabe aqui um retrospecto do governo encerrado em 30 de outubro no tratamento dispensado à Amazônia. Uma das primeiras medidas foi cortar os acordos que viabilizavam o Fundo Amazônia, e fechar as torneiras para as entidades que trabalhavam pela preservação da floresta.
Depois, o governo tratou de desmontar as estruturas de fiscalização e ação de combate ao desmatamento, às queimadas e ao garimpo ilegal na Amazônia. Ibama, ICMBio, Funai foram sucateados para não incomodar os que pretendiam cometer crimes ambientais, roubar o minério das terras amazônicas e invadir terras indígenas.
O próprio ministro do Meio Ambiente, responsável pela política ambiental, chegou a propor que o governo aproveitasse o “descuido da mídia”, que só se preocupava, nas palavras do ministro, com a “Covid”, para derrubar as cercas de proteção da floresta e “passar a boiada”.
Depois, o mesmo ministro foi acusado de atuação para proteger grandes madeireiras que surrupiavam madeira fruto de desmatamento ilegal na Amazônia. Graças a essas denúncias, o ministro foi obrigado a deixar o cargo.
No discurso do presidente da República do governo que terminou em 30 de outubro, o Brasil era um exemplo de preservação do meio ambiente porque ainda dispõe de mais floresta do que os países da América e da Europa. Tal discurso nunca foi ouvido pela comunidade internacional.
Lula disse, na COP27, que a devastação da Amazônia e de outros biomas ficaram no passado. “Os crimes ambientais, que cresceram de forma assustadora durante o governo que está chegando ao fim, serão agora combatidos sem trégua”.
No Brasil, a fala de Lula inundou o noticiário, enquanto Bolsonaro manteve-se isolado.
Nas ruas, manifestantes vestidos de verde e amarelo ainda persistem em frente aos quarteis do Exército, pedindo intervenção militar por não aceitar a vitória de Lula. Ainda não se deram conta que até Bolsonaro já passou o bastão ao próximo presidente.

